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Bruno Faria

Bruno Faria

A matéria-prima do trabalho de Bruno Faria é a vida cotidiana das cidades. O artista parte de um ambiente que desperta seu interesse e depois pesquisa a história do local para nela encontrar um evento deflagrador de seu processo criativo. O resultado, em grande parte dos projetos, são intervenções que reambientam o local escolhido, por meio de um olhar crítico e provocador.

Durante residência artística na Cidade do México, o artista desenvolveu o trabalho Texcocosoundtrack (2012) – uma intervenc?a?o sonora que partiu do metrô local e se expandiu para outros lugares da cidade. Diariamente, vendedores entram no metro? para oferecer doces, brinquedos e CDs, munidos de uma caixa de som acoplada a mochilas, que emitem as mu?sicas oferecidas aos passageiros. Estimulado pelo contexto, Bruno gravou em CD o som do tráfego de carros na avenida Revolucio?n e, sem edição, incluiu cantos de pa?ssaros, numa colagem que simula um ambiente natural. Depois, o artista comercializou seu CD no metrô com as mesmas técnicas dos ambulantes. Bruno dizia a?s pessoas que o CD era um resquício do lago Texcoco, hoje em processo de desaparecimento porque foi em parte aterrado para dar lugar à cidade. Assim, o artista questionou a ideia de cidade como coletivo harmônico, realçando a penosa luta diária pela sobrevivência – e a vitória do interesse privado sobre o bem público.

Em outro trabalho – Museo 1985 (2012) –, Bruno atuou no bairro Colo?nia Roma da capital mexicana. O título alude ao ano em que a Cidade do Me?xico sofreu terrível terremoto, causando quase dez mil mortes. Toda a cidade foi abalada. As a?reas mais afetadas situavam-se sobre o antigo lago Texcoco. O terreno movediço sob os prédios e a neglige?ncia nas construc?ões causaram o colapso das estruturas. Bruno achou escombros remanescentes da tragédia e ali fez um museu fictício do próprio terremoto. Durante a ac?a?o, montou um quiosque na calçada e vendeu souvenirs (camisetas, canetas, la?pis, canecas e até ruínas com a logomarca do museu imaginário). Ironicamente, ele realçou o fato de que a capital mexicana e? a cidade com a maior quantidade de museus do mundo.

No Brasil, Bruno apresentou no Centro Cultural São Paulo o trabalho Oásis (2009), intervenção que ambientava no terraço do prédio uma praia artificial, com espreguiçadeiras, esteiras e guarda-sóis. Ao fazer sua pesquisa histórica, descobriu que na avenida 23 de Maio, há décadas, existira um córrego chamado Itororó, aterrado para dar lugar à atual via expressa. Utilizando espaço ocioso do prédio, Bruno construiu uma visão crítica do processo acelerado da urbanização, sempre predatório da paisagem natural.

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