Brasil, terreno fértil para a arte contemporânea

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Um colecionador do Leste Europeu entra numa sala de leilões em Nova Iorque e arremata um Di Cavalcanti; um norte-americano do Texas apaixona-se por uma natureza-morta, com vista típica pernambucana, de Cícero Dias. Quem diria, isso agora é possível, quase comum, na rotina dos leilões internacionais.

“Arte brasileira é hoje uma ‘commodity’ no mercado de arte internacional. Das obras de modernistas como Candido Portinari e Emiliano Di Cavalcanti aos artistas contemporâneos como Beatriz Milhazes, Adriana Varejão e Hélio Oiticica, o mercado tem sede de arte brasileira”, afirma Virgilio Garza, diretor do departamento de arte latino-americana da Christie’s. “Colecionadores de todo o mundo estão absolutamente fascinados pela arte contemporânea brasileira”, completa.

Na exposição que antecede o leilão latino-americano da Christie’s, no Rockefeller Plaza, em Nova Iorque, encontramos um comprador perdido entre obras mexicanas, chilenas e cubanas. Uma pessoa do staff pergunta se pode ajudar e em seguida fica sabendo que o norte-americano, recém-chegado da Califórnia, está em busca de arte contemporânea brasileira e argentina. O encontro com as obras de León Ferrari e Mira Schendel reflete puro fascínio: nosso colecionador fala dos dois artistas como um connaisseur, e comenta a retrospectiva que eles ganharam no MoMA, a duas quadras dali, no ano passado.

Margarita Aguilar, cubana, expert em arte latino-americana, confirma: “Somos globais agora. Se antigamente as casas de leilão esperavam a chegada dos cubanos para comprar arte cubana e dos brasileiros para arrematar arte brasileira, agora vemos compradores da Indonésia vindo atrás de Boteros, colecionadores do outro lado do mundo atrás de sul-americanos…”. Tudo é possível! Outra tendência importante dos leilões internacionais é incluir arte brasileira (Vik Muniz e Beatriz Milhazes, entre outros) nas vendas de arte contemporânea e pós-guerra, não apenas nas latinas.

Trata-se de uma via de mão dupla – enquanto a arte brasileira chega a Nova Iorque e Londres para participar de leilões, compradores do mundo todo cruzam oceanos atrás dela. No mês passado, centenas de colecionadores, curadores e marchands atravessaram o oceano, numa longa jornada a São Paulo, para a inauguração da 51ª Bienal. Entre eles, figuras importantes do mundo da arte, como Nicholas Serota, diretor da Tate Modern, Catherine Grenier, do Centro Pompidou, e Hans Ulrich Obrist, da Serpentine Gallery.

A presença desses nomes reflete a rápida ascensão da arte latino-americana. O comitê de aquisições latino-americanas da Tate está fazendo 8 anos, o museu Pompidou está criando um projeto latino e a Bienal de Lyon nomeou um curador argentino para a edição do ano que vem.

Professora de história da arte na City University of New York e curadora do Espaço Cultural Location One, no Soho, Claudia Calirman, carioca radicada em Nova Iorque há muitos anos, acha que os americanos estão à procura de novidades. “Hoje, os americanos buscam algo que seja bem brasileiro, mas que seja também familiar em termos do discurso da arte contemporânea; que seja visualmente internacional, mas com gosto local”, garante a professora.

Claudia Calirman acaba de trazer ao Brasil um grupo de colecionadores americanos. “Eles adoraram visitar as coleções particulares, principalmente as que se dedicam aos artistas contemporâneos brasileiros, e também se encantaram com Inhotim. Acho que foi uma surpresa ver um projeto tão ambicioso e de tamanha magnitude num lugar tão distante e até então fora do roteiro internacional. Acho que eles sempre ficam surpresos com a qualidade da arte brasileira e a sofisticação dos espaços culturais e das coleções privadas”, conta.

O jornal inglês Financial Times, comentando a Bienal paulista, foi categórico: “Brasil, território fértil: arte latino-americana está subindo no mercado, e a brasileira sai na frente!”.

Candida Sodré é representante no Brasil da casa de leilões Christie’s.

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