A quem pertencem as obras confiscadas na 2ª Guerra?

© Cortesia Galeria Belvedere

A obra Portrait of a Collector (“Retrato de um Colecionador”) (1924), de Max Pinselstrich, é o item mais precioso da coleção do Museu de Arte de Wolterberg. Recentemente, entretanto, surgiram novas informações sobre sua história: seu dono foi forçado a vendê-la para escapar do Holocausto. Agora, quase setenta anos depois, a possibilidade de restituição está sendo considerada. A neta do proprietário, o filho do marchand responsável pela venda, o diretor do Museu de Wolterberg e o chefe regional do departamento de cultura estão envolvidos em uma trama jurídica, ética e política. O que será que vai acontecer?

Não perca tempo buscando-os no Google: todos são personagens animados de um jogo criado pelo Museu Judaico de Berlim para a exposição Looting and Restitution (“Saque e Restituição”), encerrada no início de agosto.

O jogo, que está disponível na página do museu na Internet, é uma tentativa de conferir um toque humano a uma questão extremamente relevante: a restituição de obras de arte saqueadas durante a Segunda Guerra Mundial. O tema foi relembrado depois que Norman Rosenthal, ex-secretário de exposições da Academia de Artes Real de Londres, fez um apelo na publicação Art Newspaper em dezembro passado, clamando pelo fim da restituição. Na visão de Rosenthal, os malfeitores não são os nazistas nem os ladrões, mas sim os netos e bisnetos das vítimas do Holocausto, que tentam reaver as obras de arte saqueadas que agora pertencem aos museus. O eco foi ouvido em todo o mundo. O assunto foi coberto por meios de comunicação de continentes tão distantes quanto a África, a América do Sul e a Nova Zelândia – principalmente porque, conforme observado em todos os artigos, o próprio Rosenthal perdeu alguns parentes no Holocausto. O fato de um filho de refugiados alemães se declarar a favor da expiração da perda do direito de restituição – criticando as forças de mercado e os advogados que trabalham para retirar as imagens do domínio público – serviu para validar alguns aspectos do debate. “No contexto atual do mundo da arte, nada é mais absurdo e destrutivo”, declarou Jonathan Jones ao The Guardian, “do que a verdadeira ‘espoliação’ sofrida pelos museus e praticada por herdeiros que, de repente, descobriram-se proprietários de pinturas que valem milhões de libras”.

Ao colocar a integridade das coleções públicas acima de qualquer outra consideração, esses críticos ignoram algumas verdades inconvenientes sobre as obras subtraídas durante o Holocausto. Além de o saque de bens culturais ser uma parte do objetivo primordial dos nazistas ao exterminar todo um povo, as pesquisas sobre restituição ainda não foram concluídas. Os esforços iniciais para levantar o histórico de obras supostamente “sem herdeiros” – semelhantes às tentativas de identificar os proprietários de contas nos bancos suíços – vieram acompanhados de algumas perturbações, obscurecimentos e obstáculos legais. Somente agora alguns arquivos fechados estão sendo abertos, e alguns governos europeus estão dispostos a investigar a procedência das obras integrantes das coleções nacionais. Isso já resultou em uma série de novas informações sobre as obras saqueadas.

“Uma exposição como a de Berlim não teria sido possível até poucos anos atrás”, declarou a curadora Inka Bertz, e os objetos cedidos sob coação em vendas forçadas – como a pintura fictícia Pinselstrich – não foram anteriormente considerados obras saqueadas e, portanto, não foram incluídos nos primeiros esforços de pesquisa e prática da restituição.

Depois do artigo de Rosenthal, a Secretaria de Cultura, Mídia e Esporte da Grã-Bretanha e o Ministério da Cultura da Alemanha rapidamente declararam que não planejam determinar prazos para a restituição, após o anulamento dos prazos de 2002 e 2006. Mas o diretor da Tate Gallery, Nicholas Serota, presidente do grupo de trabalho sobre espoliação da Conferência Nacional de Diretores de Museu, foi mais prudente: “A intensa discussão que existe hoje sobre a espoliação começou somente nos últimos dez anos, desde a Conferência sobre os Bens da Era do Holocausto realizada em Washington, em 1998”, declarou ao London’s Independent. E acrescentou: “Eu acho que é cedo demais para impor uma moratória, mas, no futuro, talvez seja apropriado”.

Que tal se ele visitasse a página eletrônica do Museu de Berlim para uma partida?

Robin Cembalest é editor executivo do ArtNews.

Notas da Redação:

• Um dos casos mais notórios de reapropriação é o do Retrato de Adele Bloch-Bauer (1907), de Gustav Klimt. A tela foi removida do Museu Belvedere de Vienna quando a sobrinha e herdeira de Bloch-Bauer, Maria Altmann, venceu uma disputa nos tribunais contra o governo austríaco exigindo sua restituição. Um ano depois da devolução, o retrato tornou-se a obra de arte mais cara da história, sendo vendida a um colecionador particular por US$ 135 milhões. Contrariamente ao desejo expresso por Adele em seu testamento, que pedia que seu marido Ferdinand doasse as obras de Klimt ao Belvedere quando ele morresse, ele fugiu da Áustria abandonando-as para serem confiscadas e, em seu testamento, deixou seus bens para os herdeiros, incluindo o fruto de restituições futuras.

• Para os que acham que não têm nada a ver com esta história, Hector Feliciano, autor do livro O Museu Desaparecido (Dom Quixote, 2007), esclarece que as obras saqueadas podem estar em qualquer lugar do mundo, até no Brasil, eventualmente sem que seus donos saibam de sua procedência. “Muitos refugiados e coleções foram para a América através da Espanha e de Portugal e grandes colecionadores como Gilberto Chateaubriand compravam arte em Portugal no início dos anos 1940.”

Compartilhar: