A grande performance de 1916

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Desde seus primórdios enquanto modalidade esportiva regulada, em finais do século 18, “a nobre arte” do boxe tem sido constante fonte de inspiração para a prática artística. Seja pela identificação com a potência catártica arquetípica (a violência primal “domesticada”), seja pela explosiva plasticidade, bem como pelo escopo de sua dimensão psicológica e mesmo antropológica, o universo das quatro cordas do ringue alimenta o imaginário de artistas, escritores e cineastas há bem mais de um século. Das magníficas pinturas de lutas de George Bellows às citações de Bacon, Basquiat e aos combates-performances de Jack Goldstein, dentre tantas outras referências, são inúmeros os casos que evidenciam essa aproximação.

Há um episódio, no entanto, que segue mais ou menos relegado à margem da historiografia oficial e que considero dos mais peculiares e saborosos envolvendo arte e boxe. Trata-se de um memorável combate do início do século 20, envolvendo um artista e um ex-campeão mundial. Em 23 abril de 1916, Jack Johnson – campeão dos pesos-pesados temporariamente exilado na Europa por conta de problemas legais nos EUA – se viu literalmente confrontado pela arte moderna, por assim dizer. Seu oponente era Arthur Cravan (nascido Fabian Avenarius Lloyd, em 1887), indivíduo peculiar que gabava-se de ser, dentre outras coisas, poeta, crítico de arte, falsário, marinheiro, editor e boxeador nas horas vagas. Seu porte físico era convincente: Cravan (nome que adota aos vinte e poucos anos) tinha dois metros de altura, elegantemente distribuídos por 105 quilos. Autêntico “personagem de si mesmo”, fazia da excentricidade, do absurdo e do ultraje as principais forças a impelirem sua personalidade inquieta. Sua identidade era qualquer uma que decidisse adotar; de certa forma foi o precursor dos procedimentos de reinvenção da própria persona tão comuns a certas celebridades de nossos dias. Vivendo em Paris e mestre na arte da auto-promoção, Cravan é tido também como um pioneiro em práticas dadaístas; não é surpresa que tenha despertado a simpatia e admiração de gente como Duchamp, Breton e Picabia.

Ainda na capital francesa, de modo folclórico e numa inacreditável combinação de situações improváveis, consegue sagrar-se campeão nacional de boxe peso-pesado sem chegar a disputar um único combate, ao melhor estilo dada. Coisas de Cravan. Em 1916, desesperado para ir aos EUA (e evitar uma convocação para o exército francês), ruma para a Espanha, onde empenha-se em conseguir levantar dinheiro para concretizar seus planos transatlânticos. De algum modo consegue engendrar um esquema que viria a gerar a luta com o americano Jack Johnson, sendo a arrecadação parcialmente revertida para os protagonistas. Organiza-se então em Barcelona um “formidável encontro” entre o campeão mundial dos pesos-pesados e um notório e excêntrico cavalheiro inglês anunciado vagamente como “campeão europeu de boxe”. Do controverso combate em si, ao qual consta que Cravan teria comparecido alcoolizado, sabe-se que após seis rounds de uma pálida demonstração de boxe (encenada mais para as câmeras de filmagem de Johnson que para a desapontada plateia), o gigante negro finalmente levou o pugilista-poeta à lona. Nocaute real ou não, o público sentiu o cheiro de farsa, mas antes que as reações estourassem nosso precavido herói já estava embarcado para os EUA – aliás, no mesmo navio que ia León Trotsky.

Para Johnson, teria sido apenas mais um evento caça-níqueis; para Cravan, foi talvez a experiência mais marcante de sua curta, intensa e singular existência. Dois anos e meio mais tarde, aos 31 anos, ele desapareceria no mar em circunstâncias nebulosas, deixando para trás traços esparsos de uma vida fascinante e o legado de uma atitude desafiadora que teve papel marcante no desenvolvimento de uma vanguarda artística que então florescia. Mas acima de tudo, o combate-evento teria sido também o que pode ser considerado em retrospecto como “a performance do século” – de um homem empenhado em fazer da própria vida um permanente work in progress.

 

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