Almeida Júnior e sua morte no fim do mundo

© Cortesia Pinacoteca de São Paulo

A virada dos séculos sempre alimenta a ideia de fim do mundo e o final do século 19 não foi diferente. Um astrônomo austríaco até designou a data precisa, 13 de novembro de 1899, para a hecatombe que resultaria no choque de um cometa com a Terra.

Nesse dia, ao sair da fazenda que o hospedava, o pintor José Ferraz de Almeida Júnior, com 49 anos, ouviu a recomendação de que permanecesse no campo, pois o mundo ia acabar. Sorridente, teria respondido: “Se vou morrer, quero estar na cidade”.

Horas depois, ele era apunhalado inesperadamente e morria nos braços de sua amante, mulher de seu assassino, no largo da Matriz de Piracicaba. É desnecessário dizer que o mundo não acabou; mas a arte perdeu, então, um dos mais representativos precursores do modernismo no Brasil, como apontam os estudiosos. O próprio Portinari lembrava que foi Almeida Júnior e sua temática caipira quem influenciou sua disposição de criar uma pintura nacional.

A tarefa de desvendar as circunstâncias da morte de Almeida Júnior é bastante complexa, o que já não acontece com sua vida de artista, sobre a qual existem muitas informações, inclusive fantasiosas e inverossímeis. Ele nasceu em Itu, aos 8 de maio de 1850 – dia do artista plástico em sua homenagem –, e cresceu como os modernos grafiteiros a desenhar figuras nos muros e paredes da cidade. Estudou na Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro, e depois na École de beaux arts de Paris, tendo participado por quatro anos seguidos das exposições dos salons officiels da França.

De volta ao Brasil, instalou-se em São Paulo, na década de 1880, anos antes da abolição da escravidão e da queda da monarquia, quando o surto do café fazia emergir na região uma aristocracia rural cheia de requintes, cultura e influências europeias. A seguir, ele despontou na arte brasileira com sua pintura regionalista fundada no caipira do interior da província paulista, justamente quem plantava, colhia e ensacava o café, a grande riqueza do Brasil daquele tempo.

Esses aspectos da vida do artista não apresentam maiores novidades. Curiosas são as informações e os dados sobre as circunstâncias de sua morte, que, por quase cem anos, foram ocultas como tabu pelas famílias envolvidas. Muitos fatos chamam a atenção, a começar por Saudade, tela que pintou meses antes de morrer. Retrata uma moça de luto que chora a perda do marido enquanto contempla sua fotografia. A modelo era a mulher com quem Almeida Júnior vivia na época, revelando-se aí, segundo muitos, uma premonição que se congela no retrato da viuvez da própria mulher. Outra de suas últimas pinturas, Partida da monção, também teria viés premonitório no comovente adeus da mulher de um dos bandeirantes que vai se lançar nas incertezas da excursão fluvial.

Há mais detalhes de sua morte que chamam a atenção: por que seu sangue não parava de escorrer em seu velório, embora seu corpo já estivesse frio? Por que sua amante, Maria Laura, pessoa extremamente religiosa, assinava o número da besta – 666 – em suas correspondências ao pintor? Não há dúvidas quanto à paternidade dos dois primeiros e dos dois últimos filhos de Maria Laura; aqueles eram do marido e estes de Almeida Júnior, segundo indicação da própria mãe – mas qual dos dois homens seria o pai do filho do meio, Fausto, com o nome do personagem de Goethe, que fez pacto com o diabo?

Mas não é só: como foi que o casal de amantes, depois de conseguir enganar o marido por cerca de dez anos, acabou deixando que toda a traição viesse à tona com as cartas de amor que caíram nas mãos do traído? Também é curiosa a vida trágica que se abateu sobre os filhos de Maria Laura, a ponto de se repetir em sua descendência, cerca de cinquenta anos depois, outro crime passional: o suposto assassinato da neta Sônia Pereira Mendes pela amante de um cavaleiro da Hípica Paulista.

O desaparecimento do artista só encontra explicações mais razoáveis quando se penetra no campo das emoções humanas. Durante cerca de dez anos, ao mesmo tempo em que mantinha uma união envolvendo Rita de Paula Ybarra, ele foi amante da mulher de seu futuro assassino, Maria Laura do Amaral Gurgel, egressa da aristocracia rural de então. Apaixonado pelas mulheres e pela pintura, a verdadeira história de sua morte foi desenhada e colorida na clandestinidade de amores e romances atormentados. Isso torna até compreensível, sob o aspecto emocional, sua morte de aventureiro – assassinado em praça pública no dia que era para ser o fim do mundo.

Compartilhar: