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Na manhã chuvosa de 27 de maio, fomos prestar homenagem a Arcângelo Ianelli e acompanhamos, entristecidos, o cortejo fúnebre deste grande artista falecido no dia anterior, depois de longa enfermidade. Arcângelo iria completar 87 anos no dia 18 de julho.

Homem culto, afável, de muitos amigos, formou com Dirce, sua mulher, um casal radiante, inteligente e generoso. A casa de Ianelli vivia sempre cheia de artistas, de intelectuais que não recusavam os convites para almoços inesquecíveis e jantares memoráveis. Mas a vida não era só festa. Ianelli, desde muito jovem, dedicou-se com afinco ao ofício da pintura. E a pintura exige, como sabemos, dedicação exclusiva e obstinado trabalho. Kátia e Rubens, seus filhos, ainda trazem da infância a lembrança do pai sempre pintando, no seu ateliê. As telas acumulavam-se pela sala, pelos corredores. Tudo cheirava a tinta a óleo, a terebentina, ou melhor, quase tudo, porque, quando Dirce cozinhava, os cheiros da cozinha eram prevalentes, invadiam todos os ambientes.

A pintura do período inicial de Arcângelo Ianelli é extraordinariamente rica. Sua produção demonstra, ano após ano, um fazer cada vez mais disciplinado, voltado para contínuas sínteses das imagens, da composição e da cor. Hoje, passadas tantas décadas da fase figurativa, compreendemos melhor a relação que a figuração mantém (como elemento do pensar e do fazer artístico) com o período final de sua obra, isto é, com a fase abstrata que o consagrou definitivamente. Não há dúvida de que muitos dos preceitos plásticos que nortearam suas últimas telas de vibração cromática são originários da fase figurativa, quando o artista trabalhou com sínteses das formas e estudou as relações entre cor e luz.

As diversas fases, ao longo de sua vida, são reflexões encadeadas, são desdobramentos de ideias plásticas que se aprofundam. Ianelli trabalhou dando saltos de sínteses, mais do que rupturas. A coerência de sua pintura e a evolução de seu pensamento são características que chamam nossa atenção quando nos defrontamos com o conjunto da sua produção. Poucos artistas construíram uma carreira em “linha sequencial”, com tanto rigor e, ao mesmo tempo, com horizontes tão amplos.

Parece que cada nova tela contém toda a experiência plástica anteriormente acumulada. Uma verdadeira obra em percurso contínuo. Sua pintura dos anos 1940, início de sua carreira, está impregnada de influências do Novecento italiano. Essa tendência incorporava certos atributos da modernidade, principalmente da chamada Escola de Paris, mas não rompia com a tradição. Foram anos de aprendizado, quero dizer, de aprendizado artesanal, dominar a chamada “cozinha” da pintura. Ianelli e seus amigos, naqueles anos, praticavam um modernismo bem comportado, distante das transgressões das vanguardas europeias. Mesmo assim, notamos que sua atenção estava voltada para os aspectos construtivos da luz e para os elementos compositivos da paisagem. O desenho era rigoroso e contido. Evitava os elementos anedóticos da paisagem. O artista organizava o espaço, concentrando-se nas massas de cor e luz. Toda a década dos anos 1940 foi dedicada ao estudo.

Nos anos 1950, Ianelli participa da fundação do Grupo Guanabara juntamente com Takashi Fukushima, Manabu Mabe, Wega e outros artistas de origem japonesa, que se reuniam para pintar paisagens nos arredores de São Paulo. Mais tarde, a maioria deles caminhou para o abstracionismo informal, enquanto Ianelli percorreu o caminho da disciplina geométrica.

Nos anos 1950, sua plástica já possui uma identidade própria. Nas naturezas mortas e paisagens, sobretudo naquelas de registro urbano, com traçado de ruas e aglomerado de casas, percebe-se seu prazer pela geometria e pela poética das cores e pelo ritmo dos planos. Ainda arma seu cavalete diante da paisagem, mas seu entusiasmo está voltado para a pintura em si mesma, com objeto autônomo de linguagem, que se expressa desvinculada da natureza, tornando-se cada vez mais geométrica.

A partir dos anos 1970, consolida-se a abstração, estilo pelo qual se tornaria conhecido. A construção geométrica de planos e de tons que se sobrepõem, estabelecendo um diálogo instigante entre forma e cor. Contudo, as sobreposições não são fragmentos, mas partes inseparáveis de uma unidade.

A pintura, para Ianelli, foi sempre o desafio de construir um todo. A pintura, para ele, deve ser uma síntese vigorosa. Poucos sabem, mas Arcângelo Ianelli foi escultor. A escultura despertou seu interesse na maturidade. As primeiras maquetes datam de 1974, quando defrontou problemas para criar relevos em um painel para a fachada de um edifício. A partir desse desafio, tomou gosto pelo tridimensional. Trabalhou com o mármore e explorou as superfícies para receber de forma diferenciada o impacto da luz – assim construiu uma poética sutil e sensual de vibrações de claros e escuros. Obteve semelhante resultado com o ferro e com suportes de madeiras pintadas.

Durante toda sua vida, a expressão cromática representou o âmago de sua poética. A cor/luz exerceu sempre extraordinário fascínio e foi também o desafio de uma vida inteira. Na fase final, a cor adquiriu total protagonismo para pulsar como fonte de energia e de beleza! Arcângelo Ianelli deixou-nos uma obra radiante, plena de energia, vibrante como a luz que dá vida ao universo.

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