As mediações da arte contemporânea

Entre os diversos filósofos, pesquisadores de outras disciplinas, artistas e especialistas em arte que vêm cada vez mais ao Rio de Janeiro, bem como, aliás, a outras cidades do país, está a socióloga francesa Nathalie Heinich, cuja palestra no Seminário Internacional Criações Compartilhadas: artes, literatura e ciências sociais, na Casa Rui Barbosa, versou sobre o estatuto do artista contemporâneo.

Partindo da interrogação sobre a especificidade da arte contemporânea − tema de seu próximo seminário universitário −, ela considera ser essa uma ordem da arte que rompe com a tradição moderna e com a clássica. Grosso modo, se esta última se baseava nos cânones da figuração e, a moderna, na expressividade do artista, a contemporânea está fundada nos jogos entre fronteiras da arte, como transição de categorias: não há relação direta entre o artista e a obra; ela não está atrelada apenas à dimensão estética, mas também à condição sociológica; não se resume a uma dimensão material, mas se vincula em especial às formas de comunicação, necessitando de mediações, que acompanham a obra. É, sobretudo, nas modalidades de mediação como curador, crítica, instituições e mercado que se realiza a legitimação da arte contemporânea. Segundo a socióloga, a busca para “descobrir” novos artistas é quase uma condição da atuação de críticos e curadores, colocando em questão, porém, o desenrolar da carreira do artista.

Nos trabalhos de sua larga produção voltados para as artes visuais, trata, principalmente, do estatuto do artista e da noção de autor, como no texto Entre oeuvre et personne: l’amour em régime de singularité, de 1997. Segundo Nathalie Heinich, em regime personalista, a pessoa do artista ou do autor singularizado pode ser valorizada pela intensidade das experiências comuns, em particular “pelo sofrimento, que acompanha certamente o tratamento santificador do grande artista, sobre o qual um talento fora do comum atraiu o sofrimento, ao mesmo tempo em que sua capacidade de suportar esse sofrimento pelo amor de sua arte, coloca-o fora do comum”. Em Du peintre à l’artiste. Artisans et académiques à l’âge classique, belo livro no qual a socióloga retraça a formação da identidade do artista na França, do século 17 ao final do 18, é assinalado o processo de formação do público, sobretudo pelos Salões, cujos visitantes, cada vez mais interessados na pintura, desenvolvem nova relação com as obras, já não mais em razão de transação financeira ou de contatos direto com o artista. É nesse contexto, diz a autora, que “se dá a dupla especificidade do público tal como ele se cria nessa época: de se relacionar não ao espaço privado da coleção, mas ao “espaço público” da consumação de imagens; de engajar não a apropriação material pela compra, mas esta atividade imaterial que é o olhar, a apreciação, o julgamento”. Processo de intelectualização do olhar, como atividade avaliativa, que produzirá, mais tarde, novo gênero de literatura artística ? a crítica de arte.

Antiga aluna de Pierre Bourdieu e atual diretora de pesquisa no CNRS, centro de pesquisas sobre as artes e a linguagem, Heinich define seus trabalhos recentes não como uma sociologia da arte, mas uma “sociologia a partir da arte”, orientando-se para uma sociologia de valores que seja simultaneamente empírica e não teórica; analítico-descritiva e não normativa, e mais compreensível do que explicativa.

Se sua análise da existência de mediações, criando hierarquias passíveis de legitimar um artista não deixa de ser fato, fica a questão das transformações de linguagens e a crescente presença dos artistas nas esferas teórica, crítica e curatorial, em contexto no qual a busca, o desejo e a vontade de produzir sentido constituem o traço sensível da arte atual.

 

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