DASARTES 06 /

Bienal do Mercosul – Projeto experimental número sete

Mais do que apresentar uma leitura ou abordagem da carte contemporânea, a ideia central do projeto parece ser a de expor um processo.

Escrevo sobre a Bienal do Mercosul desde 2003. Agora, este evento chega à sua 7a edição com curadoria geral de Camilo Yañez e Victoria Noorthoorn. Percebo nesse percurso a vontade e a disposição de cada nova equipe em realizar uma mostra que dê conta das demandas óbvias desse modelo expositivo, como visibilidade, educação e inovação. Da mesma forma, vejo interesse e curiosidade por parte dos artistas, críticos e pessoas do meio que não estão diretamente envolvidas na exposição.

A Fundação Bienal também parece preocupada em manter uma estrutura arejada, viabilizando mostras que de certa maneira problematizam a própria ideia original da Bienal do Mercosul. A escolha por concurso do atual projeto curatorial é um exemplo disso, e mesmo as suas duas edições anteriores podem ser vistas nessa perspectiva. A quinta Bienal marcou o início da abertura real do evento, transbordando as fronteiras econômico-geográficas que a nomeiam na escolha dos artistas, e a sexta propôs um evento nada mega, com associações entre obras e leituras bem pontuadas no espaço expositivo.

Ou seja, a questão que me inquieta não é o que pode ou não ser “bom” nesta 7a edição, mas sim quais dos resíduos conceituais e práticos legados por cada Bienal são de fato incorporados pela Fundação Bienal. A presença de artistas de fora do Mercosul foi imediatamente adotada na 6a e na 7a Bienais, já que este limite deixou de ser imposto pela instituição. Por outro lado, as obras públicas instaladas no Parque Marinha do Brasil na 1a Bienal e as realizadas na orla do Guaíba dentro do projeto da 5a Bienal encontram-se degradadas e sem nada que as identifique.

Uma das preocupações recorrentes das equipes curatoriais, ao menos desde a quinta edição desta Bienal, é tentar diminuir o estigma de “disco voador” do evento, algo que aterrissa de dois em dois anos sobre a cidade e parte sem deixar muitos rastros. Porém, na verdade, isso não depende diretamente da curadoria, que lida com projetos desenvolvidos e executados dentro desse tempo. É um problema a ser enfrentado com um pouco mais de agilidade pela instituição, esta sim com quase quinze anos de existência, em parceira, talvez, com as secretarias de cultura do município e do estado, que periodicamente se beneficiam da realização do evento em seu território administrativo.

Dito isso, vamos à 7a Bienal, cujo tema, Grito e Escuta, já chega apontando para ao menos duas possibilidades de posicionamento (da arte, do evento, do público) por vezes complementares. A proposta desenvolvida por Victoria e Camilo, selecionada entre 67 projetos, determina a participação de artistas na conceitualização e formatação da mostra. Ou seja, as exposições que compõem a Bienal,1 bem como os programas pedagógico, editorial e a rádio são coordenados por artistas, com o intuito de des-hierarquizar essas funções e experimentar novos modelos de organizar exposições.

Mais do que apresentar uma leitura ou abordagem da arte contemporânea, a ideia central do projeto parece ser a de expor um processo. Isso tanto em relação aos trabalhos e exposições que a compõem quanto em relação à conformação do próprio evento. Camilo afirma, inclusive, que o desafio de organizar esta Bienal pode ser entendido como uma espécie de residência curatorial, em que a compreensão e o sentido da experiência só poderão ser visualizados e entendidos a posteriori.

Em um encontro com o curador geral, discutimos as diferenças, problemas e pertinências do formato que está sendo implantado por ele e sua equipe nesta 7a Bienal do Mercosul, sem nos determos pontualmente sobre alguma das suas exposições ou dos seus artistas. Se há algo que já pode ser dito sobre esta edição da mostra é que existe uma opção pelo experimento, pelo desconhecido e pelo risco. Valores sempre bem-vindos em se tratando de arte.

A seguir, trechos da entrevista com Camilo Yañez.

Por que formar uma equipe de curadores-artistas?

Minha forma de trabalho curatorial tem a ver com o fazer. Mais do que investigar teoricamente o assunto, a ideia é abrir as possibilidades do fazer. Nesse sentido, concebemos a rádio da Bienal, um programa editorial curatorial, mostras que buscam apresentar tanto o processo artístico como o processo curatorial. Agora, a questão “até que ponto isso tudo serve ou não” faz parte da discussão dessa Bienal. O mais interessante pra mim é poder trabalhar num campo de des-hierarquização das funções e de igualdade de condições em prol da geração de conhecimento coletivo. Sinto que o trato com os artistas é distinto nessa Bienal, por sermos todos curadores-artistas. Pelo menos em relação às minhas experiências em bienais com curadores-teóricos.

Mas o formato é sempre muito difícil, pois o curador tem que negociar com a instituição, com os patrocinadores, há um “dever ser” institucional. Por outro lado, até que ponto um curador consegue se envolver no processo real de trabalho do artista quando tem cem artistas? Por isso, há também a nossa ideia de trabalhar com vários curadores, aumentar o caudal de energia criativa, de possibilidades.

Você acredita que um artista estaria mais apto a realizar, enquanto curador, mostras extremamente autorais, algo que costuma ser muito criticado quando realizado por um curador não artista?

É uma situação muito complexa. Temos que pensar no desenvolvimento dessa função historicamente. O estereótipo do artista existe desde o Renascimento; todos os possíveis perfis de artistas já estão dados. Já o estereótipo de curador ainda está em construção, ou seja, ainda é possível experimentar novas formas de atuação nesse campo. Chamamos artistas para serem curadores da Bienal porque basicamente queríamos trabalhar com pessoas que estavam fazendo coisas na construção de sentido direto. Interessa-nos o trabalho de oficina, pessoas que agem e trabalham na perspectiva do espectro de ateliê, com construções de objetos, interferências, distrações, reflexões. Nesse sentido, interessa-nos investigar esse campo metodológico anômalo que organiza desorganizadamente o fazer artístico e – por que não? – o fazer curatorial.

Quanto o aspecto histórico de uma Bienal é levado em consideração em um novo projeto?

Acredito que só é possível pensar em uma Bienal com as características que estamos propondo porque existe uma história. Ou seja, a própria história da Bienal conduziu este evento a chamar curadores por concurso internacional. Isso é muito relevante. Quando desenvolvemos este projeto, nos demos conta de que queríamos conhecer outros modelos de curadoria e, para isso, resolvemos abrir o jogo, propor um projeto calcado no processo criativo, tanto do artista como do próprio evento a ser realizado. O fato de o nosso projeto ter sido escolhido significa primeiramente que a instituição é tão sólida que é capaz de abrir-se para receber novas formas de pensar o problema.

1No total, sete exposições compõem esta Bienal, todas voltadas para diferentes aspectos do processo criativo. Entre os dez curadores envolvidos no projeto, apenas Victoria Noorthoorn não é artista.

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