© O Moreno, 2005

O MORENO, 2005
Acho que o senso de melancolia [que muitos críticos veem no meu trabalho] pode ser encontrado em minha obra não somente pelas cores, mas também na maneira como aplico a tinta com todas estas camadas, e pelos resultados de superfície. Minha técnica poderia funcionar na medida em que carrega memórias em sua superfície, mesmo que no final os quadros tenham uma textura plástica suave. Além disso, muitos padrões poderiam nos fazer lembrar coisas do passado ou da memória, mesmo quando trabalho apenas com motivos abstratos.
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SEM TÍTULO, 1989
Minha geração no Brasil, a geração de 1980, tinha uma espécie de situação especial no contexto da arte brasileira. Éramos um grupo de alunos interessados por pintura. Aquela década era caracterizada por uma espécie de entusiasmo e agitação sobre a arte, que levava jovens artistas a fazerem parte de um mundo das artes antes pouco visível. Éramos uma geração que cresceu durante o período da ditadura no Brasil.

Acredito que o fato de usar elementos de minha cultura é uma atitude política. Certa vez, em visita ao meu estúdio, Robert Storr disse: “Você é mulher, pintora, usando elementos de sua cultura brasileira, cores, elementos decorativos brasileiros, todos os itens que são sempre considerados ‘arte menor’. Você elevou tudo isso para o status de ‘arte maior!'” Jamais tive medo de desenvolver significados na pintura a partir destes elementos “menores”. Meus títulos são bastante narrativos e poéticos, mas não “explicam” as pinturas, nem excluem qualquer elemento possível. As pinturas jamais poderiam ser “políticas”, pois, afinal de contas, são pinturas!

As pinturas jamais poderiam ser “políticas”, pois, afinal de contas, são pinturas!
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CANELA, 2010
Uso minha própria cultura como quadro de referência para minhas pinturas abstratas. Acho que todo artista faz o mesmo; sempre falamos de nossa própria cultura. Os trópicos são o ideal de exotismo e poderiam levar minhas plateias americanas e europeias a sonharem diante de minha obra. Uso conscientemente alguns destes aspectos que despertam em mim o interesse em ser artista, como a grande manifestação do carnaval! Sinto-me mais como um Gauguin ao contrário. Gauguin veio da Europa para os trópicos para acrescentar importantes atmosferas e cores às suas pinturas – eu vim dos trópicos para a Europa para dar mais significado, mais estrutura, mais interesse às minhas pinturas. Considero-me uma pintora geométrica. Em minha opinião, o que eu trouxe do Brasil para a cultura europeia e americana é a liberdade de criar uma ordem! Nós, brasileiros, e especialmente os pintores, não temos uma grande história subjacente da arte. Este ponto também me deu um tipo de liberdade para criar o meu próprio mundo sobre questões e interesses de pintura.

Uso minha própria cultura como quadro de referência para minhas pinturas abstratas. Acho que todo artista faz o mesmo; sempre falamos de nossa própria cultura.
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FOLHA DE FIGO, 2013
Meus títulos se originam de fontes muito abertas. Dependem do período e também do fato de serem pinturas, colagens, impressos, ou obras de locais específicos, etc. Bailinho é diminutivo de “baile”, em português, e é algo interessante do idioma – o som e a delicadeza desta palavra é que interessam. São os aspectos sutis das características linguísticas: a palavra “baile” em português gera Bailinho, que é “um pequeno baile.” Samambaia é uma planta tropical que existe em ambiente muito úmido e é comum em lugares como o Brasil. É muito bonita e delicada também – é como uma renda.

Minhas pinturas são abstratas. À medida que os elementos se tornam cada vez mais abstratos, o contexto sai da pintura. Sempre tenho interesse pela vida e minha obra sempre estará conectada com a vida. Títulos são muito importantes porque dão nome às obras, o que é algo muito especial; mas, ao mesmo tempo, podem subverter seus significados e conceitos. Minha técnica é uma perversão do processo de pintura e os títulos também contribuem para isso. Como disse Lacroix: “Os títulos de minhas obras são o último motivo a ser estabelecido”.

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