Há quanto tempo você usa este espaço como ateliê?
Antes eu dividia um ateliê com o Rodrigo Braga, mas tivemos muitos assaltos e decidi que não ia ficar mais lá. Passei três meses no Centro procurando um lugar, até que achei esse prédio. Quando você entrava aqui, nunca imaginaria que isso se transformaria em alguma coisa, não tinha água, não tinha porta…

Depois de recuperar o espaço, como você estabeleceu sua rotina de trabalho?
A disciplina é a mesma há 15 anos, eu trabalho como funcionário, em horário comercial mesmo, de 10 h às 19 h. No meio do ano, eu tiro férias.

Sua produção é basicamente pintura?
Pintura e desenho. Às vezes, fico muito louco aqui no ateliê e invento algum projeto extra, fotos, livro, catálogo… E as exposições também exigem muita produção, tem transporte, embalagem, moldura. De vez em quando, eles pagam nada, a gente tem que se virar, é muita grana, uma grande baixa no orçamento. Mas eu acredito que se você tem outra profissão para bancar sua vida, não vai dar cem por cento de você à arte. Desde sempre, tentei viver com o que eu faço; aos 16 anos eu pintava camisas, grafitava bares e boates. Quando passei a fazer cursos de desenho e pintura, houve interesse de algumas galerias, mas Recife tem um mercado muito pequeno. Acho que a gente tem que ter uma vida simples. Viver de arte já é o luxo. Vejo muita gente falar que não pinta porque não tem tempo nem grana. Vende o carro! Qual é a prioridade? Ter um carro, viajar ou pintar?

Você não tem assistentes?
Não tenho, eu faço tudo, meu site, o tratamento das fotos, eu preparo a tela. Só tenho uma contadora, para não ser preso por dívidas, e a minha galeria, que é muito parceira.

Como foi sua trajetória? Quais são suas referências?
Eu comecei em 1993 um curso de desenho, fiz pintura no ano seguinte e comecei a pintar em casa. Sempre pintei em casa, só em 2000 fui para outro espaço. Sobre referências, dos mais antigos eu tenho Da Vinci, Basquiat, Rauschemberg e minha grande formação, que foi o Sunishi Yamada. Saí da faculdade para estudar com ele. Abandonei a federal porque não concordava com algumas coisas. Minha formação é de uma época de ressaca da arte conceitual, que chegou aqui com atraso. Era tudo vídeo, performance e instalação. O desenho e a pintura foram completamente abandonados aqui em Recife.

Qual fio conduz suas obras?
A mitologia de contos e povos ancestrais, selvagens. Minhas referências sempre foram contos antigos, até que eu percebi, em fotos antigas de família, que isso também é uma mitologia pessoal. Então todos os ícones que uso hoje são de fotos antigas de família. É como se fosse a foto de um sonho, de um pesadelo, que são as experiências mais incríveis que tenho. Também acho importante muito sentimento, eu critico muito essa coisa de um ponto na parede e um texto de Deleuze. Isso foi importante, mas já passou a época, já tem cem anos disso. Você não tem que fazer algo que ninguém entenda para ser bom. Acho engraçado que hoje é o mercado que faz isso. Como instalação, performance e vídeo não vendem, o mercado deu uma injeção nas outras coisas. E mais engraçado é ver os críticos acompanhando e legitimando o que eles diziam não dar conta da contemporaneidade, só porque o mercado os banca.

Os títulos das obras surgem durante o processo no ateliê?
Às vezes vêm de leituras que eu esteja fazendo durante o período, mas nunca sobre arte. Ocasionalmente, capto uma frase no meio de um texto, ou de uma música. Pode surgir de uma coisa superadolescente ou de algo bem “cabeça”.

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