© Luis Buñuel e Salvador Dali

Ou arte em colaboração, parceria. Neste campo de uma autoria expandida, de uma identidade artística ampliada, vem-se produzindo cada vez mais notícias: são agrupamentos, fusões de artistas para um objetivo comum, que apresentam toda uma vertente contemporânea, embora durante muito tempo “o mundo da arte tenha tentado frear tacitamente os projetos em colaboração, porque não se ajustavam às suas expectativas”, como apontaram em 2002 Helena Cabello e Ana Carceller, duas significativas artistas espanholas. De fato – exceto nas experiências das primeiras vanguardas, seladas por propósitos comuns (objetivos, manifestos, praxes expositivas), o que facilitava a colaboração entre artistas, ou das neovanguardas posteriores, aportando experiências corais, e até com outro senso do coletivo e do público –, só a partir do último terço do século vem-se reconhecendo melhor esta área de criação estética, que se pauta em formas diversas, artistas-equipe, em dupla, artistas em grupo, em rede…

Se, por um lado, ficam na memória parcerias míticas de George Grosz & John Heartfield, Luis Buñuel & Salvador Dali, Hans Arp & Sophie Taenber-Arp, ou as performances grupais de Fluxus, por outro, as artes plásticas estão longe de se assemelhar com campos interdisciplinares característicos, como o cinema, a arquitetura ou a música, em que não há tantos problemas de autoria mitificada, pois ela é bem mais compartilhada. De fato, os projetos coletivos em arte ainda continuam em lugar marginal em relação ao centro imaginário legitimador da arte, regido pelos nomes (e quanto mais midiáticos, melhor). Em uma sociedade estigmatizada pela psicanálise e pelo culto à profundidade, não parecia ser uma alternativa muito popular uma arte fora do nome-marca. Aliás, o elitismo do mundo da arte, a pressão de seu lado mercadológico e a fragilidade da sua relação com a sociedade acrescentam-se a esta dificuldade.

Ainda assim, várias são as linhas que convergem para esta situação comentada no Dossier: a multiplicidade da obra de arte (a poética de relação ou entre-imagens que vincula registros/suportes diferentes), a necessidade de articular disciplinas para uma obra mais híbrida e, por outro lado, o interesse de somar individualidades para um projeto grupal ou de ambição social. No fundo, trata-se de outro approach à matéria-prima da obra de arte, que pode vir vinculada a uma redefinição de sua natureza, e de sua inscrição diferente – ou não – no circuito artístico, já nem integrado nem apocalíptico, talvez as duas coisas juntas. Como diz Charles Green, repensar a autoria significa ver como se definem os produtos artísticos na prática, em sua inserção como propostas.

Neste sentido, são numerosas as atividades de artistas que trabalham em equipe, com diversos profissionais de áreas diferentes (Regina Silveira ou Antoni Muntadas), ou as experiências artísticas como as de Tunga, às vezes em parcerias significativas (Artur Barrio, Arnaldo Antunes, entre outros), ou de Nuno Ramos, pela confluência de campos/colaborações (literatura, teatro, música), ou ainda jogos de autoria/leitura entre artistas (Travessias Cariocas, 2008).

A estas alturas, a lista de duplas artísticas, por exemplo, é numerosa: Gilbert & George, Christo & Jeanne-Claude, Marina Abramovic & Ulay ou Equipo Crônica (ambos extintos), subReal, Atelier Morales, Bernd & Hilla Becher, Pierre & Gilles, Mauricio Dias & Wlater Riedweg, L. A. Raeven, Komar & Melamid, Glegg & Guttmann, Paulagabriela, Wlademir Dias-Pino & Regina Pouchain, Marcos Chaves & Giancarlo Néri, entre outros. O eu pode ser visto também como um ready-made, como uma identidade ficcional que se constrói. A lista de grupos também é elucidativa: Guerrilla Girls, General Idea, Group Material, AES+F group, Camelo, Chelpa Ferro, Atrocidades Maravilhosas etc.

O caráter relacional e móvel da identidade tem muito a ver com estas novas experiências de arte pós-ateliê, em que não é secundária uma maior identificação da cultura e da sociedade, como preocupação e interação entre diferentes criadores. O que também se liga com a procura de novos espaços expositivos (Dossier Outros Lugares de Arte) menos neutros e assexuados, com outra vivência mais intensa da estética, sendo considerada como uma ampliação do circuito da arte, mais heterogêneo. Outra questão posterior é a radicalidade ou pertinência das propostas destas atividades conjuntas, quais são suas definitivas riquezas final e plural, ou o contexto crítico que estabelecem.

O Dossier conta com duas análises específicas, inéditas, de Daniela Labra e de Newton Goto, que cuidam há tempo deste campo cada vez menos periférico da criação grupal, em parceria, coletiva, de autoria em circuito, com extensas ramificações e resultados inovadores. Além destas duas contribuições textuais, contamos com um mapa de referências, “apropriado” da pesquisa de Goto (cedido gentilmente pela revista Primeira Pessoa, n. 1, João Pessoa, 2005), que oferece dados, nomes e projetos que estão nesta fresta de criação artística mais comunitária.

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