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Duas exposições consideradas momentos-chave para a arte argentina puderam ser vistas recentemente em São Paulo e despertaram novamente o interesse pelo cenário artístico de um país que, apesar da sua proximidade, não é tão conhecido no Brasil como merecem a qualidade das suas propostas e seus criadores. O impacto do movimento informalista e a súbita invasão dos talentos da nova figuração foram o tema da mostra 1961: A Arte Argentina na Encruzilhada – Informalismo e Nova Figuração, apresentada no Centro Cultural FIESP, até junho deste ano. As principais figuras do movimento informalista (Greco, Kemble, Wells, Paparella) radicalizavam a materialidade da obra e refletiam sobre os conceitos do processo criativo. Por sua vez, os pintores da nova figuração (artistas como Romulo Macció, Luis Felipe Noé, Ernesto Deira e Jorge de la Vega) propunham a volta da figura humana à arte de vanguarda com suposições inovadoras.

A irrupção destes dois grupos de pintores no cenário artístico argentino representou uma autêntica revolução pela ruptura com os gostos artísticos que até então predominavam no país. A exposição na FIESP, organizada pelo Museo Nacional de Bellas Artes de Buenos Aires, criou uma magnífica oportunidade para constatar as chaves artísticas desse período, um dos mais importantes para que se possa entender a arte contemporânea argentina.

Ambas as correntes tiveram um grande impacto na arte argentina posterior, e sua influência ainda se faz sentir. Além disso, vários artistas dessa época continuam trabalhando atualmente e são um exemplo para as novas gerações.

Certamente, o momento atual da arte não favorece rupturas tão concludentes com os padrões estabelecidos como ocorria no início dos anos 1960, mas, no entanto, agora também está crescendo uma nova geração de artistas argentinos que, a partir de posturas individuais, marca diferenças com as preocupações, os formatos e os estilos de outros tempos.
O CCBB de São Paulo recebe desde algumas semanas uma mostra na qual trinta artistas argentinos apresentam obras inéditas que permitem entender os caminhos pelos quais transita a criação contemporânea no país austral. A exposição permanecerá em São Paulo até 30 de agosto e posteriormente chegará ao CCBB do Rio de Janeiro, onde poderá ser visitada entre 14 de setembro e 22 de novembro.

A mostra aborda a presença da cidade na visão dos artistas, com perspectivas muito diferentes, como o mundo infantil de Marina de Caro, a visão arquitetônica de Pablo Siquier ou as brincadeiras entre realidade e ficção propostas por Dino Bruzzone. A obsessão por analisar os fenômenos urbanos é um dos temas recorrentes entre os artistas contemporâneos argentinos, e certamente tal interesse é explicado pelo fato de que, na Argentina, tudo começa e termina em Buenos Aires, a grande urbe que tudo pode e à qual a maioria dos jovens artistas de hoje continua tendo que recorrer se quiserem se mostrar para o resto do mundo.

Jorge Macchi, um dos artistas contemporâneos argentinos mais presentes no exterior, é um dos criadores que costuma analisar em suas obras a problemática urbana. Mas nelas também há elementos, como o azar, que acabam facilitando a construção de uma iconografia muito pessoal. As peças de Macchi sempre formulam perguntas ao espectador, embora ele mesmo diga que não é um artista que trabalha no campo das ideias, mas que prefere construir imagens que ajudam o público a reconstruir as áreas confusas da sua memória. A emoção e a ironia são conceitos básicos ao aproximar-se de sua obra. Suas exposições nos Estados Unidos e na Europa confirmam sua capacidade para despertar o interesse de públicos tão diferentes.
Vale a pena destacar que vários artistas presentes na mostra do CCBB declararam sua admiração e a influência que os artistas da nova figuração exerceram em suas obras. Um deles é Pablo Siquier, pintor que fundamenta suas obras nas tramas urbanas, no desenho e nos sinais. Seus quadros estão compostos por linhas que se entrecruzam até o infinito para formar desenhos muito intrincados e complexos. Apesar de sua obra parecer muito distante das preocupações figurativas dos artistas da década de 1960, ele não hesitou em citar Jorge de la Vega como um dos criadores que o influenciou.

Outro artista que está gerando muitos comentários nos últimos tempos – e que certamente continuará assim no futuro – é Leandro Erlich. Ele acaba de estrear sua primeira exposição individual no importante Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, em Madri. Suas instalações questionam a visão da realidade mediante simulações e efeitos óticos. Seu método de trabalho mais habitual é a manipulação de espaços e situações cotidianas para estabelecer uma realidade paralela que se enlaça com a verdade. “Eu tento romper a utopia para convertê-la em realidade”, comenta o artista para explicar as motivações do seu trabalho.

Miguel Harte é considerado um dos artistas mais importantes da década de 1990 na Argentina. Sua obra caracteriza-se pela construção de pequenos mundos em que se entremesclam conceitos de disciplinas como a Biologia, Geografia, Astronomia ou Geologia. Embora suas peças não correspondam a uma temática concreta, o substrato filosófico é comum a todas. Harte pergunta-se constantemente quem somos de fato e de onde viemos. Os objetos que constrói são um modo de arriscar responder estas questões.

Entre as mulheres que percorreram nos últimos anos a trilha iniciada pela grande artista argentina Marta Minujín está Marina de Caro – também muito projetada no estrangeiro –, que trabalha fundamentalmente o conceito do corpo, utilizando referências provenientes do mundo da moda e da arquitetura. “A percepção de objetos brandos inevitavelmente repercute no corpo; não são percebidos apenas pelo olhar, o corpo também os percebe”. É o que diz a artista sobre os fundamentos das suas instalações realizadas com tecidos. Fabiana Barreda, outra artista presente na mostra do CCBB e que pertence a uma geração posterior, realiza, por meio de suas obras, uma pesquisa para analisar o modo pelo qual a arte contemporânea cria imagens do corpo. Sua formação em Psicologia lhe ajuda a desentranhar os processos de criação artística.

Um dos sinais que testemunham o bom momento que parece atravessar a arte na Argentina é o sucesso de uma feira como a arteBA, que – além de contar com objetivos puramente mercantis – está se consolidando como um ponto de encontro para a reflexão e o debate sobre o que está acontecendo na arte de toda a América do Sul. Além disso, os espaços existentes para jovens artistas permitem ao público averiguar os gostos e os estilos das novas gerações.

A arteBA faz parte de um circuito artístico estável da arte contemporânea em Buenos Aires integrado por espaços como o Museu de Belas Artes, o MALBA, o Centro Cultural Recoleta, a Fundação Proa e o novo museu Fortbat.

Para o ano seguinte, anuncia-se a reabertura de um novo espaço, o Museo de Arte Moderno de Buenos Aires (MAMBA), que sem dúvida será uma nova oportunidade para aumentar ainda mais a oferta artística que não para de crescer. A estes grandes centros, deve-se somar uma grande quantidade de galerias. Algumas contam com uma longa trajetória e outras surgiram nos últimos anos, mas em todas há oportunidades para encontrar obras dos grandes nomes da arte argentina das últimas décadas. A arte não descansa em Buenos Aires, e as demais cidades do país também exportam talentos que continuarão florescendo para o mundo nos próximos anos.

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