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DASARTES 28 /

A primeira missa no Brasil

Em exposição no Museu Nacional de Belas Artes, duas importantes pinturas manifestam interpretações contrastantes sobre o mesmo fato histórico.

Duas exposições distintas em contraponto no MNBA

Em exposição no Museu Nacional de Belas Artes, duas telas: A primeira missa no Brasil. Os autores, nossos pintores Vítor Meireles e Cândido Portinari. Ambas fazem parte da Mostra Quando o Brasil amanhecia, com curadoria de Pedro Xexéo, que reúne também fotografias, desenhos e vídeo. O poético nome da exposição, tomado de empréstimo ao livro de mesmo título do historiador pernambucano Alberto Rangel (1871-1945), indica, de saída, em que ambiente os quadros se apresentam, quer dizer, na arte, quando e como se pensam marcos de origem do Brasil.

O eixo central da exposição gira em torno da relação entre as telas de Vítor Meireles e Cândido Portinari, colocadas em paredes opostas na grande sala Bernardelli, posicionando-se em embate. Em geral, a crítica de arte articula seus sujeitos de modo que eles disputem, para daí elaborar falas, discursos e contextos e promover encontros. Por isso, convém destacar que a aproximação entre os dois trabalhos foi feita, pela primeira vez, pelo crítico Mário Pedrosa em texto para o Jornal do Brasil, em 1957, intitulado Hoje, primeira missa. O artigo promove, por assim dizer, a constituição da nossa pintura já no regime da história da arte no qual reside a validação do seu sistema. O relato de Pedrosa a respeito dessa tela de Portinari deixa revelar o contorno engajado das primeiras décadas do moderno século 20, no qual a crítica seria primeiramente construção de sensibilidades.

As imagens dos quadros são históricas e acentuam a vocação da construção de nação em épocas e regimes distintos. A edificação de tal empreitada não se resume a costurar fatos e eventos históricos com a precisão e assepsia do pesquisador positivista. Em pintura, a narrativa histórica pode estabelecer o jogo entre a redução ao evento e a monumentalidade do acontecimento. Não seria por menos a adesão de tal temática – ofício da primeira missa em solo imaculado – para a invenção de Brasis.

O Brasil, na paleta de Vítor Meireles, é romântico, evidentemente. E o Romantismo vivido entre nós destinou-se, em parte, a idealizar a emergente nação. Pintada entre os anos de 1858 e 1860, durante a estada do pintor em Paris, a Missa de Meireles rescende à vida acadêmica brasileira. A temática histórica promove a imagem do país de D. Pedro II, celebrada como memória e identidade, homologada na arte pelo academicismo.

Para além da veracidade testemunhal do evento, a pintura de Vítor Meireles reflete todos os aspectos vividos à época da Academia Imperial de Belas Artes. Dos prêmios de viagem à exposição desse quadro no Salão de 1861, em Paris. Talento investido por seus professores, o pintor Vítor Meireles recebe encomendas dos eventos e dos fatos que validam o termo nacional.
Portinari, adepto das temáticas sociais, realiza o painel A primeira missa no Brasil, em 1948, a pedido, para decorar a sobreloja do prédio do Banco Boavista, obra do arquiteto Oscar Niemeyer. Coincide com a tela de Meireles, a invenção do momento histórico. O país, recém-saído do Estado Novo de Getúlio Vargas, orientava-se para a conquista da espacialidade moderna correlata à modernização política e estatal.

O imaginário de Vítor Meireles reflete o episódio narrado no texto inaugural de nossa literatura: a Carta de Pero Vaz de Caminha. E, do destino literário, escapa, certamente, para se tornar um problema de pintura. O espaço moderno desejado por Portinari parece sempre esbarrar em reducionismos temáticos. Portinari apresenta algumas contradições, pois a adesão dele ao Partido Comunista colidiu com sua temática realista quando esta estava a serviço do governo para legitimação de seu discurso modernizante. Polêmica à parte, a grande tela do pintor revela a potência do fato histórico matizado de moderno, quer dizer, pintá-la é pintar o que já podem ser arte e problema brasileiros.

O ganho com essa mostra vai além das possíveis relações críticas entre as duas telas. Por ela, pode-se entrever esboçada a política de aquisição de acervos. O Museu Nacional de Belas Artes abriga a tela de Portinari, comprada pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), que permaneceu por muitos anos longe da visitação do público. Tal empenho merece destaque, pois, dentre os destinos da nossa cultura, pouco se evidencia uma delineada política patrimonial. Fica então a dica: das imagens possíveis do Brasil, a aquisição de uma obra de arte representativa, que se justifica no enlaçamento da história, da arte e das instituições, talvez seja a mais impactante.

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