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DASARTES 22 /

Adriana Varejão

Adriana Varejão fala sobre sua carreira antes de sua exposição individual no MAM de São Paulo.

Fale um pouco de sua trajetória artística.

Comecei a pintar em 1984 e nunca deixei a pintura. Desde o início, usava muita tinta e impregnava a superfície de matéria. Costumava representar organismos que tomava de um manual de biologia. Logo depois encontrei o Barroco, após uma viagem a Ouro Preto. Incorporei o Barroco religioso por meio de pinturas muito espessas e voluptuosas. Costumava usar o próprio tubo de tinta diretamente sobre a tela para construir brocados em relevo.

Paralelamente, interessei-me pela cerâmica chinesa, especialmente a Song. Foi quando apareceram os primeiros craquelados em meu trabalho. No início dos anos 1990, fiz uma longa viagem à China que me inspirou a produzir uma exposição chamada Terra Incógnita, que imaginava um território, de forte contágio cultural, entre Brasil e China. Essa exposição foi muito influenciada pela leitura de Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque.
A partir daí, tomei gosto pela leitura de temas de Antropologia e História e meu trabalho adquiriu uma dimensão mais política. A presença da carne começou nessa época. As pinturas eram como um corpo onde se imprimia a história, ou as histórias. A materialidade passou para trás da superfície. Mais tarde, levei a pintura para o espaço, com as Línguas e com os Charques. Com os Azulejões, levei a pintura para a Arquitetura, onde o espectador tem que “mergulhar”.
Quis retornar ao espaço da tela e às questões mais filosóficas do Barroco nas Saunas. Tudo ali diz respeito à cor, à temperatura. São pinturas silenciosas de forte dimensão psicológica. Mais recentemente, iniciei a série dos grandes pratos inspirados em Bordalo Pinheiro, da escola do incrível ceramista Pallicy. Entre uma coisa e outra, segui experimentando. Nunca paro de experimentar. Nunca engessei meu trabalho numa fórmula.

Qual o perfil da exposição?

Trata-se justamente disso, da diversidade da minha obra ao longo desses anos.

Há algum momento ou fase de sua produção que considere marcante?

Acho todo o início de uma nova série um momento importante, que me excita muito. É como se todo um universo de possibilidades se abrisse em minha frente.

Como você vê sua abordagem da pintura dentro das possibilidades contemporâneas?

Apesar de gostar da ideia de tradição que a pintura traz, meu olhar está longe de ser anacrônico. Por exemplo, raramente consigo utilizar a pintura pura, uso diferentes materiais coadjuvantes, como o alumínio, o poliuretano, o gesso, o epóxi, a resina, na busca de uma exacerbação da materialidade. Às vezes coloco objetos na cena, que servem como suportes para a encenação e carnavalização. É a pintura que está na cena, como protagonista de um teatro. Nesse ponto, minha obra está bem longe da tradição, e do modernismo também, mas também não tem cara de “arte contemporânea”. Definir questões como quais as possibilidades contemporâneas da pintura é um problema para os críticos, não é um problema meu. Eu tento traduzir em algo visível o que me é sensível.

A questão da colonização, tão presente em seus trabalhos passados, ainda lhe interessa?

Um olhar cuidadoso verá que as questões de História do Brasil e questões ligadas à formação da cultura brasileira estiveram e têm estado sempre presentes em minha obra. Essa abordagem sempre me interessou.

Para onde você acha que sua obra está caminhando?

Não faço a menor ideia! Se fizesse, não teria a menor graça. Seria igual a eliminar o acaso da vida. Não quero que minha obra se transforme em algo monótono e previsível. Eu prefiro correr riscos.

Clique aqui e leia mais sobre a contagem regressiva da aguardada exposição individual de Adriana Varejão, no MAM SP.

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