A paisagem íntima de Rodrigo Braga

Em 2010, depois de ganhar o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia, da Funarte/MinC, Rodrigo Braga resolveu fazer finalmente seu caminho de volta. Arrumou as malas e foi se “embrenhar” pelos matos, numa viagem que durou cinco meses, entre idas e vindas, até 2011. O “mato” que escolheu adentrar não era qualquer um. Era simplesmente a floresta amazônica, um útero não registrado em sua memória consciente, mas muito bem gravado no imaginário que contribuiu para que deslanchasse como um nome forte e bastante expressivo da arte contemporânea brasileira.

Rodrigo é manauara de nascença, mas aos dois anos foi morar no Recife, onde viveu até pouco tempo, antes de se mudar para o Rio de Janeiro. Apesar do curto período na capital amazonense, seus pais biólogos sempre passaram referências, ao longo de sua formação, da época em que lá viveram. . A viagem, já adulto, ao Amazonas representou não só um simbólico retorno à terra-mãe, como talvez um dos momentos mais importantes de um trabalho cuja poética vem se aprofundando desde 2004, quando ele expôs no Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, a obra Fantasia de compensação (na qual “se transforma” em um cão rottweiller).

O resultado dessa imersão em território amazonense vem sendo mostrado aos poucos pelo artista. A exposição individual Ciclos alterados, no Recife, em 2011, e a 30.ª Bienal de São Paulo, em 2012, são exemplos disso, além destas páginas, que trazem algumas imagens inéditas do processo de seu mergulho na região amazônica. Entre suas experiências na floresta, ele narra caminhadas longas e solitárias em um lugar definido por ele como “quase intransponível para o indivíduo”. Em um desses percursos, boiou seu corpo sobre uma canoa semissubmersa no rio de águas negras e repousou, em sua barriga, um peixe vivo, que respira junto com ele. A sequência, filmada por ele, transformou-se em um dos vídeos do conjunto de Tônus, seu trabalho mais recente, exposto na 30.ª Bienal de São Paulo.

Noutros momentos na selva, Rodrigo pendurou sobre uma árvore vários tucunarés mortos, apressando seu encontro com os urubus famintos. Também se perdeu e adentrou pela mata para gritar, por mais de cinco minutos consecutivos, entre as espécies ouvintes da fauna e flora amazonenses. Tal situação gerou outro vídeo, o perturbador Mentira repetida, exibido em sua individual no Mamam (Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães), na capital pernambucana, em 2011, e que também pode ser visto em sua página do Vimeo, na internet.

“A Amazônia é gigantesca, quase infinita. Sentia-me oprimido, reduzido. No Sertão (do Nordeste), eu andava 100, 200 metros e a paisagem mudava. Lá na Amazônia, você anda quilômetros e quilômetros, e a paisagem é a mesma”, relata Rodrigo. “Foi mais difícil produzir como antes, fui mais pela experiência. Então veio a ideia do vídeo do grito, que não tem a ver com um discurso ecológico, como alguns já disseram. Foi muito mais para expor uma angústia, fazer algo acontecer. O grito é uma forma de expandir o corpo naquela imensidão, de fazer crescer para cima e para os lados. Na mata, a gente escuta o tempo inteiro o grito dos animais.”

Essa não foi a primeira vez que Rodrigo propôs se misturar à natureza – (só) aparentemente apartada de nós. Desde Fantasia de compensação, vários trabalhos apontam esse caminho, geralmente nos lembrando, de maneira poética, de nossa condição bicho. As séries de fotografias Alegoria perecível e Da compaixão cínica, de 2005; Comunhão, de 2006; ou Desejo eremita, de 2009, corroboram esse diálogo declarado com o meio. A maior parte delas foi produzida em matos, descampados, caatingas, onde o cenário de isolamento resvala à paisagem íntima do artista, de uma sutileza inquietante. Das situações extremas que vivencia deságuam suas questões mais profundas. Que são também as nossas.

A relação entre Rodrigo e a natureza está longe de ser óbvia. Ao se apropriar de elementos como rabo de animal, cabeça de peixe, chifre, língua, terra, folha seca, fruto, o artista desloca sentidos, apontando-nos situações, a priori, impensáveis ao olhar corriqueiro. Há um realismo quase fantástico em suas cenas que fazem dele não um nome radical, simplesmente, mas um artista da entrega, da imersão, da “vida-morte-vida”, onde as zonas de limite e expansão são seu próprio corpo.

Depois de 12 anos de carreira, que culmina neste fim de ano com a publicação do livro Ciclos alterados, escrito pelo curador Paulo Herkenhoff (o mesmo de sua individual no Recife), Rodrigo diz estar agora em um momento de repensar sua caminhada e traçar novos rumos. Consagrado no campo artístico com o Prêmio de Artes Plásticas Marco Antônio Vilaça e, recentemente, como um dos quatro finalistas ao Pipa (Prêmio Investidor Profissional de Arte), além de outras importantes formas de reconhecimento, o artista pode ficar tranquilo um pouco agora. Como ele mesmo diz, “é um momento de pausa para uma transformação”.

Compartilhar: