Brasília, marco da arquitetura modernista

© Crédito: Thomaz Farkas/ Acervo Instituto Moreira Salles

Brasília foi chamada de Capital da Esperança pelo escritor e crítico de arte francês André Malraux, quando de sua visita ao Brasil, como ministro da Cultura do governo De Gaulle, no final dos anos 1950. Disse que “as colunas do Palácio da Alvorada representam o evento arquitetônico mais importante desde as colunas gregas”. Este discurso, pronunciado no lançamento da pedra fundamental da Casa da Cultura Francesa, em 1959, é memorável e previu novos tempos para o Brasil, em uma visão otimista.

Anteriormente, em 1958, o então presidente da Itália, Giovanni Gronchi, ao visitar a capital em construção, disse: “Brasília é a maior de todas as obras humanas desde os tempos romanos, está sendo edificada com o aspecto monumental de Roma e o sentido romano da perenidade”.

No ano de seu jubileu, desde o dia de sua inauguração, em 21 de abril de 1960, o desenho da cidade sonhada por Juscelino Kubitschek permanece inovador, arrojado, com certo frescor que enaltece a obra de um gênio.

Em comemoração ao aniversário de Brasília, estão previstas várias exposições, e livros serão lançados em todo o país, documentando a leveza dos desenhos de Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Roberto Burle Marx e tantos outros que tornaram nossa capital um marco da arquitetura mundial.

Nossa arquitetura modernista floresceu na complexidade de influências e ganhou, com o tempo, um rumo bem característico. A vinda do arquiteto franco-suíço Le Corbusier ao país, em 1936, lançou a semente de uma revolucionária visão estética, proporcionando experiências estimulantes acopladas as já iniciadas na década de 1920 com Gregori Warchavchik.

As histórias de Le Corbusier, Warchavchik, Costa e Niemeyer se cruzaram no início dos anos 1930, com a visita de Le Corbusier à Exposição de uma casa modernista de Warchavchik. Mais tarde, Warchavchik se associou a Lúcio Costa em alguns projetos, no escritório em que trabalhava um jovem arquiteto, Oscar Niemeyer. O resultado desta introdução modernista consolidou a realização do edifício do Ministério da Educação, no final dos anos 1930, projeto de Le Corbusier que contou com equipe formada por Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Affonso Reidy, J. Machado Moreira, Carlos Leão e E. Vasconcelos.

Niemeyer logo despontou como um verdadeiro virtuoso na utilização do cimento armado, ao edificar o conjunto da Pampulha, perto de Belo Horizonte, a convite do então prefeito Juscelino Kubitschek. Em entrevista ao jornal britânico Daily Telegraph, Niemeyer conta que “Pampulha foi o começo de Brasília”, já que JK previa para a construção da capital os mesmos problemas e dificuldades que ocorreram na construção do complexo mineiro e, por isso, procurou Niemeyer para desenhar os monumentos.

O arquiteto também integrou o júri que selecionou o projeto de Lúcio Costa para o plano piloto, em concurso da Novacap, estatal responsável pela construção de Brasília.

O projeto se baseia em dois eixos cruzando-se em ângulo reto, simplesmente como o sinal da cruz, envolto nas tradições históricas do Brasil, implantação do cruzeiro, marco que registra a conquista de novas terras. O ângulo reto, aliás, foi uma das características do traço de Le Corbusier que acabou influenciando a arquitetura e o urbanismo moderno brasileiro.

A genialidade de Niemeyer, no entanto, se faz notar nos traços singelos de sua concepção plástica, do Palácio da Alvorada ao Palácio do Planalto; do Congresso Nacional ao Palácio do Itamaraty; da Catedral à Biblioteca Nacional; do Ministério da Justiça ao Memorial JK; do Supremo Tribunal Federal ao Teatro Nacional. São tantos os signos definidores da linha do mestre que a visão do observador é de deslumbramento.

A ideologia comunista, pela qual Niemeyer é famoso, também está nas linhas e ângulos retos de edifícios como os Ministérios. Seu lado político se lembra, com nostalgia, da época da construção: “Vivíamos junto aos operários, frequentávamos as mesmas coisas, as mesmas boates, com a mesma roupa. Aquilo dava uma ideia de que o mundo estava evoluindo”.

Brasília é, em síntese, a concretização das curvas inspiradas nas montanhas e na sensualidade feminina, um olhar barroco, mais enxuto, onde o racional e o funcional dão o tom. Soluções audaciosas que refletem a emoção do belo, da poesia da forma na leveza das estruturas, proporcionando surpresas inesquecíveis complementadas com o paisagismo de Roberto Burle Marx.

A obra de Niemeyer, apesar de polêmica, representa a estética de um novo tempo, uma poética idealizada em uma visão humanista refletida nos valores da arte universal.

LIVROS:

Marcel Gautherot – Brasília
Org. Samuel Titan Jr. e Sergio Burgi

Livro composto por 153 imagens feitas pelo fotógrafo franco-brasileiro Marcel Gautherot em meados da década de 1960. A publicação conta também com um ensaio inédito do arquiteto e crítico inglês Kenneth Frampton.
Editora Instituto Moreira Salles . 192 páginas . R$ 85

O Concurso de Brasília: Sete Projetos para uma Capital
Milton Braga

O arquiteto paulista Milton Braga analisou os sete projetos premiados no Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil – ocorrido entre 1956 e 1957, que definiu a cidade como é conhecida hoje. A pesquisa mostra em profundidade os trabalhos selecionados, com descrições detalhadas de cada projeto e análise comparada de suas soluções.
Editora Cosac Naify . 288 páginas; 230 ilustrações . R$ 89,00

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