© A Piscina, 1952

Reza a lenda que, em um dia ensolarado da década de 1950, o grande artista francês Henri Matisse (1869-1954) pediu a uma de suas assistentes para levá-lo à praia em Cannes, porque queria ver mergulhadores. Chegando lá, não aguentou o forte calor, e quis logo voltar para casa, para que pudesse “criar a própria piscina”.
O trabalho A Piscina (1952) é um dos destaques da exposição Cut-outs que reúne cem colagens de Matisse, no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA). A obra, formada por nadadores, peixes e criaturas marinhas, todos em tom azul, cor predileta do artista no final da vida, costumava ficar pendurada na sala da casa dele. Agora ela ocupa três paredes de uma das salas do museu. O MoMA a adquiriu em 1975, mas há 20 anos ela estava guardada no acervo, e foi preciso cinco anos para ser restaurada antes de ser novamente exposta ao público. A curadora Samantha Friedman conta que A Piscina foi montada na mesma altura da cabeça de Matisse, e também pendurada com alfinetes para não perder a essência do original, que dava a sensação escultural de tridimensionalidade. A exposição veio da Tate Modern, onde recebeu mais de 500 mil visitantes, uma das maiores bilheterias na história do museu londrino.

Expoente na arte modernista junto a Pablo Picasso e Marcel Duchamp, Henri Matisse resolveu se reinventar nos últimos anos de vida, depois de passar por uma grave cirurgia no intestino em decorrência de um câncer. Mesmo fraco e debilitado, foi brilhante na criatividade com a nova criação, e seus trabalhos ganharam um reconhecimento quase sem igual a qualquer outro grande artista no final da vida.

“Pintar com tesouras”, assim definiu Matisse sobre sua nova forma de criar. Em vez de pincel e tela, ele passou a usar tesoura e papel para criar formas figurativas e abstratas dos mais diversos tamanhos. Sem abandonar os traços e a paixão pelas cores. Para trabalhar, recebia a ajuda de suas assistentes, todas mulheres. “Elas pintavam os papéis a partir de uma variedade de tons de guache pré-selecionados por ele. Depois de secos, os papéis eram escolhidos a dedo pelo artista, conforme a inspiração”, conta Samantha.
Logo no começo do período das colagens, início da década de 1940, Matisse costumava fazer pequenos recortes e ilustrações para livros e revistas. Os temas favoritos já eram dança, circo, folhas e pássaros. Com a redução na mobilidade, depois de alguns anos, o artista começou a pedir às assistentes para que as obras fossem pregadas com alfinetes nas paredes de sua casa, para que ele pudesse decidir a combinação das formas. E daí nasceram as obras monumentais, como A Piscina, O Periquito e A Sereia, e Grande Composição com Máscaras. “Matisse queria levar o mundo externo para dentro de seu estúdio, ele queria poder sentir que andava pelo próprio jardim ou piscina”, conta a curadora.

Como em qualquer projeto inovador de um artista de tamanho reconhecimento, houve resistência. As pessoas achavam que era uma brincadeira de criança ou uma distração de um velho doente. “Na época, as colagens foram vistas como algo muito simplista. As pessoas não perceberam a inovação radical desses trabalhos, e nem como as escolhas de cores e composição eram complexas”, comenta a curadora. Samantha acrescenta que há alguns mitos sobre os recortes de Matisse. “Ele usava diferentes técnicas para cortar. Em alguns momentos, ele desliza suavemente, mas às vezes o papel é tão grande que as assistentes têm que segurar as pontas para direcioná-lo. Outras vezes, vemos alguns talhes e, quando olhamos as obras bem de perto, percebemos que ele muda de ideia, volta… Então nem sempre é aquele corte suave que imaginamos”. Conseguimos ter uma ideia da forma dele trabalhar por meio de um vídeo precioso cedido pela Cinemateca Francesa para ser exibido na exposição. Nele, ao longo de alguns minutos, percebe-se o foco e a dedicação do artista ao trabalho, mesmo debilitado e em uma cadeira de rodas.

Ao longo de sua longa carreira, o artista sempre imaginou o corpo feminino nu. No período das colagens, uma das mais emblemáticas é Nu Azul IV, e no MoMA ela está junto a outras variações do mesmo tema, todas em azul. Essa obra também foi escolhida para o catálogo da exposição e teria sido uma das obras mais difíceis no final de sua vida. “Se olharmos de perto, ela é composta por uma quantidade enorme de pequenos pedaços de papel… as assistentes mencionam que os seus dedos doíam”, conta a curadora. Segundo ela, devido à tamanha dificuldade, Matisse teria deixado a obra de lado, e feito desenhos para estudar a forma. Depois de algumas tentativas, criou outros três nus azuis com formas mais harmoniosas, para então terminar a bela Nu Azul IV.

Apesar de não ser religioso, Matisse recebeu um pedido de uma freira, que já havia sido sua modelo, para desenhar os vitrais da Capela do Rosário, em Vence, no sul da França, onde morou nos últimos anos de sua vida. No MoMA, vemos três estudos desse trabalho, e também uma vestimenta para padre e desenhos para os azulejos da capela. Samantha conta que no início houve muita resistência entre outras freiras, pelo trabalho não ser um tipo de arte sacra a que estavam acostumadas, mas que depois a beleza no colorido encantou a todas. O conjunto da obra para a capela durou cerca de quatro anos. O processo de criação do artista costumava ser lento, ele gostava de experimentar e refazer diversas vezes.
Conhecer o conjunto das colagens de Henri Matisse – e poder ver a maior retrospectiva até hoje do modernista – é uma oportunidade. É desfrutar de um momento de prazer diante da beleza das cores vivas, que parecem saltar aos nossos olhos. E é também estimulante ver o exemplo de determinação que Henri Matisse deixou para todos nós.

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