Bienal de Havana: da dinâmica urbana à global

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Memorias. Bienales de La Habana 1984-1999 (Artecubano Ed., 2012) foi um dos acontecimentos mais memoráveis desta 11ª edição do evento havaneiro. Llilian Llanes, que foi sua diretora durante quinze anos, oferece um compêndio acurado das seis primeiras edições, assim como das circunstâncias que moldaram seus objetivos e seu caráter. Coincidencia ou não, a palestra sobre o conceito de curadoria da presente edição, a conferência de Llanes e o lançamento de seu livro aconteceram sucessivamente no encontro que inaugurou a mostra. Assim, foi possível constatar como muitas das características distintivas da atual edição não eram mais do que ecos dispersos de algumas das estratégias desenvolvidas nas anteriores. Do planejamento público, batizado com o rótulo de “Dinâmicas urbanas”, até a escolha de localizações dispersas pela cidade para acolher as mostras “oficiais”, deixando as fortalezas coloniais Morro-Cabaña, sedes habituais desde 1991, para as “colaterais”.

E nada de recriminável teria esta reciclagem não tivesse feito da utilização destas soluções concretas sua única finalidade; isto é, se não tivesse convertido a mis-en-scéne no eixo fundamental do evento. Sua ramificaçãono espaço físico, que se perde (mais do que se funde) na teia urbana, serviu para alimentar, com a ajuda dos meios locais, a ilusão de uma Bienal ubíqua. Apesar de que algumas poucas obras ou exibições conseguiram se impor, para além de sua localização, sobre a especial dinâmica da capital cubana.

Entre estas, Ciudad generosa é uma das propostas coletivas mais bem resolvidas. Os integrantes da Cuarta Pragmática, projeto pedagógico do artista cubano René Francisco Rodríguez, erigiram, em um dos parques de El Vedado, uma urbe que se deixa habitar por locais e visitantes.

Igualmente válidos foram os rostos de pessoas comuns disseminados por JR nos muros de Havana, frente ao assombro de uma comunidade para a qual protagonismo social e liderança política são, ainda, a mesma coisa. Idem para Conga irreversible de Los Carpinteros, essa dança coreográfica mas popular, estoica mas indulgente, contínua mas para trás, cujo som ainda nos arrasta.

Menção à parte merece El deseo de morir por otros, um museu permanente no qual Reynier Leyva Novo exibe, como frágeis joias dentro de uma vidraça, réplicas em cristal das armas pessoais de alguns patriotas das guerras de independência cubanas do século XIX.

Mas o tema público não é estritamente urbano em função da localização. Umas das obras mais belas desta Bienal, junto ao já mencionado El deseo…, são as tapeçarias de Carlos Garaicoa. Localizadas no segundo andar do Centro Wifredo Lam, parecem ter sido devolvidas ao lugar que pertencem. Não o da geografia precisa dos populosos pórticos da Rua Galiano, onde é possível caçar às sombras tecidas dos transeuntes ou às trincas e manchas do granito real esses pensamentos expressos em palavras que bem que poderiam ser nossos, mas sim ao espaço museográfico da história.

Obviamente, quando referia-me antes à mis-em-scéne, não pensava só na estrutura mais ou menos prevista desta 11ª edição, em sim em seu conceito. Um eixo temático e suficientemente aberto para oferecer espaço a todos os tipos de projetos e, principalmente, de artistas. Não me lembro de outra Bienal de Havana que reunisse tantas estrelas da chamada arte internacional, seja presencialmente, seja através de suas obras. Marina Abramovic, Hermann Nitsch, Ilya e Emilia Kabakov, Gabriel Orozco, para citar só alguns dos presentes. Vito Acconci, John Baldessari, Olafur Eliasson, Nam June Paik, Joseph Kosuth, Ana Mendieta, Ai Weiwei e muitos outros, cujas peças integram a exposição das obras da Coleção Ella Fontanals-Cisneros, acolhida pelo Museu Nacional de Belas artes.

O certo é que, como explicaram seus organizadores, a Bienal pode ser uma oportunidade para atrair ao território nacional obras e artistas de relevância mundial. No entanto, a urgência atual da Bienal de Havana não deve ser a de captar nomes cada vez mais sonoros ou a busca de uma fórmula expositiva singular, e sim a revisão do seu projeto. Um trabalho para o qual o livro de Llanes parece chegar com a faca e o queijo na mão, como se tivesse sido esse –e não outro – o verdadeiro propósito de sua edição. Não para servir de fonte na reciclagem de objetivos passados, e sim para verificar sua pertinência hoje. Mas, principalmente, para lembrar a necessidade de se pensar como um programa maior, que deve ir mais além de qualquer edição bi ou trianual. Esta é a única via capaz de religar Havana ao mapa contemporâneo da circulação artística global. Como porto, sim – por que não? –, mas, acima de tudo, como eixo de comunicação, seja do Terceiro Mundo ou então de quaisquer que forem as realidades que escolhamos para nos construir e compartilhar.

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