© Leandro Fazolla

Fale um pouco sobre seu processo criativo.

Meu processo é bastante ligado ao projeto. Os trabalhos se desdobram de trabalhos anteriores e também a partir da vivência na cidade e ao entorno por onde circulo. Junto a isso, vem uma carga forte de História da Arte, que se relaciona em especial com a arte construtiva e minimalista. Na realidade, é um processo bastante empírico. Há um amadurecimento dos projetos entre as passagens do desenho para a maquete e, depois, para a execução e montagem. As limitações reais dos materiais, técnicas e lugares são também parte do processo criativo. Aceitá-las ou rejeitá-las são escolhas que perpassam a criação.

Grande parte do seu trabalho tem ligação com sua formação como arquiteta. Como a arquitetura colabora com sua produção?

Minha formação em arquitetura foi importante, embora problemática. Na época em que fiz o curso, o ensino de artes no Rio de Janeiro era muito acadêmico, no mal sentido, seguindo uma tradição em total descompasso com a arte contemporânea. Por isso, optei pela arquitetura como uma formação mais livre, que me permitisse olhar para a arte por outro ângulo. Foi intencional, mas, por outro lado, foi uma formação um tanto dura, uma escolha que me deu e tolheu coisas e contra a qual eu me debato constantemente. Acho que sempre escolho o caminho mais longo, é da minha natureza.

Como se dá seu trabalho no ateliê? Você tem uma rotina de trabalho?

Não existe uma rotina fixa, já que um caderno pode muitas vezes ser meu ateliê portátil. Não acredito na rotina do artista, há momentos de maior e menor intensidade. Acredito nessa alternância entre produção e ócio para que o trabalho se renove. Tampouco acredito em inspiração; tudo precisa de um tempo de amadurecimento e esse tempo vem com o trabalho e a persistência. Meus trabalhos são, em sua maior parte, projetados. O ateliê é um lugar onde eu testo, ensaio, guardo, fotografo os trabalhos, mas o início do processo de criação pode se dar em qualquer lugar. Como escultura requer uma mão de obra especializada, fica difícil realizar sozinha todas as etapas do trabalho.Há a colaboração com outros profissionais, e isso é enriquecedor.

Sendo suas obras, na maior parte, grandes instalações e muitas vezes site-specifics, como resolvê-las no espaço do ateliê?

O ateliê serve muitas vezes como um lugar de ensaios, onde você testa em escala menor ou faz um recorte do trabalho em escala real. A formação em arquitetura me deu uma boa noção espacial e me permite imaginar com certa precisão o trabalho final, embora muitas surpresas sempre aconteçam nessa transposição.

O que se ganha e o que se perde na passagem dos projetos para a obra em si?

Acho que não há perdas, só ganhos. É ainda um momento de geração de ideias e de muito crescimento para o trabalho, não é algo mecânico, automático. Existe uma grande abertura para mudanças no momento em que a obra vai para o espaço “real”, além de uma grande excitação, pois só aí o trabalho caminha para a plena realização.

E como é a troca entre os artistas da Bhering? Você costuma visitar outros ateliês?
O lugar é muito grande, os espaços têm um potencial incrível. Há muita troca entre as pessoas, mas, devido à escala e a localização dos ateliês, há também uma dispersão natural, cada um está na sua.

O que você está pesquisando neste momento e para onde caminha sua produção?

A partir do ano passado, meu trabalho começou a estabelecer uma escala maior e mais escultórica, até mesmo urbana, usando materiais mais pesados e empregados na construção civil. Muitos trabalhos podem ficar ao ar livre, tamanha robustez. É um caminho mais difícil, de maior planejamento, mas tenho persistido nessa direção.

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