© Cortesia Museu Bispo do Rosário

DASARTES 10 /

A moda como nossa tela

Quem nunca confundiu moda com arte?

Todas as artes se comunicam, mas é nas artes plásticas e na moda que as marcas do tempo e as questões da sociedade ficam mais evidentes. Através de tais suportes essas questões são trabalhadas, como uma terapia. A moda, assim como a arte, liberta, quebra padrões. As mudanças de estilo refletem o comportamento das pessoas em relação aos problemas de um determinado momento. Roupas são como telas que representam os anseios e libertam as angústias da sociedade.

Essas ideias foram bem elaboradas pelo arquiteto e artista plástico Flávio de Carvalho, em seu livro A moda e o novo homem. Outras obras dele estão em exposição no MAM-SP até o dia 13 de junho, onde podem ser vistos registros de sua Experiência, performance realizada no ano de 1956, em que o artista passeava pelas ruas de São Paulo vestindo um traje de verão inventado por si mesmo. Carvalho escandalizou a todos que o viram passear vestindo saiote, meias de bailarina, um grande chapéu e calçando sandálias. Ele queria chocar ao mostrar o que as roupas pretendiam esconder: defeitos do corpo e da mente. Para ele, a moda é depreciativa, pois vela as angústias da sociedade e através dela podemos nos libertar dessa inferioridade.

As transformações da moda espelham mudanças na atitude das pessoas. Sua instabilidade revela a instabilidade da sociedade. Através dos estilos, podemos saber quais eram as reflexões em determinado tempo, o que estava se passando. Isso também aparece nos movimentos artísticos porque ambos estão intimamente ligados ao cotidiano. Tanto a arte como a moda buscam uma aproximação com o público, querem estar em volta, abraçar, fazer parte da vida.

Nelson Leirner, que acabou de ter suas Stripencores em exposição na galeria Silvia Cintra + Box 4, no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro, flertou com a moda por esse motivo. Seus vestidos produzidos no carnaval de 1968 para o caderno Suplemento Feminino do jornal O Estado de S. Paulo levam o espectador a ter vontade de brincar com eles. São vestidos longos cujas partes podem ser destacadas ao se puxar os diversos zíperes que os atravessam até que se reduzam a uma minissaia.

A mostra também apresentou, pela primeira vez, os colares do artista. Colecionados ao longo dos últimos 12 anos e trocados anualmente, esses curiosos objetos possuem símbolos de proteção como figa, medalha de São Jorge, uma estrela de Davi, uma cruz cristã e um espelho sendo que cada ano possui sua própria versão com peculiaridades. Trata-se da apropriação do objeto pessoal como obra de arte.

A busca por uma interação maior da arte com o público também sempre foi a intenção de Hélio Oiticica com seus Parangolés, que foram criados para serem usados pelas passistas da Mangueira durante o Carnaval. A transformação acontece ao se vestir a arte. Neste movimento, o corpo se faz obra e transporta para outro mundo. É essa relação mágica que contagia e nos faz querer estar junto, usar. O vestir a arte vem desta vontade de libertação do mundano. A busca de uma forma de representar, fantasiar, trazer a imaginação para a vida. Como diz Flávio de Carvalho, a moda é a reguladora da loucura, assim como a arte. Não há melhor exemplo do que os mantos do Bispo do Rosário, que eram como passaportes para outro mundo. É essa transposição que nos atrai, tanto para a moda como para a arte.

Outra via de aproximação da arte com a moda está em cenários desenvolvidos para desfiles, como é o caso dos que são criados pelo jovem artista Antonio Bokel. Vindo da arte urbana, Antonio já está acostumado a ver seus desenhos pelas ruas. Esta relação está intimamente ligada com sua produção. Foi através da grife Soul Seventy que ele experimentou outra forma de propagar suas mensagens, podendo atingir um público ainda maior. Além das camisetas com estampas de suas ilustrações, ele também fez cenários para os desfiles da marca Blue Man no Fashion Rio.

Muitos estilistas buscam referências em artistas e estilos para criar suas peças. Elsa Schiaparelli (1890-1973) criou o chapéu-sapato inspirado no surrealismo. Ives Saint Laurent desenhou um vestido com um quadro do pintor Piet Mondrian e artistas brasileiros como Gonçalo Ivo e Alfredo Volpi apareceram em estampas de roupas das grifes Rosa Chá e Maria Bonita Extra. É no momento atual de interação entre várias linguagens artísticas que arte e moda se encontram ainda mais conectadas. Para saber o que a sociedade está pensando basta prestar atenção ao seu redor. Não existe melhor suporte para se comunicar do que se vestir com um visual expressivo.

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