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Andy Warhol: de A para B e vice-versa

Mega retrospectiva no Museu Whitney com mais de 350 obras – a primeira organizada nos EUA desde 1989 – revisita a carreira de ANDY WARHOL, um dos artistas americanos mais inventivos e influentes do século 20.

“Eles não queriam meu produto. Ficavam dizendo ‘queremos sua aura’. Nunca entendi o que queriam.” – Andy Warhol

Esse trecho tirado do livro “The philosophy of Andy Warhol”, escrito pelo próprio príncipe da Pop Art possui em seu cerne a forma com a qual Andy enxergava a arte que produzia, além de ser um bom exemplo do intricado jogo de palavras e intenções que o artista costumeiramente fazia quando falava publicamente.

Green Coca-Cola Bottles, 1962

É evidente que o Warhol entendia que as pessoas com as quais estava lidando ansiavam em obter um objeto impregnado com a singularidade artística quase etérea que a creditava por muitos às obras de arte. Entretanto, essa singularidade se baseia em uma segregação entre a arte dita aplicada e a arte “pura” de exposições e galerias. Tal conceito não encontrava eco na Pop Art, especialmente no trabalho de Andy Warhol, cujos temas e estética tinham como base a bem-sucedida carreira como ilustrador comercial que Andy desenvolveu na cidade de Nova York, nos anos 1950.

Marilyn Diptych, 1962

O Pop de Andy Warhol não apenas se inspirava, mas também celebrava o “American way of life” ao fazer uso de ícones da cultura de massa como a Coca-Cola e a sopa Campbell. O artista tem como ponto de partida o vocabulário visual do americano médio, não obstante termina por fornecer ao aparato da arte as bases para uma profunda reflexão a respeito do que efetivamente constitui uma obra. Nesse contexto, torna-se importante citar a recriação em 1964 por parte de Warhol das caixas de sabão Brillo como esculturas. Sendo elas idênticas às caixas disponíveis nos supermercados da época, a obra acabou sendo taxada como mercadoria ao ser enviada ao Canadá.

Em seu livro “Andy Warhol”, o filósofo e crítico de arte Arthur Danto afirma que: “Pode-se dizer que ele foi o motivo de uma profunda descontinuidade na história da arte ao eliminar da concepção usual artística a maior parte do que todo o mundo julgava pertencer à essência dela.”

Do início da carreira até 1967

Sleep, 1963

Andy Warhol nasceu em 6 de agosto de 1928, em Pittsburgh, no Estado da Pensilvânia. Era filho de imigrantes da região que atualmente corresponde à Eslováquia. Andy se graduou em design e se mudou para Nova York no verão de 1949. Durante os anos 1950, Warhol desenvolveu uma premiada carreira como ilustrador comercial, tendo executado ilustrações para importantes revistas como “Vogue”, “Harper’s Bazar” e “New Yorker”.

Sua primeira exposição foi na Hugo Gallery, em 1952. Entretanto, o artista teria que esperar exatamente uma década para obter reconhecimento como artista visual, algo que aconteceu apenas no ano de 1962, quando a Ferus Gallery de Los Angeles abrigou sua mostra com as pinturas das latas de sopa Campbell.

Chelsea Girls, 1966

O período compreendido entre 1962 e 1968 foi crucial para a carreira de Andy Warhol. Primeiramente, pelo estabelecimento da “Factory”, o badalado estúdio de trabalho do artista cujo nome fazia referência à produção em massa de produtos. Esses seis anos também foram marcados por uma intensa atividade criativa e pela inovação, visto que Warhol começou a utilizar a serigrafia como técnica de reprodução. Parte considerável das primeiras pinturas nas quais Warhol utilizou esse recurso são representações de famosos como Elvis, Marilyn Monroe e Elizabeth Taylor.

“Esses anos foram marcados por uma intensa atividade criativa e pela inovação”

No ano de 1965, Andy anunciou sua aposentadoria da pintura para se dedicar integralmente à produção de filmes. O cinema de Warhol foi quase todo experimental, era comum haver apenas um participante que era filmado de perto realizando uma tarefa simples e relativamente sem sentido. Um bom exemplo é “Sleep” (1963), um registro de cinco horas e vinte minutos de um homem dormindo. Com o tempo, suas produções foram se tornando mais complexas ao incorporar “script”, locação e elenco. Aqui podemos citar “Chelsea girls” (1966), filme sobre a vida de várias garotas que moravam em um tradicional local de hospedagem de artistas e escritores.

De 1968 até o final da década de 1970

Truman Capote, 1979

Em 1968, a escritora norte-americana Valerie Solanas atirou três vezes contra Warhol, que conseguiu sobreviver. Um ano após o drama causado por Solanas, Andy Warhol embarcou em uma nova empreitada: ele fundou a revista “Interview” voltada para celebridades. Já em 1972, a prática de estúdio do artista passou por uma renovação, Andy retomou o interesse por meios mais tradicionais como pintura, desenho, fotografia.

Senhoras e Senhores (Wilhelmina Ross), 1975

Warhol fez centenas de retratos durante sua carreira, entretanto, essa prática foi uma marca especial de sua produção dos anos 1970. Andy retratou desde amigos próximos a figurões da sociedade como artistas, galeristas, políticos, estilistas, atletas, músicos e atores. Alguns de seus retratos notáveis da época foram: Muhammad Ali (1977), Liza Minnelli (1974) e Leo Castelli (1975).

Mao, 1972

No ano de 1975, Warhol publicou “The philosophy of Andy Warhol: From A to B and back again”, onde fala sobre suas relações na Nova York dos anos 1960 e 1970, além de temas como amor, sexo, fama, trabalho e dinheiro. Por volta do fim da década de 1970, Andy ampliaria seu campo de trabalho para a TV ao comandar programas na televisão a cabo como “Andy Warhol’s Fashion”, “Andy Warhol’s fifteen minutes” e “Andy Warhol’s TV”.

Década de 80

Zênite, 1985 (Colaboração com Jean-Michel Basquiat)

As obras apresentadas por Andy Warhol durante sua última década de trabalho não foram bem recebidas pela crítica. Foi característica dessa fase a revisitação aos temas icônicos dos anos 1960. Como exemplo, é possível citar as embalagens comerciais, os autorretratos, Mona Lisa e Marylin Monroe.

Durante os anos 1980, Warhol era uma grande influência para os jovens e proeminentes artistas de Nova York, tendo colaborado com alguns deles, notavelmente, Basquiat e Keith Haring.

“Warhol era uma grande influência para os jovens e proeminentes artistas de Nova York”

A última ceia, 1986

A série “Last supper”, de 1986, fez uma releitura do clássico “A última ceia”, de Da Vinci. Warhol utilizou elementos estéticos contemporâneos a ele para interferir em uma das imagens mais conhecidas da cultura ocidental; entre outros recursos estão presentes novas e provocantes misturas de cores, logomarcas de empresas, preços e até mesmo motocicletas.

Apenas um ano após a criação das pinturas de “The last supper”, o príncipe da Pop Art veio a óbito em decorrência de uma cirurgia de cálculos biliares.

Andy Warhol teve por volta de quarenta anos de carreira, contudo, boa parte de suas séries mundialmente famosas foram produzidas no curto período entre os anos 1962 e 1968. Sua carreira foi marcada pela experimentação com praticamente todas as mídias que sua época lhe proporcionava, de forma que seus trabalhos perpassam a pintura, a escultura, a fotografia, o cinema, a televisão, a literatura, a mídia impressa, a publicidade, o design e a música. É justamente esse escopo amplo e multimidiático que a mais recente retrospectiva do artista nos Estados Unidos pretende mostrar ao público. “Andy Warhol – From A to B and back again” exibe 350 obras e estará em exibição no Whitney Museum de Nova York até o dia 31 de março de 2019.

Auto-retrato, 1964

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