© Cortesia Bauhaus-Archiv Berlin / Foto: Hartwig Klapper

DASARTES 06 /

Bauhaus, inovação e arrojo

90 anos e ainda muito jovem.

A mais revolucionária escola de arquitetura e artes aplicadas, a Bauhaus, completa 90 anos em 2009. Fundada por Walter Gropius em 1919, em Weimar, na Alemanha, transferida posteriormente para Dessau e depois para Berlim, a “Staatliche Bauhaus” representou um sopro de evolução das ideias e das técnicas modernas. A escola transformou conceitos estéticos em propostas inovadoras no design, na pintura, nas artes gráficas, na arquitetura, na dança e no teatro, compondo um capítulo expressivo da criatividade artística do século 20. Fechada pelos nazistas em 1933, por considerarem uma expressão degenerativa, a instituição permaneceu viva por ter influenciado culturalmente as artes plásticas no mundo todo.

Citando os mais conhecidos, foram seus mestres o pintor suíço Johannes Itten (1888-1967), os artistas plásticos Lyonel Feininger (1871-1956), Paul Klee (1879-1940), Oskar Schlemmer (1888-1943), Wassily Kandinsky (1866-1944), Laszlo Moholy-Nagy (1895-1946), os arquitetos Hannes Meyer (1889-1954) e Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969), os aprendizes e depois mestres Marcel Breuer (1902-1981) e Josef Albers (1888-1976) e o artista gráfico austríaco Herbert Bayer (1900-1985). A formação da Bauhaus possibilitou uma notável revitalização do design abrangendo toda uma postura artística que influenciou várias gerações de artistas plásticos, designers e arquitetos, refletindo as suas proezas estéticas numa ampla dimensão que repercute até os dias atuais.

Uma proposta funcional

Em linhas gerais a Bauhaus originária da Deutscher Werkbund (Associação Alemã do Trabalho) tinha como objetivo a formação de pessoas com talento artístico na área de design industrial, especialmente artesãos, escultores, pintores e arquitetos, com foco no treinamento manual e no aprimoramento da técnica e da organização, visando a produção industrial e o compromisso social de reconstruir um país destruído pela Primeira Guerra Mundial com a democratização da produção de objetos do cotidiano. A diversidade de propostas e pensamentos que se amalgamaram na instituição serviu de parâmetro no campo da pesquisa de novas formas funcionais tanto na arquitetura como no design. Incutindo uma carga analítica aos aprendizados com uma forte conotação de pesquisa e busca de inusitadas linguagens plásticas, os mestres consolidaram toda uma dialética concepção filosófica da arte na harmonia perfeita de requintadas técnicas focalizadas no avanço do futuro.

Algumas das realizações que se tornaram símbolos da escola são a famosa poltrona Wassily, de tubos de aço niquelados, de Marcel Breuer, datada de 1926, assim denominada em homenagem ao amigo Wassily Kandinsky; a chaleira com coador de Marianne Brandt (1924), uma peça antológica com forte influência da Art Déco; a luminária de mesa de Wilhelm Wagenfeld e K. J. Jucker, com pé e tubo de vidro e abajur de vidro fosco, um clássico de 1923/24; e inúmeros outros exemplos de modernidade. A Bauhaus deu um impulso gigantesco para que o design industrial se tornasse funcional, estipulando formas que se posicionaram como clássicas e extremamente atuais.

Le Corbusier, importante arquiteto, urbanista, teórico e pintor francês de origem suíça, apesar de não pertencer à Bauhaus, era amigo de Mies van der Rohe e, inspirado numa declaração de Paul Cézanne, fazia uma advertência aos seus colegas de profissão: “os cubos, cones e esferas (por extensão, cilindros e pirâmides) são as três grandes formas primárias, que a luz revela com destaque, e sua imagem nos é perceptível de forma limpa, palpável e clara. Por isto, são elas as formas belas, as mais belas de todas. A arquitetura egípcia, a grega ou romana representam a arte de construir a partir de prismas, dados, cilindros e esferas – o gótico, ao contrário, não parte de formas grandes e primárias. A catedral não é obra de arte plástica, é um drama”.

As três formas fundamentais no desenvolvimento da arquitetura e do design surgem também nas telas de Kandinsky, Klee, Itten, Muche e Feininger, envoltas numa infinidade de combinações cromáticas que definem rumos na busca do fundamental, uma visão matemática que assume uma poética transparente e inovadora.

A escola, com as oficinas e cursos de diversas vertentes da arte e do design, proporcionava uma formação ímpar, um novo olhar com concepções plásticas arrojadas. Gropius dizia: “a forma segue a função e todo o ornamento deve ser abolido”.

Josef Albers, um importante afluente

Em São Paulo, o Instituto Tomie Ohtake, aproveitando o momento em que se comemora nove décadas da fundação da Bauhaus, realizou a exposição Cor e Luz: Josef Albers – Homenagem ao Quadrado. Albers foi mestre da Bauhaus e sua obra revigorou o estudo da cor numa dimensão mais ampla. A série Homenagem ao Quadrado, executada após sua saída da escola e mudança para os Estados Unidos, representa seu intenso trabalho no período de 1950 a 1976. O estudo da cor foi levado ao extremo da percepção, descobrindo sutilezas em certas luminosidades em contrastantes confrontos. Albers, além de se destacar como professor da Bauhaus, foi um profundo pesquisador envolto na teoria e na prática, realizando uma obra estruturada nas interações cromáticas.

A série Homenagem ao Quadrado representa a essência de sua obra. Ao utilizar a mesma estrutura básica, o quadrado, desenvolveu uma dimensão cromática que extrapola a realidade concreta, alcançando as ilimitadas percepções da cor como unidade independente. A cor, em suas entranhas, a fomentar reflexões e posturas estéticas inovadoras, rompe barreiras, impondo novos parâmetros da abstração geométrica. Tendo realizado uma enorme quantidade de obras, e vislumbrando na autonomia da cor a sua força íntima, Albers foi um obstinado estudioso que realçava a visão, o saber olhar e perceber as sutilezas cromáticas definidoras de novas perspectivas pictóricas.

Bauhaus, hoje

Atualmente, o Arquivo Bauhaus – Museu do Design, em Berlim, desenhado por Walter Gropius em 1966, conserva preciosa documentação sobre a atuação dessa escola que tinha como meta inovar, criando uma metodologia na difusão de conceitos com obras que podem ser apreciadas tanto na Europa como nos Estados Unidos. O belíssimo prédio construído em concreto com todas as superfícies visíveis trabalhadas com jato de areia e janelas de alumínio com cor de bronze, uma obra de extremo requinte, acolhe uma biblioteca de 22 mil volumes sobre as diversas atividades criativas desse centro de pesquisas e estudos avançados sobre arquitetura e design.

Na periferia da cidade de Dessau, porém, encontra-se a antiga sede da Bauhaus, construída também a partir de um projeto de Gropius, em 1925/26, juntamente com as residências dos professores. A edificação principal é um ícone da modernidade e acolhe uma marcenaria, uma tecelagem, uma oficina de pintura e uma tipografia. Nas sete residências, viveram, além de Gropius, diretor da escola, os professores Moholy Nagy, Feininger, Muche, Schlemmer, Kandinsky e Klee. Essas casas ficaram em parte destruídas durante a Segunda Guerra Mundial. Do domicílio do diretor, sobraram a garagem e o porão, sobre os quais foi construída, em 1956, uma casa tradicional. A antiga residência de Moholy Nagy desapareceu por completo e a de Feininger serviu de Policlínica durante o regime comunista, sendo restaurada em 1994, enquanto as casas de Klee e Muche foram reconstruídas em 2000 e 2002. A recuperação dessas construções é uma das prioridades da administração de Dessau, por espelhar o dinamismo de uma escola multidisciplinar revolucionária que visava construir um forte elo da arte com a indústria, caminho para o racionalismo. O conjunto das edificações foi considerado patrimônio da humanidade pela UNESCO, em 1996, por sua linha arquitetônica ousada e valor histórico.

Dentre as inúmeras obras vinculadas aos cânones vanguardistas, as construções projetadas por Mies van der Rohe representam um referencial basilar dos preceitos arquitetônicos da escola alemã, como o edifício Seagram, de 39 andares, armadura de aço com vidro solar, situado a 30 metros retraídos da Park Avenue, em Nova Iorque, sobre um terraço de chapas de granito e duas piscinas. No entanto, a maior concentração de prédios concebidos nos padrões da Bauhaus encontra-se em Tel Aviv, Israel, em um conjunto denominado Cidade Branca, patrimônio mundial da UNESCO, que reflete a linha estética de um estilo em que a funcionalidade assume a essência da arquitetura contemporânea.

Em comemoração aos 90 anos da escola, várias exposições ocorrem ao redor do mundo, como Bauhaus: Um Modelo Conceitual, atualmente, e ironicamente, em cartaz no prédio que abrigava a sede da Gestapo em Berlim e, a partir de novembro, no MoMA, em Nova Iorque. A mostra conta com mais de mil trabalhos de antigos alunos da escola e permite reconhecer sua linha de pensamento além da ideia comum que muitos fazem do desenho Bauhaus.

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