Caravaggio – A luz dramática do cotidiano

© Galleria Nazionale di Arte Antica, Roma

A pintura polêmica e transgressora de Caravaggio chega à América Latina em exposições na Casa Fiat de Cultura, em Minas Gerais, e no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, em São Paulo, seguindo depois para Buenos Aires, na Argentina. O italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio viveu entre 1571 e 1610 e se estabeleceu como um precursor do barroco, marcando um período de transformações da história da arte. Uma das suas maiores lições foi levar os elementos cotidianos para a arte, questionando a beleza e a idealização religiosa produzida no Renascimento. Os seus primeiros trabalhos retratavam pessoas comuns e naturezas mortas. Essa preocupação em incluir os objetos na mesma perspectiva apareceu também em seus quadros posteriores.

Caravaggio apresenta uma simplificação da pintura, principalmente no fundo das telas. O pintor deixa de lado os elementos da arquitetura, que eram muito importantes nos movimentos artísticos anteriores: o renascimento e o maneirismo. As figuras se destacam e são aproximadas para o primeiro plano, descontextualizando o mundo. Utiliza todos os recursos de Leonardo da Vinci na passagem do claro e escuro, mas modela a figura e desaparece com a linha que dividia uma personagem e outra. Cria uma luz dramática e artificial que propõe uma unidade visual ao considerar todos os elementos e cores da tela, em contraposição à multiplicidade do mundo renascentista.

Segundo Percival Tirateli, professor de História da Arte Brasileira e especialista em barroco do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), o artista faz a passagem do tátil e da individualidade para o que chamamos de pictórico, e esse pictórico traz o escuro que não existia antes. Nancy Betts, professora de História da Arte da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), lembra que Caravaggio viveu logo após a Contra Reforma, período muito violento da história, em que a Igreja Católica buscava difundir seus valores através da Inquisição. Sua pintura ressalta a intensidade das trevas: a luz mostra a figura em contraposição à candura anterior do Renascimento. Seu sucesso ocorre também pela glorificação da violência através do martírio, culto que interessava à Igreja da época. Pode-se observar essa violência nos quadros Judite e Holofernes (1598-1600), A incredulidade de São Tomé (1602), Davi com a cabeça de Golias (1606-07), Degolação de São João Batista (1608) e Medusa (1906) – essa última confirmada para a exposição.

Marcos Rizolli, crítico de arte independente e professor da pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, destaca “a maneira com que Caravaggio tratou personagens santas, subvertendo as expectativas da Igreja católica – sua principal contratante – ao representar cenas e passagens bíblicas com uma naturalidade desconcertante”. O pintor buscava aproximar a ideia de religiosidade com o homem do povo. As suas figuras têm o aspecto de trabalhadores. Seus modelos também foram homens simples, mendigos e prostitutas. O professor Rizolli também afirma que Caravaggio “soube, como poucos artistas, tratar a dinâmica corporal – tensões musculares, movimentos abruptos e a dor física, por exemplo – para acentuar os valores simbólicos que emolduravam suas criações”.

Apesar de subversor, o trabalho de Caravaggio fez sucesso principalmente por causa das pinturas retabulares, aquelas que ficam nos altares. De acordo com o professor Tirateli, sua opção de utilizar apenas um foco de luz na cena e sua pincelada mais larga permitiam que essa fosse vista de longe. Com isso, foi o precursor de uma visualidade mais legível, ao contrário das imagens renascentistas ou maneiristas, que eram muitas detalhadas e precisavam ser vistas de perto.

A obra de Caravaggio passou alguns séculos esquecida e só foi resgatada no século 20 pelo italiano Roberto Longhi. O historiador pesquisou o pintor durante toda a sua vida, a partir da sua tese universitária de 1911. Mas, o que marcou sua produção foi a primeira grande exposição de Caravaggio que organizou em Milão em 1951. Foi nessa data que o mundo (re)conheceu o pintor. Longhi também reuniu diversos artistas que pintavam à sua maneira, criando o termo caravaggistas.

 A Editora Cosac Naify lançou recentemente em português a versão definitiva da monografia de Longhi de 1968. O livro, repleto de imagens, apresenta um panorama detalhado da produção de Caravaggio. Já Rosella Vodret, curadora da exposição, publicou um estudo que atualiza as pesquisas de Longhi em 2009: Caravaggio: l’opera completa. O livro tem uma versão em inglês: Caravaggio: the complete works (2010), ainda sem uma edição brasileira.

A audácia e a crítica social e religiosa marcam a pintura de Caravaggio. Por exemplo, o quadro São Mateus (1602) teve que ser refeito após a entrega à Igreja. Na primeira versão, o santo é mostrado como um velho e pobre trabalhador de pés descalços. E o anjo que inspirava a escrita segurava a mão do homem, como se fosse uma professora, demonstrando sua dificuldade para redigir o Evangelho. Já a versão refeita mostra São Mateus segundo as convenções da época.

A Morte da Virgem (c.1601-1606) também foi recusada pela Igreja, provavelmente porque a modelo feminina era uma prostituta local. Mas, observa-se também a Virgem Maria como uma mulher comum, com as pernas à mostra e a barriga inchada. Caravaggio teve a sorte de ter a proteção de alguns duques e cardeais, o que permitiu que suas obras fossem guardadas para a posteridade.

Depois da morte de Caravaggio apareceram muitos seguidores importantes. Os pintores imitavam o modo caravaggesco não só em Roma, mas em outras cidades da Itália, na França e na Espanha, principalmente no período entre 1610 e 1630. Algumas dessas obras eram tão parecidas que dificultaram a identificação de originais de Caravaggio.

A pedido da Dasartes, o professor Tirateli selecionou alguns caravaggistas que se destacaram. Jusepe de Ribera, espanhol que vivia em Nápolis, criou uma pintura tenebrista que influenciou a pintura espanhola. Orazio Gentileschi ressaltou elementos realistas – o pintor é pai da Artemísia Gentileschi, artista que fez inúmeras versões da Judite. Hendrick Terbrugghen tinha um trabalho muito semelhante às primeiras obras de Caravaggio. Ele pintava as mesmas roupas e o mesmo tipo de chapéus. Simon Vouet foi muito influenciado pelos movimentos violentos que Caravaggio produziu. Sua obra era bem sensual, porém trabalhava mais detalhadamente os fundos dos quadros. Antiveduto Gramática trabalhou junto com Caravaggio. Já o professor Rizolli destaca Bartolomeo Manfredi, Carlo Saraceni, Jusepe de Ribera, Orazio Borgianni e Valentin de Boulogne, “artistas que perseguiram os radicais valores da luz e sombra, da dramaticidade figural e a religiosidade de Caravaggio”.

 

O curador Fabio Magalhães ressalta que só existem 64 trabalhos de autoria inquestionável de Caravaggio.

 

Segundo Fábio Magalhães, curador brasileiro da mostra, pode-se afirmar também que Rubens, La Tour, Rembrandt e Velázquez se impressionaram com a pintura de Caravaggio e incorporaram alguns elementos na criação de seus estilos.
O Brasil acompanhou a tendência internacional da (re)descoberta de Caravaggio e recebeu em 1954, na comemoração dos 400 anos de São Paulo, uma exposição em que vieram duas pinturas, Davi e Golias e Ceia em Emaús (a versão da Coleção de Pinacoteca di Brera, em Milão). A segunda exposição aconteceu no MASP só em 1998. Com curadoria de Rosella Vodret, A Lição de Caravaggio apresentava A Trapaça e Narciso, além de 33 pinturas executadas por 27 caravaggescos.

Em 2012, a exposição Caravaggio e os Caravaggescos também tem curadoria de Rosella Vodret, em conjunto com Giorgio Leone e Fábio Magalhães, este do Brasil. De acordo com Eugênia Saturni, diretora da Base7, produtora da mostra, “a exposição de Caravaggio e seus seguidores apresentará cerca de 25 obras, sendo oito dele. O evento está sob comando da Superintendência para o Patrimônio Histórico, Artístico e Etno-antropológico e do Polo Museológico de Roma. Para dar uma ideia da importância desta mostra, em Roma, na Itália, a comemoração do quarto centenário de falecimento de Caravaggio reuniu 26 de suas obras”.

Segundo Fábio Magalhães, o interesse é apresentar obras do período maduro de Caravaggio através de obras que nunca estiveram no Brasil, como A Madalena em êxtase (1606). O curador ressalta que a obra de Caravaggio, na verdade, é muito pequena. Até hoje foram identificados apenas sessenta e quatro trabalhos sem problemas de atribuição, dificuldade comum para aquele período.

O presidente da Casa Fiat de Cultura, José Eduardo de Lima Pereira, destaca a importância da exposição que trará mais de 10% da obra de Caravaggio para o país, além de seus seguidores: “É uma grande oportunidade de apresentar a exposição em Minas Gerais, onde o público pode contrapor a obra ousada de Caravaggio com a tradição do barroco brasileiro encontrado nas igrejas desse estado”.

Depois da Casa Fiat de Cultura, a exposição irá para o MASP, em São Paulo. Para Teixeira Coelho, curador do museu, “é importante a exposição ser exibida neste espaço devido à possibilidade de relacionar historicamente a produção de Caravaggio com o acervo. O público terá a oportunidade de ter uma leitura em que observará as diferenças de Caravaggio em relação ao que foi produzido antes e depois dele”.

Segundo Teixeira Coelho, dentro do acervo do MASP pode-se pensar uma aproximação de Caravaggio com El Grecco, por exemplo. Os dois pintores são incisivos na questão da luz e no tenebrismo – mas com uma diferença brutal. O conceito de luz e sombra de El Greco é místico. Já a de Caravaggio é teatral e pagã. Nessa mesma linha de leitura comparativa, pode-se relacionar Ecce Omo, uma das obras de Caravaggio que estará na exposição, com a Ascensão de Rafael, que pertence ao acervo do museu. O Cristo de Rafael é uma figura recatada, ocultada, divinizada. Caravaggio mostra um homem feito de carne e osso, que está triste e abatido.

Se pensarmos possíveis relações, releituras e influências de Caravaggio nos artistas brasileiros, Vik Muniz talvez seja o mais conhecido. O artista produziu as releituras Medusa Marinara (1997) e Pictures of Junk Series: Narcissus, After Caravaggio (2005). Num exercício analítico semelhante, Fábio Magalhães citou o catarinense Luiz Henrique Schwanke, cuja influência de Caravaggio pode ser observada no projeto da instalação A Deposição de Cristo. A obra de Schwanke também apresenta uma discussão sobre a luz, como no trabalho Cubo de Luz / Antinomia, exposto na XXI Bienal Internacional de São Paulo.

Segundo Percival Tirateli, pode-se observar a influência de Caravaggio (juntamente com Michelangelo) na obra de Sérgio Ferro, premiado como melhor pintor da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), em 1987. O artista também realizou murais para várias instituições na França e no Brasil, como o Memorial da América Latina, em 1990, e o Memorial de Curitiba, em 1996 e em 2002.

Na última década observamos um retorno à pintura nos trabalhos de alguns jovens artistas. Pode-se destacar o pintor carioca Daniel Lannes, indicado ao Prêmio PIPA (2011) e ganhador do prêmio Novíssimos (Salão de Arte IBEU 2010). Segundo o artista, é possível criar paralelos com a sua série Safe Sex Project, exposta no Centro Cultural São Paulo e logo depois na Galeria Laura Marsiaj, no Riom em 2007. Nessa série, a luz, os cenários ordinários, as naturezas mortas e um olhar homoerótico de Caravaggio são relidos.

<serviço>Caravaggio e os Caravaggescos

Casa Fiat de Cultura
De 15 maio a 17 julho
Rua Jornalista Djalma Andrade 1250 |Belvedere, Belo Horizonte
31 3289 8900

MASP
De 25 julho a 23 setembro
Avenida Paulista 1578 | Bela Vista, São Paulo
11 3251 5644

 

 

 

Compartilhar: