Atrás dos altíssimos muros de uma esquina no Jardim Botânico, Rio de Janeiro, esconde-se uma coleção tão versátil e delicada como a própria dona. Na casa de Frances Reynolds, figuras em cerâmica dividem espaço com um luminoso de Martin Creed e uma escultura europeia em bronze projeta sua sombra sobre a pintura de Janaína Tschäpe. A coleção e sua dona têm influências de várias partes do mundo, mas uma alma brasileira, e é com ela que Frances abre sua casa para receber artistas em residência com toda a estrutura e todo o carinho, uma forma única de mecenato que vem produzindo bons frutos.

Qual foi a primeira obra de arte que comprou?

Uma escultura de mármore, pequena, totalmente clássica, que ainda tenho.

E a última?

Uma das últimas foi uma pintura da Leonora Weissman.

Como você começou a se interessar por arte?

Sempre gostei. Na adolescência, na Argentina, tinha uma conhecida com quem fazia aulas de cerâmica, pintura, gravura, óleo. Para mim, ela era uma pessoa fantástica e isso me inspirou. Quando tinha 21 anos, já na Europa, namorei um alemão cujo pai era um grande colecionador e passávamos todos os fins de semana visitando coleções privadas, museus, exposições. Isso me marcou muito. Mais tarde, quando morava em Nova Iorque, comecei a colecionar. No começo, arte primitiva, bem diferente do que me interessa hoje.

E por arte brasileira?

Na verdade, conheci arte brasileira em Nova Iorque nos anos 1980, quando Marc Pottier me apresentou a Tunga. Comecei a me interessar e a comprar alguns trabalhos nessa época, sem jamais imaginar que um dia me casaria com um brasileiro e moraria aqui.

Seu gosto parece ser bem amplo.

Sim, hoje me interesso muito por arte contemporânea, mas na verdade gosto da mistura do novo e do antigo. Não podemos negar nossa história. Também gosto de porcelana Companhia das Índias, e a grande mentora para mim nessa área foi minha ex-sogra, Lily Marinho, que adorava.

Você mantém em sua casa uma espécie de residência. Como funciona?

Bem informal. Conheço o trabalho de um artista, interesso-me e o convido. Este ano esteve aqui o Leslie Sardinias, artista cubano, que veio com um curador e uma assistente. Ele ficou morando na casa de hóspedes, com espaço para pintar, pensar, receber pessoas. Também fiz uma espécie de galeria pop-up aqui em casa e um vernissage para ajudá-lo a vender as obras. Ele fez pinturas sobre papel inspiradas pelo Brasil, nossas cores, paisagens, nossa azulejaria. Tento dar a eles toda a estrutura, para que não tenham outras preocupações que não criar, isso abre a mente. Martin Creed, que foi um dos primeiros a vir, começou a trabalhar com bronze aqui. Também fez bastante pintura, que não é um suporte habitual para ele. O próximo será Do Ho Suh, escultor coreano. Vi uma instalação dele ocupando toda a galeria, pequenos homens segurando um vidro, que servia de chão. Comprei um pedaço e tive a oportunidade de convidá-lo com a mulher e dois filhos.

Tem alguma obra de arte dos sonhos?

Há muitos artistas que admiro, mas os clássicos como Giacometti, Picasso, eu adoraria ter. Também há uns europeus do século 20 maravilhosos. Mas hoje essas obras estão alcançando valores exorbitantes. Com mais de trinta milhões de novos milionários na China, fica difícil competir nos leilões.

O que a leva a comprar uma obra hoje?

Agora estou apostando em artistas jovens brasileiros, mas não tenho uma regra, não compro o que está na moda ou o nome de um artista. Tenho um processo de maturidade: quando gosto de uma obra, espero para ver o que vem depois, a não ser que seja algo arrebatador, que eu entre em uma sala e pense: “essa é minha”. Aí levo e me viro pra pagar depois (rs).

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