Sergipano radicado em São Paulo, Alan Adi é um artista que opera uma linguagem poética, mesclando o verbal e o não verbal, mas que, às vezes, utiliza apenas uma só dessas duas formas de expressão. Quando fala do próprio trabalho, realça o conceito de reutilização de objetos do cotidiano: “aglomerar objetos e apropriá-los ao meu gosto, essa foi a chave por muito tempo de meu fazer artístico”. O objetivo é sempre a construção de um poema (vale lembrar que Alan é graduado em Letras). Por isso, ele recorre livremente ao uso de palavras em suas obras, provocando, segundo ele mesmo afirma, “a construção de poemas visuais que uniam as linguagens do verbo e da matéria”. O amadurecimento artístico o levou à conclusão de que muitas vezes basta só uma delas: “já há um tempinho venho pensando melhor, reeducando-me, descobrindo que muitas vezes basta uma coisa ou outra, o que favoreceu uma subjetividade mais sadia às obras”.

Como exemplo de linguagem da matéria, temos seu trabalho em vídeo intitulado Do dia que de fato ajudei meu padrasto (2’15’’ / 2011). Essa criação audiovisual mostra o artista destruindo um banco no qual seu padrasto se encontrava sentado e depois refazendo o pequeno móvel como uma bengala, que, de acordo com o depoimento do artista, é um objeto “de uso necessário para que ocorra o deslocamento daquele senhor, naquele exato momento”. Nesse trabalho, Alan demonstra sua disponibilidade para trabalhar com aquilo que lhe está próximo, sejam objetos ou pessoas, empenhando-se em transmutá-los, em criar “um novo corpo alimentado pela poética mais amadurecida de quem quer dizer algo com aquilo que lhe toca e, consequentemente, tocar alguém”. Assim Alan constrói o olhar poético voltado para transformar objetos e pessoas, num processo de crescimento interno: de si, como artista, e do público como ente participante.

Numa obra em que recorreu à linguagem verbal, num vídeo de 2011, o artista escreveu a palavra SILÊNCIO sobre uma superfície clara, usando água como tinta. A água logo evaporava, e então a palavra precisava ser incessantemente reescrita, numa espécie de versão contemporânea do castigo de Sísifo, personagem da mitologia grega condenado pelos deuses a levar uma pesada pedra ao alto de uma montanha, e precisava começar tudo de novo, porque a pedra rolava encosta abaixo assim que chegava ao topo. Esse vídeo é obra com fortíssima carga poética, uma vez que todo poema consiste, justamente, em fazer uma “escultura” na pedra do silêncio. Obra que remete ao abismo-vertigem experimentado por Malevitch quando o pintor russo chegou ao vazio total da pintura não representativa, à não forma do quadrado negro sobre um fundo branco. Alan Adi chegou à vertigem do silêncio reescrito sem cessar!

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