© C.G.Jung e Nise da Silveira na inauguração da exposição do Museu de Imagens do Inconsciente em Zurique, 1957

Museu de Imagens do Inconsciente

Por Luis Carlos Mello

Quem visitar o Museu de Imagens do Inconsciente irá se confrontar com imagens inquietantes e belas que compõem um acervo de mais de 350 mil obras, estudadas em diferentes áreas do saber humano com o intuito de decifrar os misteriosos processos que se desdobram no interior de indivíduos que vivenciaram um profundo mergulho no inconsciente. O Museu de Imagens do Inconsciente nasceu da extraordinária produção dos ateliês de atividades expressivas como pintura, modelagem, xilogravura, em 1952. Isso porque, inconformada com os métodos violentos de tratamento psiquiátricos em uso na época, Nise da Silveira encontrou na terapêutica ocupacional outra forma de tratamento para o esquizofrênico.

Fundou então, em 1946, o Serviço de Terapêutica Ocupacional no Centro Psiquiátrico Pedro II do Rio de Janeiro. O ateliê de pintura foi aberto no mesmo ano, tendo como monitor Almir Mavignier, hoje pintor de renome internacional. Sua participação foi fundamental na história desse trabalho, oferecendo e descobrindo as melhores condições para que os internos pudessem criar livremente.

As oficinas da Terapêutica Ocupacional foram atraindo para seus diversos setores pessoas abandonadas nos pátios do hospital psiquiátrico ao azar da não ação. Na luta pela mudança do ambiente hospitalar, foram surgindo seres excepcionais como Emygdio, Raphael, Adelina, Isaac, Abelardo, possuidores de uma capacidade de expressão extraordinária.
Três meses após a inauguração do ateliê já havia material suficiente para uma pequena exposição. Assim, ao fim do ano, foi inaugurada no antigo Centro Psiquiátrico Nacional, atual Instituto Municipal Nise da Silveira, a primeira mostra de imagens pintadas pelos internos. A exposição despertou grande interesse, sendo transferida para o edifício-sede do Ministério da Educação, possibilitando acesso ao grande público.

Para surpresa da Drª Nise, os psiquiatras brasileiros se interessaram menos por essa produção do que os críticos de arte e o público em geral. Escreveram nos jornais da época Antônio Bento, Rubem Navarra, Mark Berkosvitz, etc. Dentre eles destaca-se Mário Pedrosa, crítico do jornal Correio da Manhã, cuja compreensão sobre o assunto apareceu de forma clara e profunda: “O artista não é aquele que sai diplomado da Escola Nacional de Belas Artes, do contrário não haveria artista entre os povos primitivos, inclusive entre os nossos índios. Uma das funções mais poderosas da arte – descoberta da psicologia moderna – é a revelação do inconsciente, e este é tão misterioso no normal como no chamado anormal. As imagens do inconsciente são apenas uma linguagem simbólica que o psiquiatra tem por dever decifrá-las. Mas ninguém impede que essas imagens e sinais sejam, além do mais, harmoniosas, sedutoras, dramáticas, vivas ou belas, enfim, constituindo em si verdadeiras obras de arte”. Em artigo dessa época, criou a expressão “Arte virgem”, que define como uma arte despojada de convenções acadêmicas estabelecidas ou de quaisquer rotinas da visão naturalista ou fotográfica.

Além do reconhecimento do valor artístico do acervo pelos artistas e experts em arte, o Museu realizou, ao longo de sua existência, mais de cem exposições no Brasil e no exterior, que sempre atraíram grande público, seja pelo fascínio das formas como também pela revelação do inconsciente.
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Obra em Contexto de Arthur Bispo do Rosário

Por Ricardo Resende

Bispo do Rosário teve uma vida reclusa. Passou boa parte dela dentro de uma colônia manicomial, a Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. Foram 30 anos de produção artística confinado entre quatro paredes. Teve nesse lugar todas as condições para criar sob os olhos dos médicos e funcionários uma obra que nem o mais “preso” e nem o mais livre dos homens no mundo conseguiria. Poucos foram os artistas que deixaram um legado dessa natureza e relevância para a humanidade.

A primeira mostra do ciclo de exposições Obra em Contexto de Arthur Bispo do Rosário teve como objetivo envolver todos aqueles que trabalham na conservação e disseminação da obra do artista. Na segunda exposição, os convidados foram as crianças que vivem no entorno da Colônia Juliano Moreira. Na terceira mostra, artistas do Ateliê Gaia trouxeram seus trabalhos para dialogar com os de Bispo, sem hierarquia. A última exposição do ciclo trouxe 11 artistas de diferentes gerações que pensaram a poética de seus trabalhos em estreita relação com trabalhos de autoria do Bispo.

Para despertar para a importância do acervo do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, é necessário descobrir seus sentidos, suas potencialidades estéticas, sua beleza e, claro, sua delicadeza ao descrever o mundo. É a construção de um mundo muito próprio o que nos lega Arthur Bispo do Rosário. Os convidados trouxeram novos olhares e deram sobrevida para essa obra, tornando-a ainda mais vital, uma maneira de descobrir esses muitos mundos de Bispo do Rosário: o poético, o plástico e o afeto sob outros olhares curiosos dos nossos convidados a compor com o artista.
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Arthur Bispo do Rosário – um canto, dois sertões

Por Marcelo Campos

Arthur Bispo do Rosário foi um homem “enfeitado de disparates”, como a personagem de Guimarães Rosa. Com a infância marcada pela intensa cultura popular de Japartauba, em Sergipe, Bispo presenciou e, possivelmente, participou como brincante dos festejos do dia dos reis. Ali, Bispo foi criança. A criança que brincou uma vez e quer brincar de novo. Segundo Walter Benjamin, esse é o grande mistério do brincar. A criança que repete, desobedece, sonha e pode subverter a lógica do mundo, questionando, imediatamente: qual é a lógica do mundo?

Arthur Bispo do Rosário, como a personagem de Rosa, cantava o canto disparatado de um sertão longínquo nas ruas de um Rio de Janeiro que se gabava em se parecer com Paris, comandado por vontades de higienização que preferiram esconder a pobreza em cortiços, favelas, subúrbios. Assim, sem saber, ao certo, como lidar com a dissonância, ao que atribuir tantas alucinações, já que Bispo, tal qual Lima Barreto, era dado ao maravilhoso, resolveram “empregar o processo da Idade Média: a reclusão”. Curiosamente, o lugar, Jacarepaguá, também era chamado de sertão, o sertão carioca. Ali, os mais altos graus de subjetivação eram controlados por remédios e tratamentos. A arquitetura era opressiva. A esfera familiar estava perdida. A cidade tinha hora de acordar e dormir, listas com números de quartos, fichas, canecas, colheres, tudo repetido, sem pessoalidade.

Mas Bispo do Rosário vinha de um lugar guiado por estrelas, permanecendo aluado. Navegava em mar revolto, aprendendo a ser como as marés, inconstante, imprevisível. E, mesmo tendo “alguma verve para a tarefa do dia a dia”, no dizer de Lima Barreto, tudo o levava a “pensamentos mais profundos, mais doridos”, marcado por “uma vontade de penetrar no mistério da (…) alma e do Universo.”

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