© Rubber Seabra / Cortesia Galeria Artur Fidalgo

Escultora, pintora, gravadora, desenhista, artista intermídia, teórica e
professora. Anna Bella Geiger é uma figura plural e de grande relevância nos
cenários artísticos do Brasil e do mundo. Está inserida no universo da arte desde o
início da década de 1950, quando se tornou aluna de Fayga Ostrower e começou a
expor. A partir de então, vem contribuindo artisticamente com grande número de
obras que segue aumentando. Em abril, inaugurou a exibição mais recente na
Galeria Artur Fidalgo, sob a curadoria de Fernando Cocchiarale. Claramente, uma
bagagem que não cabe em uma curta matéria. Mesmo assim, é uma expoente da
cultura brasileira que não deve passar em branco.

A carreira de Geiger pode ser dividida em fases. Longe de limitar e
enquadrar a obra, essa divisão, observada pela própria artista, mostra apenas o
quão vasta é sua produção. Na década de 1950, encontrava-se focada na livre
criação sobre a forma pura, sensível às possíveis composições não figurativas.
Explorava linhas e contornos, sem rigor a formas geométricas. Construiu conjuntos
por vezes definidos e demarcados, por vezes incertos e contorcidos. Tratava-se do
abstracionismo informal, que, segundo Cocchiarale, foi um “divisor de águas” entre
o modernismo brasileiro, com seu “Realismo Social”, e o modernismo formal,
“Abstrato-Concreto”.

Em meados da década de 1960, esse esforço puramente plástico foi
substituído por outro tipo de investigação, dessa vez figurativa: o corpo. De 1965 a
1968, Anna Bella esteve em sua “fase visceral”, como propôs Mário Pedrosa no
artigo intitulado Anna Bella Geiger. As produções surgiam orgânicas, geradas pela
combinação de representações fragmentadas do corpo, fragmentos que
construíam quebra-cabeças carnais. Um mergulho no próprio universo interior,
para além da mera constituição física, sugere Cocchiarale. As peças realizadas
durante essa fase foram pouco expostas. Entre as mais conhecidas estão Órgão
Ocidental, Tronco, Garganta e Coração.

Na década de 1970, a artista estabeleceu “um corte importante em sua
trajetória”, escreveu Tadeu Chiarelli em Anna Bella Geiger: outras anotações para o
mapeamento da obra. Chiarelli falava da posição conceitual, crítica em relação à
obra de arte: Anna Bella passava a discutir a natureza desse objeto inserido no
contexto sociopolítico da época. Em plena ditadura militar, essa discussão
significou um questionamento em relação ao próprio Estado e à noção de
brasilidade. O “corte”, observou Roberto Pontual, também estava na
experimentação com fotografias, fotocópias, cartões postais, videoclipe e outros
recursos, uma vez que, antes, a artista se concentrava quase exclusivamente na
gravura em metal. A estratégia utilizada para pensar criticamente o contexto da
época foi a desconstrução dos signos que compunham a base ideológica daquele
Estado e do conceito de identidade nacional oferecido por ele.

A série Brasil Nativo/ Brasil Alienígena (1977) representa bem o período.
Foram dispostos cartões-postais com imagens da vida cotidiana indígena (o
brasileiro por excelência, segundo certo conceito de brasilidade) ao lado de fotos
da própria artista em sua vida cotidiana (a parte alienígena da nação). Na mesma
época, inclusive, Geiger começou a jogar com a reprodução cartográfica do país: no
discurso do Regime Militar, o mapa era símbolo do Brasil, ostentando
“continentalidade” e “integração”. Para evitar que a obra virasse um resumo simplificado sobre o tema da identidade nacional, historicamente muito visitado, Geiger optou pela paródia.

Em 1985, outra vez inovou, com forte investimento na pintura. Reforçando
a consistência demonstrada durante todos os anos anteriores, usou essa pintura
para revisitar suas produções (a abstrata, a visceral e a conceitual). Enquanto o
bom exemplo do trabalho da década de 1980 é a série Pier & Ocean, no decênio
seguinte a série Fronteiriços é icônica. Nesta, busca novos materiais e faz ressurgir
a representação cartográfica. Mapas da América do Sul e do Brasil se formavam em
gavetas de arquivos de ferro preenchidas com cera de encáustica e chapas
retorcidas de cobre. São “quase-objetos”, “quase-gravuras”, “quase-pinturas”,
sugere Cocchiarale.

Mais recentemente, a artista expôs obras inéditas na Galeria Artur Fidalgo.
Na exibição Nem mais, nem menos, volta a destacar a cartografia, dessa vez em
formato de pergaminho acrescido de outros materiais, como em Rrolo-Scroll com
Terras e Mares e Rrolo-Scroll com flor antiga DECÓ e xícara de porcelana branca.
Também chamou atenção o vídeo Cão Feroz, no qual, em apenas três fotogramas
que se repetem e alternam, percebe-se um cão que defende sua casa e ataca o
espectador. Sobressai, ainda, Sleeping Girl, obra em que a artista fotografou a neta
Alice imitando a posição da menina do quadro A girl asleep do holandês Johannes
Vermeer, de 1556.

Segundo Fernando Cocchiarale, Anna Bella Geiger divide com poucos
artistas brasileiros a vivência da passagem do moderno para o contemporâneo no
próprio trabalho. Ciente disso, a artista afirmou numa entrevista à TV Brasil: “Eu
sei do que preciso para desenvolver meu trabalho numa época ‘X’ e, de repente,
numa época ‘Y’”. Com 60 anos de atuação no país e no mundo, Geiger já deixou
boas pegadas na história da arte e continua caminhando.

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