Abraham Palatnik – Pintura dinâmica

© Coleção do artista

A liberdade cromática das pinturas de pacientes de um hospital psiquiátrico causaram uma reviravolta na produção do artista.

Inaugurada em 23 de abril e em cartaz até 14 de julho no Centro Cultural Banco do Brasil (Brasília), a mostra Abraham Palatnik: a reinvenção da pintura reúne cerca de oitenta obras de diferentes etapas da trajetória de um dos mais aclamados artistas brasileiros, reconhecido como um dos pioneiros da arte cinética. A exposição, cuja curadoria é de Felipe Scovino, pretende, por meio de seu caráter antológico, oferecer ao público as diferentes abordagens do artista frente a problemas como a cor, a forma, o movimento, o espaço, o processo artístico, indicando exemplarmente elementos de algumas das transformações decisivas da arte no Brasil e no exterior desde o pós-Guerra.

A trajetória de Palatnik é extensa. Iniciada no final dos anos 1940, com pinturas nas quais predominavam características derivadas da Escola de Paris, ela sofre cedo uma reviravolta, após o impacto causado nele por pinturas de pacientes internados no Hospital Psiquiátrico Pedro II (que na época implantava o ateliê da Dr.ª Nise da Silveira, origem do Museu de Imagens do Inconsiente, no Rio de Janeiro). Como o próprio artista relata, parecia-lhe difícil, diante de tamanha força visual daquelas pinturas, seguir o caminho que vinha traçando, e não só a questão do gestual lhe impressionara, mas também a liberdade cromática ali sentida, na qual suas obras até então não conseguiram alcançar. Se isso repercute imediatamente na sua decisão de mudar o rumo de suas obras, um dos sinais mais evidentes era o de repensar toda uma disciplina da cor, o que, por extensão, se traduz em trabalhos imediatamente posteriores, como os cinecromáticos (caixas com lâmpadas e mecanismos que produzem um balé de luzes graças ao seu movimento e interação de cores) e nos primeiros objetos cinéticos.

A surpresa causada pelos cinecromáticos na primeira Bienal de São Paulo (1951) resultou em uma menção honrosa, decidida pelo júri mediante a indecisão sobre a categoria a que eles poderiam ser associados, por escaparem dos limites da pintura e da escultura. Ainda hoje historiadores, curadores e críticos aproximam-lhes a uma ou outra, conforme o contexto (o mesmo valendo para os objetos cinéticos). Se no caso dos cinecromáticos a frontalidade da peça talvez o avizinhe da pintura, os objetos cinéticos, por sua vez, com suas inúmeras figuras geométricas pintadas movidas a partir de motores e/ou magnetismo, dada sua presença mais pronunciada no espaço faria o mesmo em relação à escultura. A questão de fato interessa-nos mais pela constatação de que, seja a qual categoria se queira vincular, as obras de Palatnik indicam uma transformação marcante sobre elas. Os objetos cinéticos assinalam um deslocamento significativo comparado a experiências da época, como, por exemplo, os móbiles de Calder (e até mesmo seu fabuloso Circo), pois, para além do mecanismo de movimento – em Palatnik, ele tem origem própria enquanto em Calder havia uma dependência de forças ou ações externas – em Palatnik, ele se relaciona implicitamente a uma intensidade qualitativa da cor e sua interação. Com isso, o movimento vai além da quebra da estática do quadro ou da escultura, e enfatiza uma experimentação da relação entre cor e espaço. Seja no caso dos cinecromáticos ou dos objetos cinéticos, ambos, na questão da cor e da construção das obras, falam de uma pintura depois do pincel e de uma escultura depois do cinzel, e como bem apontou o curador da mostra, Palatnik “pinta com parafusos e porcas”.

Pensada no contexto brasileiro, a obra de Palatnik guarda a interessante particularidade de se produzir simultaneamente às diferentes pesquisas da arte abstrata ao longo dos anos 1950, seguindo, contudo um caráter independente. Tomando o exemplo que aparentemente pareceria mais próximo, que era o das linguagens construtivas (seja em virtude da espacialização da cor, seja pela eventual assimilação de questões ou procedimentos tecnológicos), o artista não se vinculou a qualquer programa determinado, e sua postura acerca da arte manteve-se mais como um desdobramento – ainda que marcado pelo corte mencionado – daquilo que vinha perseguindo. Isso vale para seu método de trabalho, que incorpora técnicas da engenharia e das ciências, porém, mantendo o privilégio reservado às sensações estética. E, caso apelemos para um caráter mais anedótico, sua convivência com artistas tão diferentes como Almir Mavignier e Flavio Shiró demonstra que seu enfoque se concentrava nos desafios da arte, não necessariamente a atrelando a agendas mais amplas, como se fazia premente ao concretismo.

Palatnik é um artista amplo. Além de ter produzido móveis, brinquedos e ter inventado um jogo, no campo da arte seus interesses transitam livremente por variados caminhos. Suas pinturas, que podem ser feitas com finas tiras de cor ou laminados de madeira, além de uma fascinante minúcia, igualmente convocam o olhar do espectador para formas que pela sua organização, apesar de estáticas, sugerem movimento ótico. Afora isso, ele continuamente incorpora novas técnicas em seu métier, como foram outrora o jateamento de vidro e mais recentemente o recorte à laser. Ainda assim, vale repetir que a técnica, abre-se o leque de possibilidades, segue em favor da criação artística, ou seja, não se reduz a um elogio da técnica pela técnica. E, preservando algo muito caro à pintura, valoriza a multiplicidade de pontos de vista, isto é, desde o fascínio causado pela percepção da imagem em recuo à surpresa de seus detalhes quando olhados de perto.

A exposição, que conta ainda com uma remontagem do ateliê do artista, que aos 86 anos segue em plena atividade, apresenta um de seus trabalhos recentes ainda em execução, um grande “painel” cinético sobre o qual Palatnik se debruça há alguns anos e que já se anuncia como sua próxima obra-prima.

CONVERSA COM FELIPE SCOVINO

Curador da exposição de Abraham Palatnik no CCBB Brasília, Felipe Scovino falou com a Dasartes.

Como é abordar a vasta produção de Palatnik e elaborar um sentido que a amarre? Em outras palavras, que chaves a curadoria propôs na mostra?
A proposta central da curadoria é abordar uma situação limite na obra do artista. Propor ao espectador que ele está diante de um pintor sem anular a ideia da escultura, principalmente nos casos dos Aparelhos Cinecromáticos e dos Objetos Cinéticos. Limite, portanto, aqui entendido como uma linha tênue entre esses dois suportes. Outra circunstância que a curadoria expôs é a passagem do cinetismo– os objetos que se movem por circuitos próprios e independentes da ação do espectador – a uma participação virtual, na qual o corpo do sujeito é um elemento fundamental para se perceber as distintas qualidades cromáticas, cinéticas e, por conseguinte, físicas que a obra promove. Penso que Palatnik se distingue – e daí uma de suas maiores qualidades – da tradição da op art europeia, pela forma como constrói suas obras: é sempre pelo prisma da artesania, de uma articulação que tem o dado intuitivo como ligação entre a arte e a tecnologia. Sua “tecnologia” é composta de barbantes, lâmpadas, parafusos, objetos mecânicos construídos por ele mesmo. E, por outro lado, acho bastante curiosaa forma como ele associa cores que, em outros casos, geraria um confronto.

“Palatnik se distingue da tradição da op art europeia pela forma como constrói suas obras: é sempre pelo prisma da artesania, de uma articulação que tem o dado intuitivo como ligação entre a arte e a tecnologia.”

É possível ou cabível indicar peças emblemáticas na mostra? Quais seriam e por quê?
A relação entre arte e design é exposta em uma das salas da exposição. O espectador entra em contato com móveis que o artista produziu nos anos 1950 e 60, quando, junto com o irmão, fundou a fábrica Arte Viva. Por meio dessas mesas e poltronas, observa-se,por exemplo, como o desejo bauhausiano se coloca no Brasil. Pinturas em vidro adornavam esses móveis e as mesmas foram um passo importante para a série seguinte do artista, quando, nos anos 1960, começou a utilizar o jacarandá como meio de produção para a pintura. Outro destaque são os Objetos Cinéticos – os mais antigos foram até objeto de nostalgia para o artista quando ele os reviu na abertura da exposição – e os Cinecromáticos que, parafraseando Mário Pedrosa, são a forma de Palatnik pintar com a luz.

Palatnik é um artista que ocupa um lugar de destaque tanto na modernidade quanto na arte contemporânea. Como se pode pensar tal situação única hoje?

Uma curiosidade na trajetória de Palatnik é que, embora estivesse no seio da discussão sobre a chegada e, anos mais tarde, a maturidade da abstração geométrica (inclusive participando do Grupo Frente), ele sempre quis se manter à margem de qualquer manifesto ou participação mais “política”. Ele, Mavignier, Rubem Ludolf, entre outros, foram artistas que trilharam um caminho importante para a arte brasileira, em particular suas aproximações com a op art e o design, mas que ainda merecem um estudo mais qualificado sobre as contribuições que ainda continuam realizando, no caso dos dois primeiros. Por exemplo, em 1949, já existia um estudo para o Aparelho Cinecromático. Mary Vieira está realizando os seus Polivolumes, e a Bienal de São Paulo ainda nem existia. A historiografia da arte brasileira ainda deve a esses – e muitos outros – artistas, mas penso além disso: Palatnik não foi apenas importante para a produção nacional:ocupa um lugar de destaque no cenário internacional e, como os artistas sul-americanos, em particular brasileiros, argentinos e venezuelanos, construíram uma produção de arte cinética tão qualitativa quanto o GRAV, na França.

WAGNER BARJA SOBRE EXPOSIÇÃO DO CCBB

ABRAHAM PALATINIK: A REINVENÇÃO DA PINTURA
Dentro da galeria do Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) em Brasília, algo se move lentamente, ao contrário do frenético ritmo da cidade. É a plástica sempre inovadora de Abraham Palatinik.

Pioneiro da arte cinética brasileira, Abraham Palatinik destacou-se na 1.ª Bienal de São Paulo, em 1951, quando a obra Objeto Cinético foi premiada. Em sua obra, cujo prazo de validade não vence, o movimento que agita as cores e formas poético/abstratas e tridimensionais projeta as sombras dessas elaboradas articulações eletromecânicas, causando ainda mais elementos à mostra.

A antiga presença de Palatinik no ambiente da plástica, curiosamente, ainda se torna uma novidade dada a pertencer àquela tendência que veio desde o Futurismo, do Construtivismo e do Concretismo, “esquentar a chapa” do movimento geométrico abstrato no mundo das artes: o movimento, palavra que gera conceitos que sempre trazem a surpresa para dentro da obra desse artista.
Já naquela época da Bienal, a obra de Palatinik formava sua atualíssima linguagem num conjunto estético harmonioso, com ritmo, num compasso lento de vários corações, que aparentam pertencer a um só corpo. Essa calma transmitida pela mobilidade lenta de suas construções soa como um mantra em todo contexto de peças exibido nessa retrospectiva, reunindo várias fases da sólida carreira desse que é também um dos precursores em abordar no campo plástico o binômio arte e ciência.

Objetos Móbiles Eletromecânicos
Palatinik é um experimentalista nato, sua complexa obra não descarta a ousadia, nem a ironia. Dada à generosa beleza de seus objetos animados, as obras produzem, em sinfonia, um matiz primordial, a do conceito do lúdico.
Na obra fica bem claro o desejo latente de um mergulho no mundo subjetivo e da criação plástica moderna, que espera e pulsa no campo cinético, nas formas geradoras de abstratas geometrias. Apesar de eletromecânicas, toda coleção antecipa a dominante virtualidade dessas formas ágeis, na linguagem hegemônica da cultura digital contemporânea.
A Pintura e os Relevos
Recorrente em muitas obras da sua metódica e rigorosa pintura e, de seus sofisticados alto e baixo relevos em cartão, montagens de extremada precisão e delicadeza na confecção artesanal. Essa coleção de cartões-relevo presentes na mostra trazem à noção do espectador o domínio total que o artista exerce sobre matérias-primas que escolhe e do partido artesanal que tira delas com presteza. Os cartões são um ponto alto da exposição e revelam a obsessão do artista em sua busca do movimento cinético/estático, tanto na pintura bidimensional quanto nesses relevos que se referem à fuga do plano pela superposição da montagem tridimensional de precioso desenho.
As pesquisas de Abraham Palatinik abrangeram a teoria da Gestalt. Acrescentaram às composições do artista a promoção de um turbilhão visual, que energiza o olho e traz ao ambiente que abriga sua obra uma movimentação geral que parte do todo para os singelos detalhes.

Aparelho Cinecromático
A transposição da linguagem da pintura, caracterizada no título da exposição como sua reinvenção, vem por meio das formas e das cores para o meio cinético, o que exigiu de Palatinik extremadas investigações relacionadas ao movimento por mecanismos de fontes elétricas. Numa sala especial com obras alusivas à pintura obtidas por meios cinéticos, montadas em caixas de luz, dão a compreender seu processo interno de construção e do que seria uma pintura sem a paleta de cores e o suporte tradicional.
O artista exibe a anatomia dessas obras cinéticas trazendo-as ao entendimento do público, ao abrir o interior das caixas, para que se visualize a articulação interna do movimento mecânico de espátulas presas por eixos mecanizados à frente de várias lâmpadas coloridas.
As composições do artista estiveram sempre à frente de seu tempo. Sua longa trajetória representa uma tendência ainda atual, mas pouquíssimo desenvolvida nas artes contemporânea, hoje recorrentes às facilidades de efeitos computacionais, fartamente utilizados para traduzir o movimento, que há tempos o mestre Abraham Palatinik já incorporou ao seu trabalho com tecnologias do saber tradicional.
Compasso lento de vários corações, que aparentam pertencer a um só corpo. Essa calma transmitida pela mobilidade lenta de suas construções soa como um mantra em todo o contexto de peças exibido nessa retrospectiva, reunindo várias fases da sólida carreira desse que é também um dos precursores em abordar no campo plástico binômio: arte e ciência.
Outro aspecto interessante apontado pela rigorosa e correta curadoria de Felipe Scovino, rebatido na montagem da exposição, são os projetos e as anotações do artista, postos numa vitrine em frente a um painel fotográfico, que registra o ateliê e a oficina de mecânica de Palatinik. Esses elementos associam as propostas construtivas do artista/operário à rica e diversificada iconografia de sua coleção de objetos de arte popular, misturados no ambiente de trabalho, às formas puras e abstratas de suas composições. Essa mistura ressalta o quanto é próximo e importante para o artista o fazer artesanal nas formas genuínas de expressões populares.

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