© Fernanda Faria Jr

Um barco sendo transportado por um caminhão pelas ruas principais da cidade, rumo a um lixão onde se dará a ação, não é exatamente a cena mais usual que se espera ver no início de uma manhã qualquer, mas a artista Lúcia Gomes não é absolutamente convencional, e dela pode-se esperar incômodo, denúncia, gritos de aflição impressos em obras marginais, milimetricamente apontadas com precisão contra a apatia – toda ela. A performance de Gomes é uma das obras que compõem um acervo construído com maestria e situado no coração da Amazônia. Músicos tocando violinos em frente a um barco disposto sobre monturos com urubus sobrevoando o local e temos “Salão das Águas – Sanitário ou Santuário? – Pororoca”.

A Coleção Amazoniana de Arte da Universidade Federal do Pará, tornada possível em função do Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça/Prêmio Procultura de Estímulo às Artes Visuais 2010, da Fundação Nacional de Artes, conquistado pelo artista, pesquisador e curador Orlando Maneschy é mais um ponto de inflexão e reflexão sobre Arte Contemporânea no norte do país, e mais precisamente em Belém, de onde Maneschy lança seu olhar a partir de uma densa produção, com 31 artistas oriundos de diferentes regiões articulando diálogos profícuos e alinhados às questões mais atuais.

Vinculado ao Curso de Artes Visuais do Instituto de Ciências da Arte da Universidade Federal do Pará, Maneschy, também professor, estimula o pensamento do lugar da arte quando propõe que o Museu da Ufpa seja a instituição receptora da coleção, confirmando, assim, sua missão primeira, ligada à pesquisa e à produção de conhecimento, e ampliando a discussão quando a nomeia parceira de uma ideia de fluxo contínuo, como a proposição desse projeto, que reúne trabalhos de um seleto grupo de artistas e cujo desdobramento em exposição, seminários e mesas redondas traz à tona a importância de uma instituição permanentemente em conexão com a produção do lugar onde se insere.

Voltemos à paraense Lúcia Gomes, há quase dez anos radicada na Suíça, e que desde muito jovem se destacou nas artes visuais imprimindo uma marca indelével de sua personalidade inquieta e incansável. Nada fica de fora desse olhar que tudo perscruta, e suas proposições, ou talvez devamos dizer assertivas, contemplam um universo de temas, óbvios a um leigo desatento, mas geniais em sua plenitude, proposta e plataformas. Nem o céu é o limite, e suas experimentações ultrapassam contornos geográficos e temporais, firmando uma presença na ausência que fala mais do que a fisicalidade e concretude, que, hoje em dia, e aos poucos, dá lugar às ideias – finalmente. De Gomes, vide Sanitário ou Santuário?, Impeachment e o Nem que L faça 100 anos. Potência pura, visceral.

Mas a coleção aponta para várias direções e recebe o olhar de artistas com trajetórias e origem diversas, como a paraibana Oriana Duarte, que elegeu Belém como um dos territórios de pesquisa e ação em seus mergulhos nada sutis. E o resultado não poderia ser diferente, dado que a força do lugar pode ser visto na obra Gabinete de Souvenirs de A Coisa em Si – Belém, em que a imersão, proposta inicialmente por Maneschy, revela-se integralmente em tessituras variadas e provocativas. Duarte não economiza nos movimentos e seu trabalho tem uma largura que provoca o olhar, que o impele a ir além do quadro.

Sempre resistente, a pintura situa-se na coleção em surpreendentes traços configurando-se em terreno íngreme nas obras do jovem artista Eder Oliveira. A violência é a temática de seus trabalhos e as personagens retratadas saltam dos jornais e assumem certo protagonismo bizarro, um outro grito a cortar a noite modorrenta. Os personagens estampados em muros e paredes, e por vezes em telas, evocam a frágil condição do sujeito exposto, e cuja ideia de intervenção guarda o conceito no próprio título, e provoca espasmos ante a denúncia.

Menos nominal e mais mágico é o trabalho de Thiago Martins de Melo, do Maranhão. Seus corpos expostos são o próprio corpo em sintonia com a energia imanada dos ancestrais, guias do desejo revelado, parte a parte para quem quiser se ver ou se estranhar. Não há impassibilidade ante Meu Sete e todos os caminhos possíveis, que fogem ao intervalo proposto e se propaga em nossas próprias referências.

E há ainda as fotografias de Luiz Braga e Miguel Chikaoka, canônicas metáforas da luz amazônica, ou da luz somente. A precariedade das construções humanas diante da natureza que encontramos em Sem Título [da série súbitas paisagens] P, de Rubens Mano, que dialoga com o surfista de Danielle Fonseca em É preciso aprender a ficar submerso, onde a artista se permite divagar sobre ondas filosóficas e encontrar Deleuze em um mar que é rio, uma característica forte da região.

A coleção não se pretende coleção exclusivamente, mas une o recorte geográfico ao capturar os vários olhares convergentes, vindos de dentro e de fora da Amazônia, e dá-lhes voz. Os seminários Conversações – olhares sobre a Amazônia reuniram em momentos distintos e temáticos, para situações de troca, engendrando um encontro de gerações, escritores, filósofos, pesquisadores, críticos e arte-educadores dialogando com artistas participantes do projeto e constituindo juntos crônicas locais de um fazer artístico que cada vez mais delineia sua própria identidade cultural, e sempre construindo pontes com o resto do mundo, com o qual mantém inequívoca comunicação.

Nomes como João de Jesus Paes Loureiro, Ernani Chaves, Marisa Mokarzel, Jorane Castro, Vânia Leal e Armando Queiroz participaram desses encontros que tiveram a transmissão on-line em parceria com a Casa Fora do Eixo – Amazônia e POSTV, ampliando o acesso ao projeto e seus desdobramentos, neste momento tão propício, segundo o próprio articulador: “é a possibilidade de articularmos um território vivo, em um momento tão necessário para pensarmos estratégias e políticas para a arte”, conclui Maneschy. Para conhecer a coleção, acesse www.experienciamazonia.org.

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