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DASARTES 34 /

A grande performance de 1916

Em 1916, Arthur Cravan subiu no ringue com sua performance.

Desde seus primórdios enquanto modalidade esportiva regulada, em finais do século 18, “a nobre arte” do boxe tem sido constante fonte de inspiração para a prática artística. Seja pela identificação com a potência catártica arquetípica (a violência primal “domesticada”), seja pela explosiva plasticidade, bem como pelo escopo de sua dimensão psicológica e mesmo antropológica, o universo das quatro cordas do ringue alimenta o imaginário de artistas, escritores e cineastas há bem mais de um século. Das magníficas pinturas de lutas de George Bellows às citações de Bacon, Basquiat e aos combates-performances de Jack Goldstein, dentre tantas outras referências, são inúmeros os casos que evidenciam essa aproximação.

Há um episódio, no entanto, que segue mais ou menos relegado à margem da historiografia oficial e que considero dos mais peculiares e saborosos envolvendo arte e boxe. Trata-se de um memorável combate do início do século 20, envolvendo um artista e um ex-campeão mundial. Em 23 abril de 1916, Jack Johnson – campeão dos pesos-pesados temporariamente exilado na Europa por conta de problemas legais nos EUA – se viu literalmente confrontado pela arte moderna, por assim dizer. Seu oponente era Arthur Cravan (nascido Fabian Avenarius Lloyd, em 1887), indivíduo peculiar que gabava-se de ser, dentre outras coisas, poeta, crítico de arte, falsário, marinheiro, editor e boxeador nas horas vagas. Seu porte físico era convincente: Cravan (nome que adota aos vinte e poucos anos) tinha dois metros de altura, elegantemente distribuídos por 105 quilos. Autêntico “personagem de si mesmo”, fazia da excentricidade, do absurdo e do ultraje as principais forças a impelirem sua personalidade inquieta. Sua identidade era qualquer uma que decidisse adotar; de certa forma foi o precursor dos procedimentos de reinvenção da própria persona tão comuns a certas celebridades de nossos dias. Vivendo em Paris e mestre na arte da auto-promoção, Cravan é tido também como um pioneiro em práticas dadaístas; não é surpresa que tenha despertado a simpatia e admiração de gente como Duchamp, Breton e Picabia.

Ainda na capital francesa, de modo folclórico e numa inacreditável combinação de situações improváveis, consegue sagrar-se campeão nacional de boxe peso-pesado sem chegar a disputar um único combate, ao melhor estilo dada. Coisas de Cravan. Em 1916, desesperado para ir aos EUA (e evitar uma convocação para o exército francês), ruma para a Espanha, onde empenha-se em conseguir levantar dinheiro para concretizar seus planos transatlânticos. De algum modo consegue engendrar um esquema que viria a gerar a luta com o americano Jack Johnson, sendo a arrecadação parcialmente revertida para os protagonistas. Organiza-se então em Barcelona um “formidável encontro” entre o campeão mundial dos pesos-pesados e um notório e excêntrico cavalheiro inglês anunciado vagamente como “campeão europeu de boxe”. Do controverso combate em si, ao qual consta que Cravan teria comparecido alcoolizado, sabe-se que após seis rounds de uma pálida demonstração de boxe (encenada mais para as câmeras de filmagem de Johnson que para a desapontada plateia), o gigante negro finalmente levou o pugilista-poeta à lona. Nocaute real ou não, o público sentiu o cheiro de farsa, mas antes que as reações estourassem nosso precavido herói já estava embarcado para os EUA – aliás, no mesmo navio que ia León Trotsky.

Para Johnson, teria sido apenas mais um evento caça-níqueis; para Cravan, foi talvez a experiência mais marcante de sua curta, intensa e singular existência. Dois anos e meio mais tarde, aos 31 anos, ele desapareceria no mar em circunstâncias nebulosas, deixando para trás traços esparsos de uma vida fascinante e o legado de uma atitude desafiadora que teve papel marcante no desenvolvimento de uma vanguarda artística que então florescia. Mas acima de tudo, o combate-evento teria sido também o que pode ser considerado em retrospecto como “a performance do século” – de um homem empenhado em fazer da própria vida um permanente work in progress.

 

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