DASARTES 30 /

Alto Relevo

Alto Relevo – Camila Soato

Em diferentes momentos da história da arte ocidental, a pintura, sua grande diva, foi atravessada por “inconveniências”: ora na forma de uma abordagem ousada dos temas que chocava o observador, ora pela experimentação de novas técnicas que transgrediam cânones, enfim, os artistas que empreenderam movimentos mais radicais de renovação dessa linguagem acabaram por desestabilizar a ordem de algum modo.

A produção de Camila Soato, uma das finalistas do Prêmio PIPA 2013, segue por essa trilha de desestabilização da ordem. É certo que, tendo em mente essa mesma história da arte, cabe nos perguntarmos o que hoje ainda pode ser considerado uma inconveniência no campo da pintura. A artista brasiliense investe na fuleragem como estratégia estética.
Segundo ela mesma conta, sua primeira ação artística se deu em torno dos 8 ou 9 anos, quando saiu da casa da avó, em Planaltina de Goiás, levando uma bicicleta e retornou, depois de um dia inteiro passado no mercado de trocas, popularmente conhecido como “feira do rolo”, puxando um cavalo – Hermeto – pelo cabresto. Diante da cena, a avó teria gritado: “Que fuleragem é essa?”, ao que Camila respondeu com orgulho: “Troquei a bicicleta pelo pangaré”, e a avó, desaprovando, retrucou: “Num pode descuidar que essa menina faz arte!”. Mais que uma traquinada curiosa, o episódio funciona como um mito que guarda os fundamentos do que hoje se desenrola como processo criativo da artista.
Foi pela vivência com o grupo de pesquisa Corpos Informáticos, do qual participa desde 2009, que Camila encontrou na fuleragem um veio poético. Fuleiro é um termo de caráter jocoso e semanticamente amplo. Assumindo diferentes sentidos, abarca o precário, a gambiarra, aquilo que tem pouco valor, pode se referir a indivíduos em quem não se deve depositar confiança, também a objetos ou mecanismos mal acabados; e fuleragem, por sua vez, para além de se relacionar às situações caracterizadas pelo fuleiro, diz respeito também ao ato sexual em seu aspecto mais vadio, na entrega dos corpos à luxúria mais divertida. Essa provocante noção transformada pelo grupo em argumento artístico instigou Camila, que foi buscar em suas memórias de infância o material fuleiro com o qual articular. Objetos, ações, jogos e brincadeiras aditivados pela tendência à experimentação inconsequente que compõe a personalidade da artista, tudo foi convertido em artifício para o desenvolvimento do seu trabalho.
A composição de suas pinturas começa pela pesquisa de imagens na internet. Em websites de busca, Camila persegue o grotesco e o ridículo lançando palavras, expressões e frases que têm inspiração em ditos populares, gírias, vocabulário vulgar ou piadas. A seleção obedece ao que se ajusta às suas referências de descuido, deslize, perversão, absurdo, grosseiro, e situações em que o indivíduo e suas ações tornam-se motivo de escárnio.
Materializadas por pinceladas empastadas, carregadas de tinta, figuras engraçadas, obscenas e caricatas se encontram em experiências que vão do cômico ao bizarro. Cada tela é parte de um universo em que as convenções normativas estão desvalorizadas e o código moral social suspenso. De um lado, crianças brincam e se esborracham em situações lúdico-constrangedoras que as deixam numa exposição incompatível com o tolerável por uma sociedade em franco combate ao bullying; de outro, a ingenuidade na sua percepção de mundo é salientada quando meninos e meninas brincam cercados por animais que fazem sexo e isso passa despercebido. O sexo dos animais, aliás, acontece entre indivíduos de uma mesma espécie, e entre classes distintas, colocando em xeque nossas noções de pudores. Jovens se reúnem em “bundalelês”, numa exaltação à diversão impulsiva, e adultos são expostos a situações embaraçosas.
E nada disso acontece contando com o aparato de uma contextualização espaço-temporal. Não, não há qualquer narrativa que desvie a atenção: o cenário foi esvaziado e os holofotes se voltam para o flagra da ação desestabilizadora. Entretanto, como quem torce para que o circo pegue fogo, Camila admite erros e eventuais acidentes. Mas o que deve ser entendido como erro numa pintura fuleira que flerta com a noção de precário, de mal acabado? À artista interessa assumir as manchas, os escorridos, as marcas de apagamento e qualquer dispositivo que viabilize a fricção entre o planejado e o acaso.
Com uma produção que se volta para o cômico e o banal, Camila Soato acaba tocando em questões-chave sobre o que se coloca como norma na contemporaneidade pela tensão de noções como adequado e inadequado, ao mesmo tempo em que atualiza a potência provocadora da pintura, no melhor estilo fuleiro.

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