© João Vergara

DASARTES 25 /

Carlos Vergara

À vontade em seu território de criação, Vergara fala de suas obras e viagens

Como se dá seu processo criativo?

Não tem regra. É trabalho. Na verdade, estou sempre em torno de um assunto, às vezes algo que me chamou atenção, como aconteceu com a explosão do presídio Frei Caneca. Um dia, vi a notícia no jornal e resolvi filmar e daí veio uma exposição inteira. Também sou um artista viajante, não como turismo, mas como imersão em algo que não conheço para ver o que me “bate” ali. Assim foram minhas duas viagens à Capadócia. É um tipo de lazer produtivo, de onde normalmente produzo trabalhos mais “portáteis”, como os lenços e monotipias. Nem sempre trabalho todos os dias, mas estou sempre aqui lendo, vendo e revendo coisas para me animar. Presto muita atenção no trabalho dos outros também, alimento-me de jovens e velhos artistas. Acho que uma das funções da arte é mostrar o invisível do visível, então estou sempre de olhos abertos, vendo e pensando em produzir. O método não existe.

Como se dá a organização de seu ateliê?

Vai tomando formas diferentes a cada etapa de meu trabalho. Como gosto de trabalhar com coisas grandes, preciso de espaço, e como trabalho com pigmentos naturais, uma pintura muito úmida, também pinto do lado de fora. Gosto de ter os trabalhos à vista, pois ideia puxa ideia e o próprio trabalho me indica caminhos novos. Então, o ateliê é organizado em duas áreas: uma onde vejo as coisas prontas e outra de produção, de onde só saem os trabalhos que aceitei. O ateliê é um pouco playground, um lugar de experimentação. Como passo a maior parte do tempo aqui, não pode ser só área de trabalho. A cozinha é importante, adoro cozinhar. Também é um lugar onde passa gente, quem trabalha comigo e quem eu gosto de convidar a visitar. Tem que ser um lugar vivo.

Seu ateliê está em fase de expansão. Quais os planos para o novo espaço que está sendo criado?

Eu preciso de uma área de estocagem profissional para as coisas que não quero vender, trabalhos que “tombei” e gosto de ver de vez em quando, coisas que quero proteger e permitir serem vistas e usadas por outros. Também tenho uma biblioteca grande e muita coisa fotográfica, pois trabalho com fotografia desde os anos 1960 e, da forma como esse material vem sendo armazenado, é um milagre que tenha sobrevivido até aqui. A expansão é a criação de uma reserva técnica profissional.

E a rotina do ateliê?

Sou uma pessoa matinal, venho para cá cedo e, quando começa a cair a luz, vou-me embora. Trabalho só com um assistente, além de uma pessoa administrativa e minha auxiliar de cozinha.

Quais os maiores obstáculos na elaboração de suas obras?

Não são bem obstáculos. A arte caminha para frente com o que a gente não sabe. Quando se inventa um trabalho complicado, essa complicação é um motor, pois ela faz com que você tenha que inventar sua própria solução. Cada discurso cria sua própria linguagem. Eu não tenho obstáculos, tenho as dificuldades que todo artista tem em produzir alguma coisa que, primeiro, me surpreenda; segundo, que me satisfaça; terceiro, que satisfaça meus pares – pessoas que conhecem arte; e, por último, algo que valha a pena dividir com os outros.

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