© Muammer Yanmaz

Como você vê a relação entre arte e política – tema recorrente em diversas Bienais pelo mundo como Berlim, São Paulo e Porto Alegre – na 12a Bienal de Istambul? 

Adriano Pedrosa: A relação entre arte e política tem sido um foco da Bienal de Istambul pelo menos desde a 9ª Bienal, curada por Dan Cameron, em 2003, sob o título de Poetic Justice. Em 2009, com a 11ª Bienal, What keeps mankind alive?, do coletivo curatorial da Croácia WHW (What, How & For Whom), houve uma radicalização do tema, e a bienal tinha uma clara mensagem em defesa do comunismo, com ênfase em formatos documentais, ativismo e práticas sociais. Nossa aproximação toma outro curso que é também complementar às bienais anteriores, e buscamos arte que tenha uma preocupação política mas também estética, formal ou visual. O título da bienal na verdade é Sem titulo (12ª Bienal de Istambul), 2011, que faz referência explícita à estratégia de titulação de obras do Félix González-Torres. Como ele, não acreditamos em uma interpretação unívoca para a arte, e parafraseando o que Félix diz a respeito de seus trabalhos sem título: “The [exhibition] is untitled because meaning is always shifting in time and space” (“A [exposição] é sem título porque o significado está sempre mudando no tempo e no espaço”).

 

Quais os motivos da escolha da obra e vida do artista Félix González-Torres como inspiração para esta bienal?

AP: Félix surge como um exemplo notável de um artista que articula de forma profunda e complexa conteúdos políticos, pessoais e corporais com preocupações formais, estéticas e visuais. Ele é um “fã de questões formais“, em suas próprias palavras. Tanto Jens Hoffmann, meu co-curador, quanto eu curamos várias exposições com seu trabalho no passado, portanto temos uma história pessoal/curatorial de envolvimento com a obra. Cheguei a me corresponder com ele quando primeiro vi sua obra, na Bienal do Whitney de 1991, e em 2006 organizei a presença do artista na 27ª Bienal de São Paulo. Félix participou da Bienal da Rosa Martinez, de 1997, e não está presente nesta edição com obras e sim como inspiração para a pesquisa, embora não seja um pré-requisito, leitura ou conhecimento obrigatório, para se compreender a exposição. A Bienal está ancorada em cinco exposições coletivas (todas tomando trabalhos específicos de Félix como ponto de partida), que estarão reproduzidas no Companion, o livro guia da bienal. Os títulos das exposições são: Untitled (Abstraction), Untitled (Passport), Untitled (History), Untitled (Death by Gun) e Untitled (Ross). Ross foi o parceiro de Félix que morreu de AIDS. É importante também o fato de ele ser um artista cubano-portorriquenho que se estabeleceu nos Estados Unidos, um latino-americano entre o norte e o sul, gay, e que subverte as tradições modernistas da abstração ou do minimalismo com conteúdos urgentes, pessoais, políticos.

 

Como foi o processo de pesquisa e seleção dos artistas para mostra?

AP: Todos os artistas foram selecionados tendo em vista a articulação entre arte e política, com ênfase nos conteúdos estéticos e formais, mas também pensando nos cinco temas que são pontuados pelas cinco exposições coletivas — a partir delas é que se organizam o que chamamos de presenças individuais, artistas com sala próprias. Adotamos uma política de não anunciar os nomes dos artistas antes da abertura para evitar um efeito de branding dos nomes, como se, de algum modo, a lista pudesse representar a exposição que a sucede, e assim não nos submetendo às estratégias tradicionais de marketing de exposições numa era de bienais semanais — há pelo menos uma abrindo a cada semana em cada lugar do planeta. Em Istambul, há uma forte presença de artistas latino-americanos e do Oriente Médio, e portanto temos muitos artistas brasileiros, tanto nas coletivas quanto nas individuais – desde figuras históricas a jovens nascidos nos anos 1980. Artistas criam obras novas, outros dão nova configuração a obras antigas. Esse processo foi sempre em diálogo muito próximo, pois um de nossos principais objetivos foi o de articular com mais precisão e clareza os conteúdos e temas através da justaposição de obras e de salas. Uma importante conexão é a que existe entre os artistas latino-americanos e os do Oriente Médio, como artistas que trabalham às margens da modernidade européia, mas também com alguns artistas do Leste Europeu – por exemplo, o diálogo entre Jonathas de Andrade e a Marwa Arsanios, de Beirute, ou aquele entre a Renata Lucas e a Dora Maurer, de Budapeste.

 

Com freqüência vemos em Istambul a utilização de espaços não-tradicionais, ou seja, não pertencentes a museus e galerias, como lugares para abrigar os trabalhos de uma bienal. A proposta sua e de Jens Hoffmann é um retorno ao cubo branco, próximo ao modelo de museu?

AP: Há muitas bienais que acontecem (parcial ou totalmente) em museus – Documenta no Fridericianum; a Bienal de Sydney no Museu de Arte Contemporânea de Sydney e na Galeria de New South Wales; a Bienal de Lyon no Musée d’art Contemporain de Lyon – mesmo em Berlim no KunstWerke, que não é um museu com uma coleção, mas uma instituição estabelecida com um espaço expositivo apropriado. A Bienal de São Paulo acontece sempre no mesmo pavilhão, mas mesmo lá se construiu um “espaço museológico” a fim de receber certas obras que necessitam de controle de clima. E há casos como a Bienal de Whitney, The Gerational, e o Carnegie International, os dois nos EUA, em que exposições vêm sendo organizada pelos museus – o Whitney Museum, o New Museum, e o Carnegie Museum of Art, respectivamente. Em Istambul, pelo menos desde 2005, a Bienal vem ocupando espaços não tradicionais que não são propriamente de arte na cidade. Isso vemos acontecer em outras bienais, trazendo uma abordagem que pode ser entendida como uma resistência ou crítica ao cubo branco. No entanto, após alguns anos, você vê que a ocupação desses espaços não tradicionais muitas vezes resulta em um visual abandonado, próximo às ruínas urbanas, e começa-se então a construir um estilo em si — uma escola, por exemplo, foi usada como espaço expositivo na Bienal de Berlim em 2006 e em Istambul, em 2009. Em Istambul, o uso desses espaços não tradicionais estava se tornando uma norma, uma regra, uma convenção, e isso se refletia em exposições e projetos pela cidade, além da bienal. Acredito firmemente na diversidade e pluralidade curatoriais, em desafiar a norma, a convenção, e é por esta razão também que nos afastamos das “ruínas urbanas” e construímos um espaço mais preciso, pensado especialmente para abrigar obras de arte. Este ano, a concentração no Antrepo (os armazéns às margens do Bósforo) foi o foco para o agrupamento das obras, e também é oferecido como uma alternativa ao uso dos espaços não tradicionais, às “ruínas urbanas”. Não é que um seja melhor que o outro; simplesmente sentimos que é saudável ter maneiras diferentes de mostrar, contextualizar e promover a arte contemporânea, sempre desafiando a norma, a convenção. Esta edição da bienal tem uma abordagem diferente das passadas, e espero que a próxima tenha uma terceira abordagem. Em Istambul foi muito importante para nós, como curadores, nos concentrarmos na exposição, na seleção de determinadas obras, reunindo-as e justapondo-as em um espaço que foi precisamente planejado para elas. Isso é interessante na Bienal de Istambul: a capacidade de lidar com a arte contemporânea de maneiras muito diferentes, sempre trazendo incontáveis abordagens, perspectivas e modelos que tentam estabelecer um diálogo entre artistas e intelectuais de várias maneiras. Antes de qualquer coisa, uma bienal é uma plataforma aberta e flexível; ela pode assumir um formato diferente e um novo processo a cada edição.

 

Qual a posição da Bienal de Istambul no panorama das bienais hoje?

AP: Com a virada conservadora da Bienal de Veneza, que vem se tornando um festival de espetáculo comercial, mainstream, e eurocêntrico, Istambul vem ganhando o papel de importância como uma bienal que busca verdadeiramente a investigação, dando apoio a propostas curatoriais independentes e singulares, com um histórico extraordinário de exposições e curadores. A Bienal de Rosa Martínez é um marco, mas também é a de Yuko Hasegawa, em 2001, quando Istambul tornou-se a primeira bienal a olhar para fora da Europa e do Ocidente e de seu próprio território para escolher um curador, algo que até hoje Veneza só conseguiu fazer uma vez, e com o norte-americano (Rob Storr, em 2007). Kassel fez uma vez (com o nigeriano Okwui Enwezor, em 2002) e São Paulo, duas (com Alfons Hug, numa espécie de mandato tampão, e agora com o Luiz Peres Oramas, uma escolha de fato pensada). Mas a Bienal de 2005, de Charles Esche e Vasif Kortun, também é radical, como o é a de 2009. No ano passado, Istambul foi a primeira bienal a escolher latino-americanos como curadores, alguns meses depois seguida por Lyon, e pela Manifesta, a bienal itinerante européia, com meus estimados colegas Victoria Noorthoorn e Cuauhtémoc Medina, respectivamente. O fato é que não basta uma ou duas boas edições para se construir uma forte bienal enquanto instituição. É justamente por essa tradição de rupturas e projeto fortes e independentes que Istambul é hoje a bienal mais importante do ponto de visto crítico e investigativo do circuito.

 

Compartilhar: