A crítica como questão: Mario Pedrosa

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Consciente de que a crítica de arte é um fenômeno histórico, sem chancela para qualquer eternidade e que, como crise e critério, possui a mesma etimologia, Mario Pedrosa colocou em questão as atribuições de sua atividade assim como seu papel, a cada momento histórico. Reconhecendo que a própria arte passou a questionar suas antigas fundações, ao que o crítico deve responder, com critérios e abertura, assinala no contexto do chamado happening da crítica, em que é questionado sobre a aceitação no Salão, de Brasília, em 1967, de uma obra de Nelson Leirner ? um porco empalhado em um enquadrado de madeira com um presunto ? que o crítico vive em “permanente revolução”. Esta, talvez, a marca de sua atuação ao longo de quase cinco décadas.

No final dos anos 1940, momento da introdução de uma crítica de arte moderna no Brasil, em sua coluna no Correio da Manhã, quando volta do exílio após o fim do Estado Novo, Pedrosa propõe uma visão universalista da arte, na qual integra a artes das crianças, dos doentes mentais e a arte primitiva. Assinala a crescente valorização dos papéis do crítico com a atualização dos critérios de avaliação e entrecruzamento entre crítica, teoria da arte, história e estética, em um contexto de perda da maior parte do seu público potencial (especializado e detentor de códigos de leitura).

Convidado para ser diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo e coordenar a VI Bienal, Pedrosa uma vez mais volta à questão da crítica, despedindo-se de sua atividade como crítico militante, assinalando as diferenças de funções e posições. Se ao crítico cabe “intervir na própria atividade do artista”, ao diretor de um museu, sobretudo de um museu de arte moderna, necessariamente experimental, compete os “problemas em campo, ou melhor, com sua época”.

Em Paris, onde vive exilado depois do Golpe do Chile, uma nova torção se dá no seu pensamento crítico, questionando a continuidade da arte moderna. Escreve Discursos aos Tupiniquins ou Nambás. Nesse texto, discute a então propalada morte da arte, afirmando o estado de decadência da história da arte ao buscar responder a essa pergunta, em sociedades desenvolvidas em que arte, como capricho e luxo estetizante, sucumbe diante da voracidade do mercado capitalista. Se as vanguardas dos países da periferia, erroneamente, estão “correndo atrás para alcançar a ultimíssima novidade”, em vez de compreender que a história cultural do Terceiro Mundo não repetirá, em raccoursi, o desenvolvimento desses países, podendo, no entanto, construir sua própria história.

Ao voltar para o Brasil, empenha-se na organização da exposição Alegria de viver, Alegria de criar, apresentando a arte dos índios. Uma vez que a exposição não aconteceu devido ao incêndio do MAM-RJ, Pedrosa volta-se então para um plano de sua reconstrução. Já não se considera mais crítico, seu interesse, nesse momento, é essencialmente político.

 

1 PEDROSA, Mario. Do porco empalhado ou os critérios da crítica. Correio da Manhã, Rio de
Janeiro, 11 fev. 1968. Reed. In: AMARAL, Aracy (org.). Mundo, homem, arte em crise. São Paulo: Perspectiva, 1975; e In: FERREIRA, Glória (org.). Crítica de Arte no Brasil: temáticas contemporâneas. Rio de Janeiro: Funarte, 2006.
2 PEDROSA, Mario. O crítico e o diretor. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22 nov. 1960.

3 Mario Pedrosa. Discurso aos tupiniquins ou nambás. Redigido em Paris, 1975. In: Versus, n. 4, 1976. Reed In: DE SENNA FIGUEIREDO, Carlos Eduardo (org.). Mario Pedrosa, Retratos do exílio. Rio de Janeiro: Antares, 1982; e In: ARANTES, Otília (org). Política das artes. Mario Pedrosa. Textos escolhidos I. São Paulo: Edusp, 1995; e In: FERREIRA, Glória (org.). Crítica de Arte no Brasil: Temáticas Contemporâneas. Rio de Janeiro: FUNARTE, 2006
Discursos aos Tupiniquins e Nambás
4 Mario Pedrosa. A arte não é fundamental. A profissão do intelectual é ser revolucionário.
Entrevista. Rio de Janeiro: O Pasquim, n.648, 18 de novembro de 1981, matéria de capa, p. 7-11.

 

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