© Leandro Fazolla

Com duas individuais em cartaz e já preparando outra para o fim do ano, Antonio Dias abriu as portas de sua casa para a Dasartes, mostrou suas novas obras e falou sobre sua produção.

Fale um pouco das exposições. Como foi rever trabalhos de 30 anos atrás?
Foi muito interessante. Com alegria, soube que a Mul.ti.plo tinha encontrado e comprado estas aquarelas, algo que eu faço pouco, e ia expor. Na Celma Albuquerque também há trabalhos dessa época, foi um período em que eu estava em Milão, trabalhei muito e deixei tudo guardado quando fui viver na Alemanha, em 1988. É um conjunto feito nos anos de chumbo na Itália, usei muito fundo de jornal para mostrar um pouco a situação política. A exposição tem pinturas feitas sobre embalagens usadas de papelão e outras com papéis e jornais aplicados sobre tela, com colagens em cartão.

Seria possível pensar nos trabalhos da Mul.ti.plo numa esfera mais pessoal de ateliê, certa vontade de experimentação que já se manifestava em obras anteriores?
Sem dúvidas. Eles eram feitos para experimentar situações. Nessas aquarelas, voltei a usar o papel que tinha fabricado no Nepal em 1977. Não tem cola, é um agregado de fibras, não se pode trabalhar muito com água sobre ele, então a aquarela pedia esse imediatismo, essa coisa que não tem retoque, não tem repensamento. Por isso usei essa coisa mais espontânea do pincel e fazia uns recortes bastante formais, experimentando situações novas. Eu não trabalho todo dia, às vezes tem um período que trabalho sem essa tensão, experimentando. Foi o que aconteceu nessa série.

Sua geração questionou muito as linguagens tradicionais, a possibilidade de morte da pintura. Havia para você essa questão de repensar a pintura?
Na época havia praticamente duas correntes: uma que falava da morte da pintura pela produção de outras coisas, e outra que fazia pinturas com muitas cores, pinceladas largas, abstração. Nunca vi a morte da pintura como algo que eu tivesse que avaliar. Hoje a situação está muito fraca, estou mais habituado a ver uma pintura de conteúdo, mas também de consciência do que se desenvolve. Nos anos 1970, perguntavam-me por que eu pintava telas de dois por três metros à mão quando poderia usar uma máquina. Eu falava: “porque estou querendo falar de pintura”. Eu sempre insisti na tela como meu suporte de força.

Seria como um limite da pintura dentro da pintura?
É que não há mais necessidade de fazer quadro idiota, ou você faz algo que acha que tem força para chegar e comunicar com outra pessoa, ou não faz. Fazer para aumentar produção não fica no meu esquema de trabalho, meu trabalho é demorado, pensado, só sai de casa depois de passar um tempo comigo mesmo. Sempre achei que a arte, de certa maneira, é a construção de uma pessoa. Ela para mim serve nesse sentido, ela me constrói, através dela eu me percebo, comunico-me comigo e com os outros. Quando começo a trabalhar, tenho que encontrar um sentido. E cada vez que você procura sentido, busca um novo rumo, então durante um tempo você faz uma série, depois se interessa por outra coisa. Em alguns períodos trabalhei quase que exclusivamente em preto e branco, mas estou interessado em cores há alguns anos de uma maneira bem forte, procuro contrastes entre diferentes materiais. Deste ponto de vista, rever essas aquarelas de 1987 tão coloridas foi interessante.

Em seus novos trabalhos, nota-se que a pintura tem pensamento, mas há a sensação de não ser algo previamente projetado.
Durante alguns períodos eu fazia trabalhos completamente pensados. Para mim era um interesse mesmo. Hoje o trabalho se desenvolve aos poucos, partindo da situação de ter superfícies diferentes que vão, acopladas, encontrar um sentido. Ele vai se desenvolvendo sem que eu tenha ideia de onde vai parar.
Alguns trabalhos na Múl.ti.plo parecem ter relação com outros dos anos 1960.
Sim, porque têm essas figuras eróticas que eram comuns. Naquele período, revisitei os anos 1960. Com outro enfoque, mas usando quase as mesmas figuras.

Os trabalhos atuais dialogam com questões daqueles dos anos 1970?
Sim, mas nos anos 1970 havia quase um plano que antecipava o trabalho, não havia interesse pela pintura além do fato de ser pintado sobre tela. Agora a procura é outra, começo a trabalhar com superfícies separadas e vou encontrando um modo de articulá-las.

O espaço dessa pintura talvez fale não de um ilusionismo, mas de um ilusionista?
Acho que é o contrario, essa situação é mais realista com relação ao trabalho de pintura em si. Não tem aquele distanciamento. Esses trabalhos novos têm sua identidade muito exposta.

As questões exploradas em seu texto “não existe arte brasileira”, de 1981, foram resolvidas ou se mantêm atuais?
Na época havia uma procura de arte brasileira com a ideia de um sujeito dormindo ao lado de um cacto, com um papagaio no ombro e bananeiras ao lado. Era uma situação ridícula que, de certa maneira, ainda existe. Talvez nos últimos anos isso esteja mudando, mas ainda hoje se surpreendem com os rumos do concretismo e neo concretismo brasileiros. Hoje a gente pode olhar para a produção dos últimos sessenta anos e ver que existe uma marca nossa, que nos diferencia em vários setores. Acho que hoje ninguém faria uma pergunta boba como a que me faziam: “você acha que é um artista brasileiro?”. Acho inclusive que o modo como me relacionei no exterior foi sempre por meio da minha identidade cultural brasileira.

Compartilhar: