DASARTES 07 /

Arte na antiguidade, sobre gregos e contemporâneos

Pode-se dizer que era mesmo arte?

Algumas perguntas no mundo da arte são muito simples de se responder, como, por exemplo, o que é um baixo-relevo? Ou por que os pintores impressionistas não contornavam suas imagens? Questões aparentemente fáceis se comparadas à mais complexa de todas: o que é arte? Penso que Sócrates chegou perto de uma resposta, quando, em seu diálogo com Hípias, conclui brilhantemente que as “as coisas belas são difíceis”,1 e nem falava das artes especificamente.

Jorge Coli, em seu famoso livro O que É Arte, chama-nos a atenção para o fato de que, mesmo não tendo uma definição exata sobre a arte, saberíamos facilmente reconhecer obras artísticas. Da Vincis, Picassos, Dalís seriam exemplos certeiros, porém este método de reconhecimento intuitivo seria complicado, para não dizer inaplicável, se tratássemos de trabalhos de arte contemporânea. Reconhecer uma obra de arte parecia algo menos complexo no século passado; até mesmo os “não iniciados” se arriscavam nas equações mais tradicionais (pintura + museu = obra de arte ou escultura + pedestal = obra de arte). Porém, hoje em dia, não basta ter cara de obra de arte para ser arte; aliás, muitos dos melhores trabalhos contemporâneos sequer têm cara! Um divisor de águas construiu-se no mundo das artes, iniciado por Duchamp e ampliado pela Pop Arte, e a antiga explicação para o que era ou não arte foi pelo ralo abaixo. Coisas que jamais seriam admitidas como obras de arte de repente aparecem nos museus, bienais e galerias, e outras que antes tínhamos o costume de admirar perdem o fôlego no mundo da alta arte. Muitas linguagens se renovaram, outras poéticas se desenvolveram.

A filosofia e a crítica da arte atualmente se preocupam menos com questões sobre a estética e mais com problemas como estes: por que a Brillo Box de Andy Warhol é uma obra de arte e a Brillo Box do supermercado não é,2 se são exatamente iguais? Ou como assimilar que um texto possa ser inscrito em um edital de desenho como fez Cildo Meireles para o MAM na década de 1960? Ou como uma peça musical pode ser executada sem que nenhuma nota seja tocada, como é o caso de 4’33’’, de John Cage?

Todas estas indagações que surgem no contexto da teoria e da crítica da arte contemporânea podem nos levar a uma análise também crítica de algumas obras ou momentos da arte antiga e tradicional. Ou seja, se acreditamos que o aprofundamento em um trabalho de arte contemporânea depende mais daquilo que ela pretende comunicar do que de como ela se apresenta visualmente, fica mais fácil entender que, na Antiguidade, o inverso também era verdadeiro. Muitas vezes, imagens e objetos destas épocas remotas, com cara de obra de arte, surpreendem-nos por não serem arte de fato, pois não foram realizados com finalidade artística propriamente dita.

Criar faz parte do contrato do humano. Desde os primórdios, nossa espécie inventou imagens fascinantes, algumas muito rudimentares, como a pedra sulcada há aproximados 250 mil anos, encontrada em Israel no sítio Berekhat Ram, cujo resultado se assemelha a uma mulher; e outras incrivelmente elaboradas, como a escultura de uma fera humana de Hohlenstein-Stadel, na Alemanha, que data aproximadamente de 31.000 anos a.C.

Como estas, existem milhares de obras primitivas e antigas, que só se “transformaram” em obras de arte na modernidade quando foram assimiladas pela história da arte: temos as emblemáticas pinturas encontradas em cavernas e montanhas na Europa, na África e até mesmo no Brasil no estado do Piauí, que parecem ter sido feitas para uma contemplação muito específica e restrita, mais direcionada a práticas mágicas e culturais que à contemplação artística.

Outro curioso conjunto de arte-anterior-à-arte são as imagens do Egito Antigo. Sabemos que tais pinturas, baixos-relevos, esculturas etc., todos de natureza fúnebre e comemorativa, foram criados com a finalidade de registrar os feitos do morto e principalmente de servir de guia a este na vida após a morte. A cultura do antigo Egito, além de sustentar-se na ideia de pós-vida, acreditava que o espírito ou Ka, depois da morte, sofria uma espécie de amnésia e necessitava ser relembrado sobre quase todos os aspectos da existência carnal para saber atuar corretamente na nova fase do espírito. Por isso, o desenvolvimento de um sistema tão extenso e rigoroso de imagens e objetos para uso póstumo. Sabemos de tudo isso porque nunca uma civilização antiga foi tão obcecada pelo registro de sua história e de sua cultura; e, por sorte, sua língua foi traduzida. Neste sentido, podemos afirmar com certa segurança que o artesão egípcio não pensava em arte, nem em poiesis enquanto fazia sua obra. Pensava, talvez, em religião, dever e obediência. Se o leitor ainda não se convenceu de que tudo isso não é arte – afinal, são objetos tão bonitos –, eis aqui um erro comum: acreditar que basta ser bonito para ser obra de arte. Nem tudo o que nos parece belo é arte, e nem toda arte é bela.

Porém, neste tempo em que a arte-ainda-não-existia, ou seja, quando o pensamento sobre a arte ainda não havia sido elaborado da forma como viria a ser a partir do renascimento, houve lapsos que poderíamos aceitar como acontecimentos genuínos do que chamaremos de arte-arte. O historiador Julian Bell nos mostra um exemplo, um vasilhame de Niigata, Japão, datado aproximadamente de 2.500 a.C., e pergunta se uma peça com a forma tão elaborada teve um propósito funcional além de sua própria imagem, ou não. Neste caso, teria sido arte pela arte? Bell diz: “Aquilo de que ele está inegavelmente cheio é de sua própria elaboração, de seu deleitado interesse nas possibilidades infinitamente dúcteis da argila espiralada. Ele inaugura a perspectiva da arte pela arte, do esteticismo”.3

Mas é inegável que a melhor arte-pela-arte da Antiguidade aconteceu no seio de uma civilização que, de tão interessada em si mesma, foi capaz de, pouco a pouco, colocar em segundo plano todo e qualquer assunto que não fosse sua autoconsciência corpórea e filosófica. Quem, senão os gregos, teria mais condições de desenvolver a arte-pela-arte em tempos tão anteriores? Ao voltar nosso olhar ao passado das imagens, observamos que função e forma estavam por demais vinculadas ao aspecto religioso e prático, e que isso barrava a produção de imagens cuja finalidade extrapolasse estes objetivos. No entanto, ouso dizer que o povo grego teve iniciativa para desenvolver, em meio à cultura oficial, uma produção cultural independente do sagrado, apesar de usar frequentemente as referências da religião. Neste sentido, sua arte passa a existir em si e para si, e a estética passa a ser a finalidade da obra, e não mais um meio para se alcançar outros objetivos. O historiador da arte Arnold Hauser observa que as imagens produzidas pela Grécia antiga, apesar de estarem inseridas em um contexto de culto, tinham nesse “emprego ritual” um mero pretexto para sua existência: “O real objetivo dessa arte religiosa é realizar a apresentação perfeita do corpo humano, uma interpretação da sua beleza, a compreensão de sua forma sensível, livre de todas as complicações mágicas e simbólicas”.4

Nenhum outro povo amou tanto a si mesmo, cultuou tanto o corpo e a beleza, assim como os prazeres mundanos e intelectuais, como os gregos. O segredo da vida e do pensamento gregos consistia em ser o homem a medida para todas as coisas. Assim, podemos dizer que uma estátua do jovem Apolo [IMAGEM] existe além de sua função religiosa. Ela também irá surgir para o observador como a encarnação de uma forma ideal, de virtude e de equilíbrio entre o homem e a natureza representada em termos de cânone – estética e força moral. E quantos outros significados poderia ainda comportar?

No meu entender, a revolução poética grega no que diz respeito à produção de imagens e significados foi sem precedentes. Pode-se dizer que os gregos criaram um conjunto de obras cuja imagem, apesar de absoluta em um primeiro momento, já poderia estar agregando algum valor semântico além da forma. O trabalho artístico apresentava camadas de interpretação dispostas (ou escondidas) sob o epidérmico primeiro nível de comunicação, ou seja, aquele do sentido religioso. A relação entre o belo e o sagrado é óbvia, porém é insuficiente para a complexidade da arte grega. Esta, em níveis de complicação diferentes e talvez menores, como a arte contemporânea, convida aquele que a vê para um passeio entre múltiplas possibilidades interpretativas e discursivas.

Segundo João Paulo de Oliveira, a cultura do novo milênio compõe uma paisagem híbrida, em que redes interligadas e em formação constroem relações caóticas, ambíguas e paradoxais, porém cabíveis na construção de uma leitura racional em movimento. Cada ponto da rede é fragmentado e (re)conectado constantemente, não permitindo somente a forma estética como enunciado único, formal ou principal. Este é o panorama da arte atual, e minha pergunta é se a arte grega não poderia ser uma espécie de paleontologia deste saber. Disso que gerou, na arte atual, a exigência muito maior de um leitor que de um mero observador.

1 O que é o Belo, do Hípias maior de Platão.

2 DANTO, A. A transfiguração do lugar comum. São Paulo: Cosac Naify, 2005.

3 BELL, J. Uma nova história da arte. São Paulo: Martins Fontes, 2008. p. 26.

4 HAUSER, A. História social da arte e da literatura. 1. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995. p. 75.

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