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Rosangela Rennó e Cia de Foto são os próximos artistas brasileiros nomeados para o prêmio BESphoto 2012. Competem com um português, Duarte Amaral Neto, e um moçambicano, Mauro Pinto, por um prêmio final no valor de 40 mil euros. O júri de seleção foi constituído por Diógenes Moura, curador de fotografia da Pinacoteca do Estado de São Paulo (Brasil), Delfim Sardo, curador, crítico de arte e professor (Portugal) e Bisi Silva, curadora e fundadora/diretora do Centro de Arte Contemporânea de Lagos, CCA Lagos (Nigéria). Os artistas selecionados recebem uma bolsa de produção para a realização da exposição BESPhoto, que se realiza entre junho e agosto de 2012, no Museu Colecção Berardo, em Lisboa. A exposição segue, posteriormente, para a Pinacoteca de São Paulo. O vencedor será escolhido pela avaliação do trabalho apresentado nessa exposição, por um júri internacional.

Segundo o comunicado oficial, a nomeação de Rosângela Rennó prende-se com a “complexidade da forma como tem desenvolvido uma maturada reflexão sobre a natureza do fotográfico, articulada com o papel da memória. Essa nomeação surge pelas exposições apresentadas na Galeria Vermelho, em São Paulo, e na Galeria La Fábrica, em Madrid”. Sobre a seleção do Cia de Foto – coletivo com sede em São Paulo, desde 2003, formado por João Kehl, Carol Lopes, Rafael Jacinto e Pio Figueiroa – o júri realça “a qualidade da série Carnaval (apresentada no âmbito do ‘New York Photo Fest’), num processo de trabalho que revela segurança técnica e, sobretudo poética. Trata-se da preparação de uma segunda camada para a memória de cada uma das imagens, ou da série, como um todo. Esse exercício estende-se ao vídeo que acompanha o trabalho, ao fazer com que cada personagem avance para o olhar do espectador criando um outro tempo num plano mais fechado”.

A oitava edição do prêmio BESPhoto, criado em 2004, contempla, pela segunda vez, projetos fotográficos realizados por artistas de expressão portuguesa no Brasil e Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), alargando o seu enfoque inicial, que se destinava apenas a artistas portugueses.

Na primeira edição expandida a outros países, o BESphoto 2011 atribuiu o prêmio à artista portuguesa Manuela Marques, que competiu com Carlos Lobo (Portugal), Kiluanji Kia Henda (Ângola), Mário Macilau (Moçambique) e Mauro Restife (Brasil). Curiosamente, o projeto vencedor de Manuela Marques procurou refletir sobre detalhes de uma cidade brasileira, a megalópole São Paulo. Mauro Restife foi o único brasileiro selecionado para a edição de 2011, mostrando 28 trabalhos de cariz documental sobre a relação entre arquitetura e paisagem urbana.

No percurso de um artista não há muitos elementos que possamos quantificar para além do número de exposições individuais e coletivas por ano, do número de textos de imprensa e catálogos publicados, do número de coleções onde o artista se encontra representado, da evolução do respectivo valor de mercado e, claro, do número de prêmios recebidos. Como diz Sarah Thorton, no livro Sete Dias no Mundo da Arte, “numa narrativa de carreira ideal que começa com a conclusão do curso numa escola de arte de renome e culmina com uma retrospectiva individual num museu principal, os prêmios são importantes pontos de virada que clarificam o valor cultural de um artista, fornecem prestígio e apontam para o potencial de excelência duradoura”. Nos últimos anos, o Prêmio BESphoto destacou-se como um dos mais mediáticos eventos da especialidade, reconhecido pelo meio artístico e cultural, num contexto que, apesar da sua dimensão reduzida, tem conhecido diferentes distinções, quase todas ligadas ao mundo empresarial. “As honras desonram” (Flaubert)?

Numa breve entrevista à revista L+arte (nº78, Dezembro 2010), Paulo Padrão, diretor de comunicação do Banco Espírito Santo, entidade responsável por este galardão, sublinhava que “o alargamento do âmbito geográfico do prêmio ao Brasil e países africanos de língua oficial portuguesa serve o objetivo de interligar cenas culturais que, tendo profundas raízes comuns, nem sempre têm tido uma experiência de partilha das diferentes realidades e respectivas produções artísticas. Este alargamento geográfico tem uma sobreposição com a estratégia de internacionalização da atividade comercial do Banco Espírito Santo, mas também da sua postura mecenática”. Para a realização do BESphoto, o protocolo de colaboração entre o Banco Espírito Santo, o Museu Colecção Berardo e a Pinacoteca do Estado de São Paulo, segundo comunicado institucional, tem o “intuito de promover a criatividade e integração dos artistas plásticos contemporâneos de língua portuguesa no panorama internacional e com a ambição de construírem aquele que será o maior prêmio de arte contemporânea do Atlântico Sul”.

Mas qual é a potencial importância de uma língua para a configuração de um projeto deste gênero, além das razões estratégicas comerciais de um Banco? “Sabemos que a língua é um corpo de prescrições e de hábitos, comum a todos os escritores de uma época. Isso quer dizer que a língua é como uma natureza que passa inteiramente através da fala do escritor, sem contudo lhe dar nenhuma forma, e sem mesmo a alimentar: é como um círculo abstrato de verdades, fora do qual começa a depositar-se a densidade de um verbo solitário” – sublinha Roland Barthes (O grau zero da escrita). Pensar a produção artística contemporânea, uma determinada escrita da arte (arte contemporânea/fotografia), num palco linguístico com variações geográficas tão distintas pode ser arriscado e falível. O BESphoto estabelece, no entanto, uma plataforma na qual se inscrevem, em confronto ou diálogo ou contágio futuro, diferentes contextos, evoluções, marcações, apropriações, afinidades e formas. Poética, política, romanceada, utópica, mais e menos estridente, contida… A fotografia contemporânea de expressão portuguesa revela-se, como qualquer outra, através de escritas/territórios, mais e menos desordenados, nascidos de um confronto entre o artista e a sua sociedade, do artista e a sua liberdade, do artista e a sua memória, implicando quase sempre uma reflexão mais alargada, porque mediática, sobre arte, sobre os mecanismos de legitimação de um artista, sobre a relação entre arte e mundo empresarial. O maior desafio do BESphoto, no entanto, será o de nos permitir ver até que ponto a fotografia pode ser pensada, expandida no âmbito da produção artística contemporânea, testando os seus limites formais e conceituais dentro da sua própria área disciplinar ou fora do seu domínio, revelando, nas estruturas do seu campo discursivo, posições, inscrições e experiências muito variadas, independentemente da língua em que é falada.

 

 

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