© divulgação

De que forma a pop art influenciou a produção artística brasileira nos anos 60?

A influência foi muito indireta. O Brasil se inseria, mesmo que perifericamente, na sociedade de consumo e isso gerava vínculos internacionais pela comunicação de massa, mas conhecíamos muito mal a produção da pop art. A informação sobre arte transitava lentamente. Quando vimos a pop na Bienal de São Paulo de 1967, o trabalho dos artistas brasileiros já estava encaminhado.

 

Quais as peculiaridades da produção brasileira dessa época?

A impessoalidade da execução, o que implicava na possibilidade de reprodutibilidade da obra, a interação entre obra e espectador, a não hierarquia entre alta e baixa culturas e a relação entre arte e política seriam as principais características.

 

Qual a importância do pop brasileiro dos anos 60 para a arte contemporânea brasileira?

Prefiro, em vez de pop brasileiro, a denominação de Nova Figuração Brasileira, mais fiel às nossas especificidades. Essa produção junto a de alguns artistas que vieram do neoconcretismo e que com ele romperam, demarca o momento do contemporâneo no Brasil.

 

Como foi a relação com a censura após o governo militar de 1964?

Até a edição do AI-5 havia uma grande tensão social, mas a produção não perdeu sua dinâmica. Após 1968 a censura se fez sentir mais concretamente como repressão, impedindo, para citar algo concreto, algumas exposições. Durante a década de 1970, pouco a pouco, foi-se reconquistando o espaço cultural.

 

As obras que tinham uma mensagem política mais “aguda”, digamos, despertavam o interesse de compradores naqueles anos?

Parece-me que os compradores daquela produção tinham um vínculo de cumplicidade cultural com aquela produção. A questão política era apenas uma das facetas.

 

Vocês viviam exclusivamente da venda dos quadros ou havia necessidade de outra atividade paralela?

Havia um sentido de profissionalização entre os artistas que surgiram na segunda metade da década de 1960 que se baseava na existência relativamente recente de galerias de arte mais formais – como a Galeria Relevo e a Petite Galerie no Rio, que se abriram para a nova produção. Mas, ao que me lembre, viver de arte era exceção e não a regra.

 

Você sente que agora, passados quase 50 anos, existe uma procura crescente (por parte de colecionadores, museus e galerias), por esses trabalhos da década de 1960?

Creio que sim e acho natural, pois já se tornou uma produção histórica.

 

Lute, de 1967…?

Lute foi concebido como um múltiplo de tiragem ilimitada que seria distribuído na porta das fábricas. Esse tipo de propósito em 1967 representava um sério risco pessoal. Ele foi um trabalho que, para mim, representou o limite de tensão entre arte e política.

 

 

Compartilhar: