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DASARTES 36 /

ARTE E POLÍTICA

Arte e Política – No meio da multidão

ARTE E POLÍTICA – No meio da multidão
Por Amanda Carvalho

“Quem é você como artista intelectual público?” Essa pergunta foi um dos eixos para a organização da publicação Sobre artistas como intelectuais públicos: respostas a Simon Sheikh, proposta por Ana Maria Maia e eu para a finalização do Ciclo de Portfólio na Casa Tomada (São Paulo), em 2012. Diante da recorrência de iniciativas de apresentação de processos de criação no circuito de arte contemporânea, percebemos a necessidade de refletir sobre a importância dessa ação. Propusemos aos oito participantes do evento (Adriano Costa, Daniel de Paula, Flávia Junqueira, Garapa Coletivo Multimídia, Marcos Brias, Paula Garcia, Roberto Winter e Vitor Cesar ) e a nós mesmas pensar o discurso do artista em relação às suas práticas poéticas e políticas.

As reverberações do contexto político na arte sempre percorrem desdobramentos na produção contemporânea. Não foi diferente com a crise da cena política brasileira evidenciada pelas manifestações de 2013. Nesse contexto, ecoa outra pergunta: como as proposições artísticas se constituem como atos políticos-discursivos? As redes de ação não são (ou não deveriam mais ser) como as que emergiram na ditadura ou no impeachment do governo Collor. Agora o senso de coletividade busca incessantemente se reconfigurar entre a individualidade e a potência de vozes múltiplas. A edição atual da Bienal de São Paulo, Como (…) coisas que não existem, procura refletir sobre essa temática por meio de uma leitura ampliada que intersecciona o global e o local. Mas, voltando-se o olhar para a cidade de São Paulo, pode-se observar a ativação dessas questões em outros pontos da rede que compõe o circuito da arte.

Três fotografias realizadas pelo Mídia NINJA (Narrativas Independentes Jornalismo e Ação) foram adquiridas para o acervo do MAM-SP e exibidas pela instituição na mostra Poder provisório, com curadoria de Eder Chiodetto. Os “po?s-jornalistas” do Coletivo estavam nas ruas de mais de 50 cidades durante as manifestações de 2013 enquanto outros veículos documentavam as ações de helicópteros ou em cima de prédios. A aquisição e exposição de fotografias realizadas pelo Mídia NINJA levou as inquietações das ruas para um local tradicional do circuito da arte: o museu. O texto curatorial de Poder provisório é composto apenas por formulações interrogativas como “Quem tem o poder de legitimar o que é ou não é arte? Quão legítima pode ser a crítica de um curador ao poder, se a própria curadoria é também um exercício de poder? Misturar fotojornalismo com arte tem o poder de criar porosidades e amplificar trocas simbólicas entre ambos?” – pergunta-se Chiodetto. Será que questionamentos por meio da materialidade de uma exposição podem evidenciar uma possibilidade de ação política?

O artista Lucas Bambozzi vem refletindo sobre essas questões em suas proposições artísticas, como na videoinstalação Multidão, que já foi apresentada em diversos locais, como no Vale do Anhangabaú, durante a Virada Cultural em maio de 2013. Os novos modos de agir em sociedade, as transformações ocorridas no senso de coletividade e as discussões do filósofo italiano Toni Negri guiaram a proposição curatorial do projeto Multitude (SESC Pompeia, São Paulo, 2014) idealizado por Bambozzi e Andrea Caruso. Negri reflete sobre a contemporaneidade por meio do conceito de multidão – um conjunto de singularidades não representáveis que, ao mesmo tempo, potencializam a colaboração e o conflito. Multitude contemplava encontros, workshops, performances e exposição que se referiam direta ou indiretamente a essa temática oferecendo espaço para a emergência de questões em comum e distinções culturais que resistem a um mundo globalizado.

No desejo, direito e demanda de ocupação de espaços, Glayson Arcanjo – que participou recentemente da residência Phosphurus no centro de São Paulo – direcionou seu olhar para o movimento no entorno. Nessa região, pessoas abandonadas convivem com prédios ocupados pelas lutas por moradia. O artista perambulou por um local no qual uma multiplicidade de subjetividades se sobrepõem. Entre desenhos, fotografias e vídeos, uma faixa com uma frase de Julio Cortázar – “…fora isso tudo estava calado na casa” – habitou uma instalação na exposição no final da residência. O trabalho de Arcanjo se situa entre o desejo e a utopia da democracia atual. Ou, como observou a curadora Maria Monteiro, “há momentos em que a arte não tem força para competir com a vida”.

No meio da multidão, a temática política do contexto atual ocupou diversos outros trabalhos na cidade de São Paulo e outros locais do Brasil. Pode-se observar que a construção de um discurso político pode ser vista como uma rede aberta, constantemente tensionada pelo desejo assertivo de fechamento, uma busca por experiências relacionais entre artistas, curadores, espectadores/ativadores, instituições, trabalhos e vivências. Considerando essa possibilidade, o ato artístico-político emerge (ou deveria emergir) através da troca na esperança de não ser isolado e constituir uma continuidade.

LIMITE ZERO
Por Simon Watson

Os artistas têm uma possibilidade única de ecoar e espelhar as esperanças, sonhos e aspirações das pessoas e de canalizar essa energia psíquica em suas obras. Minha atividade curatorial nos Estados Unidos tem frequentemente me conduzido a obras e artistas com perspectivas ativistas, social ou politicamente. Há mais de 30 anos, e através de mais de duzentas exposições, tenho curado artistas estadunidenses engajados em temas sociais e políticos que abordam a questão do racismo e das relações raciais (de Gary Simmons e Lyle Ashton Harris a Lorna Simpson, Mickalene Thomas e Kehinde Wiley), direitos das mulheres e cuidados com a saúde (de Barbara Kruger e Jenny Holzer a Deborah Kass, Kiki Smith e Lutz Bacher), sexualidade, homofobia e AIDS (de Felix Gonzalez-Torres, Nayland Blake e Jack Pierson a Catherine Opie, Marilyn Minter e Nicole Eisenman). Todos exploraram tais identidades e reconheceram que a expressão da própria dor é um ato político.

O Brasil também tem muitos artistas abordando questões sociais e políticas semelhantes. Por isso, tem sido emocionante – como visitante frequente do país e testemunha ativa de seu cenário artístico – reconhecer as vozes artísticas que, cuidadosa ou abertamente, falam da dor e da angústia humanas.

Minha recente curadoria na mostra Limite Zero, com obras dos artistas Cris Bierrenbach, Maurício Ianês, Paulo Nazareth e Priscilla Rezende, na Galeria Lourdina Rabieh, em São Paulo, foi um reconhecimento do desempenho artístico e da investigação social e política por esses excelentes artistas brasileiros. A mostra incluiu a performance de Priscilla Rezende, curada por Fabiana Lopes. Analisando as relações de gênero e a violência contra as mulheres no Estado de São Paulo, Bierrenbach apresentou videoperformance e fotografias; em uma análise do deslocamento social, Ianês apresentou uma instalação de fotografias e um enorme bâner que tinha sido incluído em performance e jantar para os desabrigados de um parque no centro do Rio de Janeiro; examinando as classes, Nazareth apresentou uma performance em vídeo de sua série Notícias da América; tratando de questões de gênero e etnias, Rezende apresentou uma performance e uma série fotográfica centrada em questões da sociedade brasileira contemporânea. Na exposição, Priscilla apresentou uma de suas mais recentes performances, Bombril (2010), em que usa seus cabelos como palha de aço para limpar a superfície de vários utensílios de cozinha em metal. O trabalho leva no título o nome da popular palha de aço brasileira, também usado como termo pejorativo para os cabelos de afrodescendentes.

Os quatro artistas de Limite Zero – cujo título é baseado em uma poderosa performance de Berna Reale – são apenas alguns dos muitos artistas brasileiros de todas as idades que estão fazendo arte que reflete e conecta esses tempos fluidos cultural e politicamente e cujos trabalhos têm a feroz urgência do agora.

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