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DASARTES 36 /

BIENALISMOS

Alto Falante por Guy Amado

BIENALISMOS

E eis que, no ano em que se realiza a 31ª Bienal de São Paulo – talvez pelo fato de não ter tido condições de conferi-la, impedido por um oceano e pela agenda de trabalho –, fui tomado por uma onda nostálgica. Entre 1991 e 2002, tive a oportunidade de trabalhar em quatro edições desse evento, tanto como monitor/mediador como integrando a equipe de montagem (em uma ocasião, em 1998, fazendo as duas coisas em simultâneo) e inúmeras recordações me acometeram. Além da experiência de contato privilegiado com determinadas obras e artistas, cada qual marcante à sua maneira, há também os inúmeros fatos e episódios experienciados nos bastidores, igualmente marcantes. Claro que as funções que disse ter desempenhado proporcionam diferentes graus de proximidade, percepção e integração na movimentação que gera e rege uma Bienal, na qual a possibilidade de contato direto com artistas e o acompanhamento em primeira mão de obras e projetos incríveis me parece ser sempre o fator mais atraente – embora nem tudo seja “um mar de rosas”, naturalmente. No meu panteão pessoal, ocorrem-me muitas passagens ou experiências especialmente marcantes nesse sentido, algumas das quais elenco a seguir. Lembranças que se alternam entre agradáveis ou nem tanto, mas de algum modo intensas.

1) Tomar chá de cogumelo e jogar baralho na tenda-trabalho do Cai Guo-Qiang, conversando com o próprio (23ª);
2) Conferir a inesquecível performance catártico-sonora-gutural-pós-industrial do Chelpa Ferro e brincar com o residual da mesma (25ª);
3) Puxar conversa rápida com “seu Dedé”, funcionário icônico da Bienal, com mais de meio século de serviços ali prestados (falecido em 2013);
4) Testemunhar os inúmeros estresses gerados pela demora de funcionários da fiscalização alfandegária em liberar contêineres com obras e perceber como eventos desse porte continuam dependentes dessa instância.
5) Acompanhar a “saborosa manutenção” da instalação da britânica Helen Chadwick, uma fonte de chocolate (22ª);
6) Auxiliar de improviso o artista bósnio Braco Dimitrijevic na recomposição de seus “trípticos pós-históricos” (23ª);
7) Desfrutar de uma modalidade esportiva noturna reservada apenas à equipe de montagem da Bienal: competição de carrinhos de transporte ao longo dos pavilhões (nesse caso específico, não revelarei a edição);
8) Acompanhar a querela e o desenrolar das negociações internas em torno do projeto Vazadores, proposta radical de Rubens Mano que acabou sendo “readequada” pela instituição (25ª);
9) Aprender que o exercício da monitoria/mediação em um evento dessa escala e importância pode ser um desafio que enriquece também em termos socioantropológicos.
10) Ter acesso às tradicionais e mais ou menos exclusivas festas promovidas pelos consulados dos países representados; havia inclusive um “ranking informal interno” das mais concorridas [que, aliás, não refletia correspondências hierárquicas geopolíticas];
11) Acompanhar a expectativa e o clima de disputa antecipado em torno da desmontagem da sala especial de Andy Warhol, cujo papel de parede era artigo cobiçado por todos; e a subsequente frustração generalizada, quando a fundação responsável ordenou a destruição do mesmo em frente a nossos olhares incrédulos (23ª);
12) Ver em primeira mão o Richard Long realizando seu desenho-percurso na montagem da 22ª;
13) Ter tido interlocução com artistas de diversos calibres e procedências, que de outra forma seria impossível conhecer. Só lamento em alguns casos não ter ainda o devido traquejo para melhor assimilar essas ocasiões.
Parafraseando inúmeros profissionais de maior gabarito, uma coisa é certa: a experiência de atuar em uma Bienal é [ou pode ser] uma escola.

 

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