A recepção da arte brasileira

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No final dos anos 1970, o artista Antonio Dias escreveu um artigo até hoje célebre, “Arte brasileira não existe”. Ele se alinhava à visão crítica de inúmeros artistas contrários à ideia ainda predominante da arte brasileira como a apresentação de imagens eivadas de reminiscências exóticas e nacionalistas, reproduzindo indefinidamente lugares-comuns derivados de interpretações ambíguas do modernismo. De fato, havia desde os anos 1950 (no mínimo) a construção de uma outra história da arte brasileira que se distanciava da produção de cenas “típicas” para indagar qual o seu lugar em um panorama internacional ou que discutia sua condição a partir de dados efetivos que a cercavam (por exemplo, o que significava ser um artista aqui e a qual tipo de sistema ele fazia parte).

Nos últimos quarenta anos, várias discussões e revisões têm sido feitas ponderando tabus, rupturas, alternativas e novos cenários. Se tal movimentação até pouco ainda vivia quase restrita à tarefa de autoanálise, a recepção internacional dedicada à arte brasileira nas duas últimas décadas acena outros olhares e indagações. Não se trata de fabricarmos uma espécie de apoteose ufanista calcada no sentimento de aclamação, mas de avaliarmos quais espaços têm sido conquistados tanto por nossa produção atual quanto pelo reencontro com nossa história.

Do apelo meramente “curioso” antes despertado, tratado como uma espécie de degeneração improvisada e periférica dos grandes movimentos para a discussão de um pensamento capaz de articular demandas próprias (em parte percebidas graças às abordagens pós-colonialistas delineadas desde o fim dos anos 1980), foi necessária muita tinta e certamente algumas tendinites. Ainda é. Um dos desafios em jogo é precisamente se posicionar entre a tentação ainda reincidente de ser, valendo-nos da expressão de Milton Machado, “exoticado”, confrontar recalques e investigar com que outras perspectivas nos defrontamos.

Nosso enfoque neste dossiê, ao abordar a recepção atual da arte brasileira (dedicando também atenção à sua presença internacional), corresponde a um tema manifesto em bienais e outras mostras ao longo dos anos 1990 e 2000. De um modo ou de outro, ele tem aparecido em diversos artigos publicados em Dasartes desde seu primeiro número, motivando-nos a apresentar agora ao leitor um painel mais elaborado e focado no assunto. Ao levarmos em consideração a presença de artistas brasileiros em grandes coleções, mostras antológicas, publicações, estudos e no mercado, vemo-nos na tarefa de refletir que momento é este no qual coexistem novas abordagens junto àquela outra, feita por um dos mais renomados grupos de intelectuais pós-modernos, que no emblemático livro Art since 1900 inseriram a única referência a um artista brasileiro no capítulo “Arte não ocidental”. Em suma, que mapa da arte está sendo cartografado e como desejamos ocupá-lo.

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