Antônio Poteiro, o profeta pândego

© Cortesia Bolsa de Arte

“Para mim, artistas como Poteiro, GTO, José Antônio da Silva ou Fernando Diniz são gênios. Nem um pouco menos. Toda arte verdadeira nos coloca diante do mundo como se o víssemos pela primeira vez, como se estivéssemos diante de algo desconhecido, imprevisto, inabordado”. Assim escreveu Frederico Morais em 1983, na apresentação de uma mostra do artista Antônio Poteiro, recentemente falecido. À lista do crítico, poderíamos acrescentar mais alguns nomes, como Artur Pereira, Vitalino, Nino, Ranchinho, Chico da Silva, J. Borges, entre outros. A quantidade de artistas brasileiros vindos das camadas populares e que realizam uma obra notável não é pequena.

Antônio Batista de Souza, nome de batismo de Poteiro, nasceu em Portugal em1925 e veio com a família para o Brasil com um ano de idade. Já adulto, depois de muitas andanças – incluindo uma permanência em uma tribo indígena, onde viveu como um selvagem por certo tempo –, fixou-se em Goiânia. Embora em uma entrevista tenha confessado que gostaria de ter sido poeta, cantor ou piloto de avião, acabou seguindo a profissão do pai, oleiro, e tornou-se conhecido como Antônio Poteiro. Dos nossos artistas do povo, ele é o mais internacional, tendo exposto na França, Portugal, Alemanha, Itália, Filipinas, Dinamarca, México e Japão. Sua carreira começou como a da maioria dos artistas do povo, de forma espontânea. Nos potes que fazia e vendia em feiras de Goiânia, começou a introduzir figuras em relevo, a mexer com a forma. Incentivado por pessoas ligadas à arte, logo ganhou confiança e extravasou sua prodigiosa criatividade em peças que surpreendiam pela força e originalidade, geralmente sintonizadas com o folclore ou o Velho Testamento.

Quando tomei contato com seu trabalho pela primeira vez, nos anos 70, e vi uma foto sua com longas barbas de profeta, tive a impressão de que estava indo ao encontro de um místico, um asceta, quando bati à sua porta em Goiânia. Quem me atendeu, desfazendo inteiramente a suposição, foi um homem simples, vestido com negligência, extremamente inteligente e de linguagem ferina, temperada por observações sarcásticas e irreverentes. Saí de lá trazendo para seus amigos de SP uns falos que ele moldava e enviava de presente. Ouvi de um de seus mais íntimos admiradores cariocas uma história que ilustra bem o humor e a picardia de Poteiro. Ele esteve no México por umas semanas, atendendo ao preparo de uma exposição, e, ao desembarcar no Rio, seus amigos quiseram logo levá-lo para um hotel, ou carregá-lo direto para o almoço em que era o homenageado. E ele: “gente, vocês me levem já para a praia”. Espantados com o pedido, os amigos indagaram o que ele queria afinal na praia: tomar sol? Dar um mergulho? “Não, respondeu o artista. Eu quero ver bunda!” – e explicou que, diante da exiguidade dos atributos glúteos das mexicanas, ele queria sentir que tinha voltado para o Brasil.

Em meados dos anos 70, já ceramista consagrado, passou também a pintar, incentivado por Siron Franco. Dividido entre a produção da pintura e da cerâmica, é difícil saber se em alguma dessas técnicas Poteiro é superior. Em minha opinião, como ceramista, o único artista no Brasil que poderia rivalizar com ele é Vitalino. Na pintura, poderíamos nos lembrar imediatamente de vários nomes de igual ou maior relevância. Nunca vi uma cerâmica sua que não fosse muito boa, mas tenho topado com muitos quadros desiguais, repetitivos, principalmente os da última fase. Poteiro é um dos mais significativos artistas brasileiros de todos os tempos. Não deixou discípulos na pintura. Mas, na cerâmica, além de seu filho Américo, está em processo de maturação um consistente artista, Odon Nogueira, que absorveu a técnica do mestre e vai assumindo um caminho próprio. Promete.

 

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