Jeanne Moreau, ícone da nouvelle vague, levou muita gente ao cinema naquele ano de 1958 com Os amantes e Ascensor para o cadafalso, filmes de Louis Malle, e, cinquenta anos mais tarde, o artista plástico Bernardo Pinheiro a criar Jeanne gravada em silêncio, série de quatro fotos, duas delas recentemente adquiridas para a coleção Gilberto Chateaubriand. Nesses dois filmes, Jeanne interpreta uma mulher burguesa enclausurada pelo casamento e pelos círculos sociais que tenta dar fim a essa condição através do amor. No primeiro, ela é bem-sucedida, acontecendo o contrário no segundo. A partir dessas duas situações, Bernardo criou os pares tragédia e gozo (este representado pela cena antológica da personagem de Moreau tendo um orgasmo, em Os amantes). Acima, temos Jeanne 1, foto de O ascensor para o cadafalso, do par que retrata a tragédia.

Com o objetivo de inventariar as heranças audiovisuais e desgastar a imagem, o processo utilizado pelo artista foi: filmar a cena passada na TV, retirar o still dessa cena, imprimi-lo em sua resolução máxima, usar um papel texturizado e escaneá-lo em alta resolução para obter na imagem final as texturas do papel. A partir dos elementos físicos do material audiovisual (raios catódicos, linhas, grades) e mitológicos (musa, cinema francês, erotismo, melancolia) Bernardo transformou sua ideia/sentimento em trabalho: “Estava fascinado pela possibilidade de poder comunicar minha cinefilia e fascínio pelas atrizes. Gostaria muito de poder tê-las, mas isso só gerou melancolia. Querer ter uma pessoa que não existe, que é uma personagem e que pertence a outra época é realmente frustrante. Procuro falar de um isolamento e de uma prisão do olhar. As impossibilidades me interessam”.

Trabalhando com vídeo e fotografia, paixões desde menino, quando eram sua defesa contra o mundo real, o computador do artista é o seu ateliê. Mas Bernardo combate a ideia de uma arte tecnológica, uma vez que, segundo ele, cada artista fez uso das técnicas e ferramentas de produção de imagem de seu tempo: “No meu caso, as ferramentas que criam meus trabalhos e geram significados nos objetos só podem ocorrer dentro de uma máquina e com um operacional técnico bem específico. Esse trabalho de significar e gerar códigos só ocorre na relação entre mim e o computador”.

Para conhecer melhor o artista: www.vimeo.com/channels/bernardopinheiro

 

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