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Das três grandes bienais de arte do país, duas acontecem em Estados quase vizinhos e nos mesmos anos. Foi pensando nisso que, em 2011, os organizadores da Bienal do Mercosul (Porto Alegre, RS) e da Bienal do Ventosul (Curitiba, PR) optaram por unir forças e tornar seus eventos um grande momento para o setor artístico da região. Assim, não apenas se organizaram para fazer com que as datas de ambos os eventos coincidissem, como, ainda, criaram ações de cooperação e estratégias de divulgação mútua dos eventos em todos os seus canais. Dois anos atrás, fez-se um seminário internacional conjunto e simultâneo nas duas cidades. Este ano – a convite das bienais –, jornalistas, críticos e historiadores da arte, além de responsáveis por instituições museológicas de todo o país, visitarão ambos os eventos, que se espalharão por várias instituições – apenas em Curitiba, são mais de cem espaços além do Museu Oscar Niemeyer, principal sede da bienal. Segundo Luiz Ernesto Meyer, diretor geral da Bienal do Ventosul, a data também se relaciona com o período da ArtRio, com o intuito de aproveitar o fluxo que a feira de arte no Rio de Janeiro traz ao país para estendê-lo também à região Sul. Para ver de perto o que esperar deste intenso momento artístico, a Dasartes traz a você essa matéria especial sobre as bienais do eixo Sul.

Bienal Internacional de Curitiba

Se a curadoria de arte é um dos grandes temas dos debates na área de artes visuais, ao menos desde a década de 1980, a Bienal Internacional de Curitiba produziu, em cada uma de suas sete edições, ambientes de discussões curatoriais, contando, desde sua primeira mostra, com a presença do crítico de arte e curador Tício Escobar, que, na presente edição, compartilha a curadoria geral do evento com Teixeira Coelho, Curador Coordenador da equipe técnica do MASP. E a situação que se destaca já em um primeiro contato com a mostra de 2013, como um posicionamento curatorial, é o fato de a Bienal não ter um título, desdobrando-se em outra ação, é uma mostra de arte contemporânea produzida sem a recorrência a um tema, mas pela escolha de artistas e obras, a partir de critérios de qualidade e na medida em que estas proporcionam alguma discussão pertinente à contemporaneidade.

Essa definição, por si só, pode ser pensada no âmbito de uma discussão sobre curadoria, mas, no caso da bienal de 2013, foi ainda expandida com a participação de um grupo de jovens curadores, formado por Angelo Luz, Debora Santiago, Kamilla Nunes e Renan Araújo, coordenados por Stephanie Dahn Batista, professora da Universidade Federal do Paraná. Se, em edições anteriores, grupos específicos indicaram artistas locais para integrar a exposição, as escolhas feitas por esse grupo primam por um posicionamento não hierarquizado em relação à curadoria geral, em um pensamento que articula artistas de Curitiba, de outros lugares do Brasil e estrangeiros, além de trabalhar com acervos públicos da cidade, superando, ainda, pela experiência coletiva, o caráter autoral normalmente assumido em uma curadoria.

Mesmo sem a indicação de uma temática específica, a Bienal propõe uma expansão da mostra para fora dos limites tradicionalmente ocupados pela arte, com vistas a um diálogo mais intenso com a cidade. Essa expansão se dá inicialmente com a instalação de alguns trabalhos em espaços públicos, e se amplia com curadorias específicas: uma de performance, elaborada por Fernando Ribeiro, e outra na área de literatura, com curadoria de Ricardo Corona, ambas com situações que ocorrem em tempos e espaços diversos; outra seção que apresenta deslocamentos de tempo e espaço é a de web art, com curadoria de Maria Amélia Bulhões.

Essas ações incluem a disseminação de obras em linhas de ônibus, ruas, praças, feiras, no Mercado Municipal e em espaços inusitados, como o IPPUC (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), entre outros. Com esse campo de ação expandido, a Bienal conta ainda com exposições envolvendo os estabelecimentos de ensino da arte em Curitiba, uma mostra de cinema, e programação paralela, de iniciativa de diversas instituições culturais da cidade.

A ausência de um título e de uma temática definida, bem como a amplitude de categorias e o número de profissionais envolvidos no corpo curatorial do evento permitem concluir que a Bienal Internacional de Curitiba, em 2013, abriga uma grande diversidade de discussões estéticas, envolvendo cerca de 150 autores, de 30 países. Dentre os trabalhos de artistas presentes na mostra que possuem amplo reconhecimento internacional, é possível destacar uma instalação de Ai Weiwei, artista chinês que atuou no projeto do Estádio Nacional de Pequim, conhecido como o Ninho de Pássaro. Embora essa lembrança crie uma associação entre o autor e o governo da China, Ai Weiwei é conhecido por ser um ativista que problematiza algumas questões relacionadas ao seu país, e já foi inclusive preso por isso.

