A existência humana e suas incertezas

Foi em 1998, quando o Inhotim ainda era apenas mais uma fazenda no país dos latifúndios, que o empresário e colecionador Bernardo Paz adquiriu sua primeira obra do pernambucano Tunga. Apontado pelo próprio Paz como um dos grandes incentivadores da instituição, o artista foi também um dos primeiros criadores a ver uma de suas obras montadas por lá, ainda em 2002. A obra era True Rouge, recentemente restaurada e, desde o último mês de setembro, iluminada pela inauguração de uma galeria completamente dedicada à obra do artista.

Como uma espécie de anfitriã da casa, a instalação À La Lumière Des Deux Mondes é quem recebe os visitantes da Galeria Tunga, grande destaque dentre as novidades que o Inhotim apresentou neste ano, dando sequência ao seu programa anual de inaugurações. Além dessa galeria, que reúne oito grandes instalações do artista pernambucano, assim como outros 15 trabalhos de menores dimensões, o instituto também revelou ao público montagens inéditas de criações da brasileira Lygia Pape, o cubano Carlos Garaicoa e a espanhola Cristina Iglesias.

Concebida há sete anos, quando foi montada dentro da pirâmide do Museu do Louvre, À La Lumière Des Deux Mondes (2005) é uma das mais expressivas obras do artista pernambucano e sintetiza elementos e questões bastante presentes em sua produção. A partir de um incontestável contraste entre preto e dourado, a instalação reúne crânios, ossadas e delicados rostos de esculturas clássicas em uma mesma rede de traves e fios, chamando atenção, em certo sentido, para o destino comum reservado a todo e qualquer ser humano.

É a condição humana, nesse sentido, que surge como questão a atravessar boa parte das obras dispostas no interior da galeria. Além de À La Lumière Des Deux Mondes, a casa é habitada por Palíndromo Incesto (1990–1992) e Lézart (1989), anteriormente expostas pelo museu, assim como por Nociferatu (2001-2011), Cooking crystals expanded (2009), A bela e a fera (2001), Sem Titulo – da série Vanguarda Viperina (1983) e o fundador filme-instalação Ão (1980), dentre outras criações. Se alguns trabalhos parecem desmontar o humano, reforçando a efemeridade de nossa existência, outros alegoricamente reconstroem a figura humana a partir da detalhada organização de elementos tão díspares quanto tigelas de inox e pedras preciosas – em nítido contraste com a espontaneidade da paisagem natural observada no exterior da galeria.

Paisagem semelhante, aliás, serve como elemento de inspiração e complementaridade à Vegetation Room Inhotim (2012), obra da espanhola Cristina Iglesias que também passa a figurar no acervo permanente do museu. Quase invisível por conta de uma fachada espelhada que a integra à densa vegetação do entorno, a instalação imersiva e labiríntica se apresenta como uma poética reconstrução do meio natural. Enquanto suas paredes internas criam orgânicas composições a partir de elementos da natureza, o piso convida o visitante à consciência sobre terras e águas que constantemente se movem sob nossos pés. A ausência de cobertura, por outro lado, serve como estímulo a uma situação privilegiada de contemplação do céu, a qual reforça a sensação de isolamento espacial e temporal proporcionada pela instalação.

A densidade material e simbólica dos espaços construídos pelo homem serve, por outro lado, como eixo da provocadora instalação Now Lets Play to Disappear II (2002), concebida pelo cubano Carlos Garaicoa e instalada em caráter temporário em um antigo estábulo do Inhotim. Na perecível maquete urbana criada pelo artista, o que se vê são pequenas esculturas que transformam em velas acesas edifícios e monumentos tão conhecidos quanto a Estátua da Liberdade e a Torre Eiffel. Tendo algumas câmeras de segurança como incontestáveis testemunhas de seu destino, a paisagem criada por Garaicoa chama atenção para o progressivo, permanente e inevitável desgaste de tudo aquilo que construímos.

Fisionomia e dimensões bastante diferentes tem a instalação Tteia, N.º 1, C (2002), da brasileira Lygia Pape, que ganha pavilhão exclusivo nas dependências do Inhotim. Exibida na 53.a Bienal de Veneza, em 2009, e no Museu Reina Sofia, em 2011, a sofisticada instalação da artista fluminense cria um imprevisível jogo entre luzes e fios dourados, únicos pontos visíveis em um amplo espaço de escuridão. Incerteza, instabilidade e incontestável beleza são algumas das sensações provocadas pelo trabalho da artista, outra criadora a se aventurar na recriação visual de aspectos inerentes à nossa contraditória natureza.7

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