© Foto: Isabella Mathes

Vibrante e radiante, a obra mais recente da artista plástica Beatriz Milhazes, Milk Mel (2008) é uma colagem de cinco metros de largura por quatro de altura, composta principalmente de embalagens de bala e chocolate e papéis de várias cores e texturas, coloridos em silkscreen. Esta obra faz parte do ambicioso projeto expositivo que a artista iniciou com a Fondation Cartier pour l’Art Contemporain em Paris há quase cinco anos e cujo resultado é a aclamada retrospectiva que ocorre em seu prédio, projetado pelo arquiteto Jean Nouvel, de 4 de abril a 21 de junho de 2009.

“Eu apenas quis utilizar intensas cores e padronagens que atraíssem o olhar”, afirma a artista sobre a colagem. De fato, Milk Mel impera e preenche o espaço com a beleza e a explosão de cor que Beatriz Milhazes sempre busca evocar. Além desta colagem comissionada especialmente para a mostra, a retrospectiva inclui dez pinturas e duas instalações em vinil.

Beatriz Milhazes é conhecida pelas suas exuberantes e coloridas telas em acrílico cujos temas remetem ao modernismo, assim como a motivos da cultura brasileira, como a música, o imaginário popular e a natureza. Utilizando ornamentos e padrões de caráter decorativo, em um repertório de fontes nacionais e internacionais, Beatriz iniciou sua carreira como pintora nos anos 1980, em uma época em que a importância da pintura era retomada.

A artista fez parte da conhecida exposição Como Vai Você, Geração 80? e destacou-se pela técnica rigorosa que aplica em seus quadros, utilizada até hoje. Segundo o texto do curador Paulo Herkenhoff, a obra de Milhazes é “um labor de disciplina dos sentidos e concentração mental”. Em seu método, a artista primeiro pinta os motivos em folhas de papel plástico transparente em reverso e, em seguida, cola-os na tela. Uma vez seca a pintura, o plástico é retirado, como em um decalque, deixando a pintura pura sobreposta na tela. Tal processo requer tempo e, em virtude da grande escala de suas pinturas, limita sua produção. Também possibilita a sobreposição de várias formas e desenhos, alguns nítidos, outros mais mascarados e, em alguns, que parecem descascados, criando uma rica gama de texturas que adiciona, ao movimento do olhar, a explosão de motivos escondidos nas telas abstratas de Milhazes.

Essa energia percebida nos quadros de Milhazes foi brilhantemente explorada na exposição na Fundação Cartier. Em conjunto com o curador da mostra, Herve Chandres, foi decidido que a retrospectiva seria composta por dez telas representativas de cada ano dos últimos dez anos. Mas esse processo curatorial não foi tão simples como pode parecer. O prédio de Jean Nouvel, no qual a Fundação é baseada, foi projetado como uma caixa de vidros transparentes que continuam além da própria estrutura funcional do prédio a fim de remover a barreira entre o ambiente interior e exterior. Para superar esse desafio de colocar suas obras em um ambiente ativo onde as paredes necessárias para pendurar suas pinturas eram inexistentes, foi necessário redesenhar o espaço e construir novas paredes brancas. A ideia foi, de acordo com a artista, “criar um desenho labiríntico e fazer essas paredes soltas” cuja diversa escala “permitia uma certa privacidade na obra; e que, a cada confronto com a pintura, o espectador tivesse um tipo de surpresa”. Assim, cada tela escolhida e posicionada devia ter uma situação distinta da anterior e, ao mesmo tempo, estabelecer uma ligação harmoniosa para permitir o fluxo da mostra. “Para expor pintura, você tem que colocar paredes, e aqui as paredes se tornam a grande questão, pois vamos desenhar o espaço novamente. É um desafio, mas é superatraente.”

Entre as obras mais antigas escolhidas para fazer parte desse “labirinto”, estão O Beijo (1995) e os Três Músicos (1998), ambas do período que a artista denomina de “latino-espanhol”, da primeira metade dos anos 1990. Em O Beijo (1995), pode-se perceber uma indumentária muito figurativa como os crochês, os babados, as rosáceas e os corações. Tal riqueza de detalhes, a sensualidade e os volumes criados pela artista nessas obras mais antigas foram concebidos com uma mistura de pintura transfer e direta na tela, esta última especialmente nos babados. Todavia, mesmo nesses quadros, a pintura direta não é tão óbvia, pois Beatriz afirma ter um problema com “o efeito evidente da pincelada e da mão do artista” no seu trabalho, que sempre tentou evitar ao “buscar uma relação mais gráfica”. A utilização da pintura direta torna-se cada vez mais rara e pouco presente nas pinturas recentes, como Beleza Pura (2007) e Dancing (2008). Nessas obras, existe um forte caráter geométrico e uma maior apuração gráfica, influência direta da experiência da artista com seus recentes projetos que lidam com escala e arquitetura.