Um trabalho instalado em espaço público no período da bienal é a obra Metal Glass Installation, do artista belga Arne Quinze, composto por peças longilíneas entrelaçadas, que formam algo como um corpo suspenso no espaço por estruturas aparentemente frágeis. O contraste entre a instabilidade e a irregularidade sugeridas por esse trabalho se acentua na sua instalação em um entorno urbano, saturado e denso.

Se problematizar o espaço urbano é algo inerente à instalação descrita anteriormente, uma situação similar é proposta na performance Transferência de Valores, que Maíra Vaz Valente apresentará em Curitiba. Em seus trabalhos, a artista, uma das fundadoras do NAP (Núcleo Aberto de Performance), criado em 2007, em São Paulo, propõe sutis alterações na percepção de elementos do cotidiano. O projeto de performance inclui ainda trabalhos de Ângelo Luz, Joseph Ravens, Sakiko Yamaoka, entre outros.
Baldomero Robles Menéndez e Bella Flor Canche The fazem parte de um grupo de artistas que traz para essa mostra um fragmento da I Bienal de Arte Indígena Contemporânea, realizada no México, em 2012.

No âmbito das pesquisas realizadas junto aos acervos públicos de Curitiba, cabe destacar a seleção de trabalhos de Vladimir Kozák, pertencentes à coleção do Museu Paranaense, para integrar as discussões estéticas desta bienal. Cineasta e pesquisador de origem checa, Kozák viveu em Curitiba de 1938 a 1979, ano de sua morte, e realizou um volume surpreendente de filmes e fotografias, registrando populações indígenas, tradições populares e um território em modificação. A produção desse autor, que geralmente é abordada na esfera da antropologia, nesta Bienal, é aproximada de trabalhos do “videoartista” austríaco, Peter kubelka, partindo-se do princípio de que uma exposição é uma circunstância propícia à produção temporária de sentidos sobre a obra.

Quatro anos se passaram desde que publiquei, nesta mesma revista, um texto finalizado com uma indagação sobre qual dos eventos periódicos na área de artes visuais, realizados na cidade de Curitiba desde a década de 1970, iria se consolidar como “a Bienal de Curitiba”.
O conjunto das ações que ocorre de 31 agosto a 1.º de dezembro de 2013, quando são completados vinte anos da Mostra de Artes Plásticas VentoSul, exposição que deu origem ao projeto, a sequência de edições que é dada desde 2007, e a designação agora assumida pela direção do evento, Bienal Internacional de Curitiba, parecem responder de algum modo aos meus questionamentos.

Bienal do Mercosul – Inquietações atmosféricas em clima de investigação

A 9.ª Bienal do Mercosul | Porto Alegre, organizada pela Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, a ser realizada entre 13 de setembro e 10 de novembro deste ano, propõe algumas novidades. Ao adicionar ao nome do evento a cidade onde é realizado, a organização sugere uma discussão sobre identidade. Afinal, até que ponto se trata de uma Bienal especificamente do Mercosul? Não seria melhor chamá-la Bienal de Porto Alegre? O movimento de internacionalização do evento, desenvolvido com mais afinco ao longo das últimas edições, reflete-se no próprio corpo curatorial deste ano, formado por uma equipe de nacionalidades bastante diversificadas. A direção artística é assinada por Sofía Hernández Chong Cuy (México) e os demais curadores são Raimundas Malašauskas (Lituânia), Mônica Hoff (Brasil), Bernardo de Souza (Brasil), Sarah Demeuse (Bélgica), Daniela Pérez (México), Júlia Rebouças (Brasil) e Dominic Willsdon (Inglaterra). Não há mais diferenciação entre curadoria pedagógica e artística.

Sob o título Se o clima for favorável, esta Bienal lança o “e se…” como indagação e possibilidade múltipla de reinventar e habitar o mundo. Ao levar em conta a imprevisibilidade dos eventos – físicos, mas também políticos e sociais – potencializa-se as incertezas, assumindo o imprevisível como parte das obras. Talvez seja essa mesma inquietude do não saber o elo maior que vincula o processo de artistas e cientistas, um dos focos de interesse da mostra. A arte age como plataforma de acesso a outros campos do conhecimento, por meio de trabalhos que discutem a relação entre natureza, cultura, arte e ciência. Essa discussão é catalisada pelo desenvolvimento das tecnologias de comunicação e de sua transformação ao longo da história.

