© Kira Perov – Carnegie Musuem, Pittsburg

No descendimento da cruz de Roger Van Der Weyden, o corpo de Cristo parece se mover vagarosamente, enquanto é sustentado no ar por personagens bíblicos enclausurados num espaço fechado e de rasa profundidade. Os dez atores que compõem a cena coreografam gestos e movimentos, expressões e miradas: José de Arimateia ampara o corpo de Cristo morto, Nicodemo protege cuidadosamente seus pés e Maria Madalena, numa expressão de profunda dor, encena com seus braços e tronco um gracioso movimento de balé.

Esses mesmos gestos e ritmos se refletem na obra de Bill Viola. Percebe-se o lento escoar do tempo e o que ficou entre o agora e o que já passou.

A desaceleração da passagem do tempo é uma das várias obsessões desse artista. A incitação à contemplação do momento e sua dilatação infinita transformam instantes em tempo presente, gerando, assim, os mais variados graus de percepção e consciência. Em um livro de poemas publicado em 1975, com o sugestivo título Museu de tudo, João Cabral de Melo Neto também tangencia questões pertinentes a esse tempo em expansão constante, num poema dedicado a Ademir da Guia:

 

ADEMIR DA GUIA

 

 

Ademir impõe com seu jogo

o ritmo do chumbo (e o peso),

da lesma, da câmara lenta,

do homem dentro do pesadelo.

 

Ritmo líquido se infiltrando

no adversário, grosso, de dentro,

impondo-lhe o que ele deseja,

mandando nele, apodrecendo-o.

 

Ritmo morno, de andar na areia,

de água doente de alagados,

entorpecendo e então atando

o mais irrequieto adversário.

 

Toda a rica carpintaria cênica estruturada por Bill Viola parece não pertencer à cultura ocidental ou à nossa época de fatos e imagens velozes, e nos espanta.

Bill Viola é um artista contemporâneo surpreendente. Ama a pintura. Esta se faz presente como uma coluna vertebral em toda a sua obra. Provoca no espectador uma mirada que subverte a rapidez e a incidência com que imagens nos são oferecidas cotidianamente de forma excessiva, propondo, assim, sua desbanalização. Utiliza a chamada “videoarte” como linguagem. Porém, não é exatamente ou exclusivamente o nosso mundo, o aqui e agora, e todos os cânones contemporâneos que, ao longo das últimas décadas, ancoraram na produção artística – deixando-a, muitas vezes, asséptica, homogênea e sem pathos – que nos sussurram seus personagens e toda a sua engenhosa usina visual.

Há nessa arte ecos do passado, presenças e referências marcantes como as que nos remetem aos pintores tenebristas do início do século 17 – Caravaggio, Ribera, Zurbarán, Guerchino, Alonso Cano. Ou até mesmo Francisco de Goya, com suas obsessões, sonhos e pesadelos. E, indo um pouco mais, até encontrarmos em peças como Catherine’s room, The sleep of reason e The pool uma franca conexão ao mundo metafísico que novamente nos conduzirá à pintura e à poesia.

O homem é o centro da arte de Bill Viola. Seus mitos e arquétipos são tratados de forma extensa ao longo do corpo de sua obra. Isso nos levará mais uma vez a um diverso e denso mar de significados – o sublime, a angústia, a cólera e a paixão (em todos os seus sentidos). A religiosidade, a transcendência, as obsessões, as certezas e as dúvidas são a seiva desse estado humano.

Pois é exatamente esse poliedro facetado que encarna a condição humana que é retratado de forma circular e recorrente. Seus vídeos parecem sequências, continuações, digressões de suas próprias ideias. São como quadros em uma exibição, expostos para que o todo também faça sentido.

Bill Viola afirma estar sempre dialogando consigo mesmo. Conversa com seu mundo, pergunta e responde ao mesmo tempo. Mas, afinal, o artista não deve ser aquele que, ao ter sua visão particular e intransferível das coisas da vida, é instado a tudo metamorfosear em linguagem? Nessa viagem interior a lugares secretos, há poucos vestígios da cantilena da vida cotidiana, do mundo social e seu complexo tecido de relações… A “realidade” na obra de Bill Viola vem de outras fontes, outras “praias”. Percebe-se que a origem e os fundamentos de sua arte se dão a partir de “revelações”, como se novas janelas indicassem um estado de espírito instaurador, mágico e intenso, apontando para outras veredas…

Uma dessas janelas, segundo o próprio artista, abriu-se quando, ainda criança; caiu de um barco em que navegava com um tio num lago. Suas recordações desse fato estão longe do dramático. Lembra um mundo novo, a vegetação aquática se movendo, peixes mágicos, o brilho do espelho d’água acima de sua cabeça e a epifania escondida nessa outra parcela inferior ao mundo que conhecia. Talvez aí sua outra obsessão. A água. Esse elemento restaurador e purificador de almas e carnes. A queda também pode ser uma experiência mística. Perceber, aprender que abaixo da superfície também há vida, outra vida e novos conhecimentos.

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