De fato, a preocupação com o espaço arquitetônico e a ideia de um olhar além da tela ocorreram pela primeira vez em 2000, quando a artista foi convidada a fazer parte do Projects 70, um ciclo de exposição de banners no Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova Iorque. Ela produziu uma bandeira que ficou exposta do lado de fora do museu e, a partir de então, passou a trabalhar com outras estruturas além da pintura, como os painéis e as fachadas de vinil adesivo. A instalação na estação de metrô em Gloucester Road, em Londres (2004), os vitrais para a retrospectiva na Estação Pinacoteca (2008) e a fachada do Museu de Arte Contemporânea de Tóquio (2008-2010) são exemplos de como a artista utilizou o espaço público. Ciente desta adicional forma de expressão, a Fundação Cartier comissionou para a mostra duas instalações em vinil adesivo para cobrir suas paredes de vidro.

Nessas instalações, Beatriz Milhazes tem que resolver questões diferentes das pictoriais comuns, ligadas diretamente com a relação entre a estrutura orgânica do prédio e as obras expostas e com a interação da luz externa com a cor. O resultado final foram duas instalações que interagem com a mostra e permitem também ao passante vivenciar a obra de Milhazes. Cada instalação resolveu seus problemas de formas distintas e inteligentes. A artista utilizou vinil translúcido para a janela de trás do prédio, de forma a fazer com que, de manhã, o sol projetasse no chão da mostra as formas e as cores do vinil, como se fossem vitrais, e, à tarde, o visitante visse o jardim do lado de fora. Já na fachada da frente, foram usadas folhas de vinil opaco de diferentes tonalidades de dourado, permitindo a passagem de luz natural por algumas áreas vazadas.

Nos últimos anos, Beatriz Milhazes tem se aventurado em diversos outros projetos, como as edições limitadas das gravuras, tapeçarias e livros de artista, que são projetos mais esporádicos e específicos. Os livros de artista, Coisa Linda (2002), editado pelo MoMa de Nova Iorque, e Meu Bem (2008), editado pela Galeria Thomas Dane em Londres, também estão na mostra da Cartier.

Os dois são completamente distintos. Coisa Linda foi baseado na ideia de uma caminhada na praia e, para isso, a artista selecionou músicas brasileiras relacionadas com a bossa nova. Como se fosse “um livro dentro de outro”, Beatriz Milhazes criou uma sequência de imagens em silkscreen que tinham uma relação com as músicas selecionadas. Ao trazer música para um livro, foi necessário lidar com as limitações do meio: “apesar do livro ter a música como estrutura, na verdade, o que você tem impresso são as letras das músicas”. Dessa forma, Beatriz teve que escolher suas canções levando em consideração não apenas o ritmo, mas o seu teor literal. Já no livro Meu Bem, a artista baseou-se em referências do Rio de Janeiro, como a calçada de Copacabana, a vegetação e o Carnaval, e a partir delas desenvolveu a estrutura do livro em uma relação mais intensa de colagem impressa por meio de técnicas variadas. Os livros exploram temas presentes na obra da artista, a musicalidade e a cidade do Rio de Janeiro, porém de uma forma objetiva e talvez mais íntima, como se fosse quase um desenho. O resultado é deslumbrante.

As fontes de inspiração na obra de Beatriz Milhazes são diversas e, segundo ela própria, “qualquer estímulo pode contagiar sua obra”. Apesar desta riqueza de projetos, algumas críticas consideram a obra de Beatriz Milhazes limitada, condenando-a por ser meramente decorativa e por não evoluir ao longo dos anos. O crítico de arte Fernando Cocchiarale discorda. “Sei que algumas pessoas implicam com a obra dela, mas talvez falte conhecer as expansões de seu trabalho de pintura, como a loja da Taschen que ela fez com Philippe Starck e outras intervenções. É possível entender como ela chegou onde está hoje, é uma artista extremamente profissional, que tem uma obra vigorosa, de padrão internacional.”

Os altos valores alcançados por suas telas nos útlimos anos também são alvos de crítica. De acordo com a consultora da Sotheby’s no Brasil, Kátia Mindlin, o motivo da valorização é a ousadia. “Beatriz ousou não ter medo de ser vista como decorativa, na contramão do mercado de arte contemporânea, que hoje valoriza obras densas. T. S. Eliot dizia que ‘a humanidade não pode suportar muita realidade’. A arte também deve ser uma janela para algo menos ideológico ou pessimista. Sempre haverá demanda para isso.” Além disso, Carmen Melian, chefe do departamento de arte latino-americana da Sotheby’s em Nova Iorque, ressalta o papel da exposição internacional. “Milhazes vem expondo regularmente ao redor do mundo, então mais pessoas tiveram a chance de conhecer seu trabalho e se apaixonar por ele.”

A mostra na Fundação Cartier, além de ser a maior exposição da artista na Europa e ter um grande peso internacional e profissional para sua carreira, deixa evidente o desenvolvimento do trabalho da artista. Aqui, sua obra ultrapassou as limitações da pintura e expôs a especificidade de cada meio que hoje Beatriz Milhazes utiliza para se expressar. Para a artista, a mostra “abriu uma outra possibilidade de como mostrar o seu trabalho”. Podemos perceber também um forte interesse por formas de expressão orgânica, tanto no encadeamento dos motivos de inspiração como na relação da sua obra com o espaço social.

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