O evento se divide em três componentes principais: mostra, expedição e formação. A exposição Portais, Previsões e Arquipélagos traz nomes como Robert Rauschenberg, Tony Smith, Allan McCollum, George Levantis, Bik Van der Pol e combina obras históricas da década de 1960 com trabalhos inéditos, seis deles desenvolvidos por comissões colaborativas. O projeto discursivo Expedições à ilha, com curadorias temáticas que reúnem grupos de 10 a 20 artistas, intelectuais e cientistas, efetiva-se em viagens à ilha do Presídio/ilha das Pedras Brancas (a experiência, iniciada em maio, está sendo compartilhada por meio de textos publicados no site da Bienal). Por fim, Redes de Formação traz palestras, residências e saídas de campo para mediadores, educadores e público curioso, além de comportar a publicação A nuvem, a Escola Caseira de Invenções (que conta com a convocatória aberta Invenções Caseiras), o programa de visitas guiadas e a plataforma de Educação a Distância.

Segundo a curadora Mônica Hoff, um dos destaques da Bienal é o Ekphrasis, um programa que, inicialmente, foi chamado “Projetos para não serem vistos”. O termo, que em grego significa “descrição”, é designado para trabalhos artísticos que só podem ser percebidos quando descritos. “Se tu vês, tu não percebes”, explica a curadora. No evento, são promovidos encontros entre artista e público, visando a uma espécie de “contação” das obras. Nos projetos selecionados, o aspecto conceitual da proposta sobrepuja à materialidade do objeto, que se desenrola em um espaço discursivo. O programa subverte a lógica expositiva, uma vez que não apresenta obras materiais, mas os próprios artistas. Trevor Paglen é um dos que compõem o grupo de Ekphrasis e vem falar sobre o projeto desenvolvido em parceria com a Nasa, tendo projetado um disco com as imagens mais representativas do nosso tempo, a ser lançado no espaço para orbitar permanentemente ao redor da Terra.

Diante da impossibilidade de utilizar o Cais do Porto para as mostras, como vinha ocorrendo, a 9.ª Bienal busca ampliar suas margens, ocupando novos lugares. É diante de um clima atravessado por agitações populares, onde a ativação dos espaços públicos fervilha, que o evento será realizado. As novidades são o Memorial do Rio Grande do Sul, situado ao lado do MARGS e do Santander Cultural, instituições que seguem na programação do evento, e a Usina do Gasômetro, retomada como local de mostra. A Usina situa-se às margens do rio/lago Guaíba, que também é concebido, juntamente com a ilha das Pedras Brancas/ilha do Presídio, como espaço da Bienal, através das Expedições à ilha. Nesse sentido, “o tempo virou” a seu favor. Por um lado, perdeu-se uma estrutura habitual das mostras – o Cais do Porto, mas, por outro, olha-se ainda mais para aquele que foi, desde sempre, o propulsor de idas e vindas na cidade: o rio, que acaba por ser esquecido conforme o centro urbano cresce e se desenvolve.

Ao explorar os pontos de encontros entre cultura e natureza, subsidia-se a ideia de trabalhos construídos de modo colaborativo, por meio de comissões cujos artistas trabalham junto a centros de pesquisas e indústrias a fim de produzir projetos artísticos inéditos. “A arte, a tecnologia e a ciência podem estar trabalhando de uma maneira muito mais próxima do que simplesmente exibir uma marca ou passar um verniz cultural na imagem corporativa”, explica o curador Bernardo de Souza. A partir dessas parcerias, estão sendo criadas obras que dialogam com as mais diferentes tecnologias e conceitos derivados delas – da microgravidade à energia eólica, da engenharia mecatrônica à extração de resinas. A proposta de remontagem de Bat cave, desenvolvida por Tony Smith nos anos 1970, exige soluções técnicas para o gap tecnológico. Daí surge um dos desafios mais instigantes: como reconstruir uma grande instalação que faz uso de tecnologias dos anos 1960 na segunda década dos anos 2000? Tal problemática gera uma atmosfera voltada à investigação, extrapolando as fronteiras das especificidades do campo da arte e valorizando o caráter imaterial da experiência estética. A proposta do evento parece convidar o público a indagar sobre o mundo em que se insere, retornando à pergunta: “E se?”.

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