DASARTES 31 /

Anotações sobre a obra de Paul Klee

Do sonho à realidade, da vivência individual à coletiva, do mistério à evidência, a obra de Paul Klee se mostra um terreno fértil para pensar a própria arte.

Poucos artistas do século 20 são tão singulares quanto o suíço Paul Klee. Sua obra é como um grande lago que guarda todo o frescor e também o insondável mistério da vida. Imagens se sucedem evocando algo inconsciente e imemorial. Há um tempo passado, um resto de lembrança da infância que emerge e nos coloca dentro de um sonho desconexo, num mundo habitado pela doce fantasmagoria de orvalhos, vertigens e eclipses.

Poderíamos também associar a viagem por meio desta obra, como a escolha entre caminhos em claro/escuro, por estradas que ora nos levam a passeios por jardins paradisíacos, ora a pesadelos de fogo e morte. A obra de Paul Klee vai mais além da radiosa aurora e da terra que reclama sua parcela da luz e do calor do sol. Desce também às raízes das plantas, aos estratos e aos seres inferiores que habitam o solo, tornando-o fértil; e às tempestades que as irrigam e alimentam.

O mar de significados que identificamos em sua pintura se deve ao reflexo e ao trânsito que esta estabelece entre o sonho, a realidade, o vivido individual e a memória coletiva. Suas imagens são carregadas de valores ambíguos numa simbiose entre tempos, arquétipos, símbolos…

Sua monumental obra vai mais além de ser o reflexo ou resultado de seu tempo histórico, pois há nela uma internalidade espiritualmente próxima a artistas como Morandi, Zurbarán, Volpi, Hopper, criadores que construíram uma muralha ao seu redor para forjar uma obra única e autorreferente.

Percebemos sua arte como vitrais em vastos mosaicos de sucessivos planos de transparência. Paul Klee plasma o instinto e a intuição infantil a uma sofisticada estrutura pictórica ancorada em décadas de investigação, querem seu laborioso ofício de professor da Bauhaus, de músico, pensador, ou no eufórico e cotidiano embate de ateliê – a pintura, seus materiais e procedimentos. E é justamente essa forma pendular de colisões e coexistências que harmonizam o todo, isto é, o que há de onírico e esplendoroso se associa a uma secreta mecânica matemática. A pintura de Paul Klee se nutre da geometria, como atestam, por exemplo, as centenas de diagramas minuciosamente traçados a régua, compasso e esquadro em Weimar, entre 1920 e 1922. Porém, esta é uma geometria da imprecisão, do mundo manual que transmite calor e humanidade à obra.

Homenagem a Paul Klee, do poeta João Cabral de Melo Neto:

Nele houve o insano projeto
De envelhecer sem rotina;
E ele o viu, despelando-se
De toda pele que tinha.

Sem medo, lavava as mãos
do que até então vinha sendo;
de noite, saltava os muros,
saía a novos terrenos.

Paul Klee não chegou a ver todo o horror da Segunda Guerra Mundial. Morreu no dia 29 de julho de 1940, aos 60 anos, no vilarejo de Muralto, na Suíça. Porém, desde seu nascimento (1879), em uma localidade próxima a Berna, pôde presenciar fatos como a virada do século que tanto prometia aos homens com suas vanguardas artísticas, avanços científicos e técnicos, indústrias, novas ideologias, compromisso de bem-estar bem, como a devastadora Primeira Guerra Mundial.

Podemos estabelecer alguns paralelos da obra de Klee com a de outros artistas contemporâneos a ele, como Herman Hesse, Piet Mondrian, Thomas Mann, Emil Nolde e Carl G. Jung – este, principalmente, como Klee, trouxe para seu campo de indagações a questão do mito, do arquétipo, do símbolo, das sociedades ditas primitivas, e da sincronicidade da vida e do sonho.

A obra de um artista é a manifestação da razão, fruto de seu raciocínio e projeção do seu tempo ou é a revelação de sua imaginação, instintos emanados de seu corpo, sua carne e seu espírito? E, afinal, o que queria dizer Paul Klee quando proclamava que era necessário ver “a realidade através das coisas visíveis”?

A arte e a cultura classificadas no mundo ocidental como primitivas ou populares – e, de forma menos arrogante e polida como na França, arts premiers – não se baseia em extensos discursos racionais ou filosóficos para se autojustificar. Sua existência orbita o que é sagrado, ritual ou religioso. Simplesmente é!

O homem contemporâneo vem perdendo a capacidade de encantantamento e contemplação. O passar do tempo é cada vez mais rápido, rarefeito e caro. Refiro-me agora precisamente ao momento de espanto no qual o artista é subjugado pelo fazer e a embriaguez do ato criativo percorre sendas desconhecidas e misteriosas. Existe, portanto, mais além, uma realidade intangível – esconde-se nos objetos cotidianos, em fatos, paisagens –, pois em tudo há segredos.

Se todo o homem é uma ilha, a obra de arte faz revelar sua geografia. Torna visível o contorno insular. Essa cartografia afetiva nos revela praias e baías tranquilas e também seus arrecifes submersos. A obra inquietante de Paul Klee é então o astrolábio que nos conduz durante a viagem, mas não nos assegura a chegada ao destino.

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