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DASARTES 24 /

Bienal de Gwangju

As mulheres estão no comando desta bienal asiática

Mesas de pingue-pongue espelhadas de aço inoxidável do artista Rirkrit Tiravanija e o sábio e tolo Nasrudin sentado ao contrário em seu jumento do coletivo Slavs and Tatars nos dão as boas-vindas na praça em frente à 9.ª Bienal de Gwangju. Essas duas obras são relativamente acessíveis ao público, como o presidente da Fundação Bienal, Yongwoo Lee, acredita que muitas bienais são atualmente. Ao entrarmos nos dois edifícios que albergam a exposição, entretanto, deparamo-nos com zonas mais complexas e herméticas, reflexo da rizomática estrutura resultante de seis visões distintas.

Depois de se submeter à curadoria de nomes como Massimiliano Gioni, Okwui Enwezor e Charles Esche, a Bienal de Gwangju preferiu dar lugar à força feminina. Porém, tal como a de Veneza em 2005, quando pela primeira vez foi curada por mulheres – as espanholas Maria de Corral e Rosa Martínez –, a de Gwangju não optou por deixar nas mãos de uma única mulher a curadoria de toda uma bienal. Nessa edição, seis curadoras de distintos países asiáticos foram eleitas para construir uma plataforma temática denominada por elas Roundtable (mesa redonda). “Que o tema dessa edição da Bienal de Gwangju se tornasse mesa redonda não era somente óbvio, mas também necessário. A polifonia é uma escolha, e mesa redonda é a estratégia”, afirma Doryun Chong.

Em junho deste ano, as curadoras participaram da mesa redonda moderada por Chong para apresentar suas propostas. A primeira delas foi a indiana Nancy Adajania, que mostrou o entrelaçamento de histórias aparentemente dessemelhantes em um momento de crise ou o ensaio de conflitos e resoluções originalmente identificadas com uma sociedade se desdobrando em outra, geralmente sob a forma de resistência ou revolução. No espaço expositivo, o trabalho do egípcio Maha Maamoun teve uma participação relevante na dinamização desse subtema, por trabalhar com uma série de materiais tomados da cultura popular e da internet antes, durante e após a primavera árabe, estabelecendo relações da arte com a política. No caso de Wassan Al-Khudhairi, a postura foi a de revisitar a história com um grupo de artistas. Nasrin Tabatabal e Babak Afrassiabi, por exemplo, reconstroem um momento histórico, objetificando-o e expondo a maleabilidade dessa história, enquanto Sophia Al-Maria imagina histórias futuras e sua relação com um momento histórico importante no desenvolvimento do Estado do Qatar.

O subtema da intimidade, a autonomia e o anonimato, cunhado por Sunjung Kim, pode ser visto claramente na obra de um de seus artistas, o mexicano Abraham Cruzvillegas, que utiliza o trabalho manual para transformar objetos e lugares que perderam o sentido. Realizou suas obras aplicando seu método de construção subjetivo a uma casa com aspecto abandonado, de um antigo funcionário do cinema da cidade.

O trabalho de Mônica Nador, pertencente à seção de Alia Swastika, é um exemplo de constante mobilidade e de investigação de diferentes visões da sua noção. Assim como Mônica se infiltra nos subúrbios para criar uma alternativa a métodos educativos com o objetivo de fortalecer a coletividade, a curadora Carol Yinghua Lu explora e fortalece outro tipo de mobilidade se retirando do plano físico. Sua seção convidava o público a uma experiência individual e nela se observou uma profunda preocupação com o design expositivo. Fazem parte o sensível vídeo autobiográfico de Simon Fujiwara; a laboriosa instalação de lasers e ossos de Li Fuchun; a mágica instalação de Kelly Schacht; os televisores com o artista Li Ran mimetizando os programas de aventura televisiva; e a forte presença do performer Nástio Mosquito, que juntos nesse espaço funcionavam como matéria-prima para a realização de histórias regionais e globais.

A curadora japonesa Mami Kataoka reconheceu a natureza temporária e circulatória das bienais por meio de artistas como Aki Sasamoto e Haroon Mirza, mostrando que a estabilidade é uma ilusão: uma bienal pode ser uma a mais se não souber enfrentar a mudança contínua.

Grande parte das bienais depende de uma comunidade para sua sustentabilidade. Seria a cidade que necessita da bienal ou a bienal que necessita da cidade? A Bienal de Gwangju necessita ativar esses arredores continuamente – pois estão cheios de história – para que a própria exposição continue viva. Para que ela se torne mais do que uma autoria única; mais do que seis curadoras, que se torne uma autoria coletiva de todos os envolvidos, é necessário estar focada no contexto dessa comunidade e se tornar parte dela ao saber escutá-la.

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