© Ernesto Neto. Cortesia: MAM SP

DASARTES 12 /

A brasilidade de Ernesto Neto

Conhece estas palavras: ComCreto, Dengo, Copulônia?

Ernesto Neto inventa-se carioca. Interessa-se pelas gírias. Procura filosofias onde só existiriam neologismos marginais. Para a 29a Bienal Internacional de São Paulo, planejou, a pedido dos curadores, uma praça, um lugar que chamou de “arrego”. Sim, na gíria, “pagar arrego” quer dizer: tudo combinado, sem preocupações, com todos os devidos acertos entre as partes. Gíria carioca. Para além disso, poder deitar na rede indígena de Macunaíma e curtir a festa e a preguiça. Escultura para descansar.

Em sua formação, Neto estudou com professores tanto no MAM/RJ quanto na Escola de Artes Visuais do Parque Lage na emblemática década de 1980. Das aulas, lembra-se dos exercícios em que os alunos produziriam à maneira de Alexander Calder, e de outro exercício, um tanto pitoresco, chamado “golpe de samurai”. Este consistia em aplicar um golpe no material, e, com os vestígios, fazer a escultura. Até hoje, afirma Neto, seu trabalho tem este forte apelo, deixar as formas caírem, adaptando-se ao impacto do ambiente expositivo. Tal gesto é, segundo o artista, um diálogo com o acaso. Talvez, por isso, Ernesto Neto posicione-se como um nefelibata, enxergando formas onde nós só enxergaríamos nuvens e vice-versa. Destas nebulosas, observação tão importante para a história da arte, abre-se a discussão dos limites da figura. Em trabalhos anteriores, ainda na década de 1980, já percebemos os estudos sobre peso, volume, tensão, na utilização de materiais bastante heterogêneos, como madeira, mármore, borracha, meias de seda. Hoje, seu ateliê funciona como uma oficina de costura: tecidos divididos por cor, linhas, máquinas, mesas de modelagem.

Dos tecidos, buscam-se diversos lados e tensões, esticando-os, estriando-os, cortando-os em pedaços. Ao movimentá-los até o limite, os trabalhos de Ernesto Neto criam uma lógica gregária, de conjunto, de partes que não pretendem se separar, como o mercúrio. Ao efetuar extensões dos tecidos até o limite do rasgo, Neto inclui outras cores. De um cilindro branco, surge uma estria rosa bebê internalizada. São corpos? Na compreensão figurativa, ainda que o artista nomeie um conjunto de esculturas feito com espuma – O Portão, O Jardim –, a associação realista é falha, errática se quisermos enxergar a relação direta da forma com as imagens. Não chamemos isso de imagem, bradariam os críticos formalistas, crendo na pureza e primazia da forma. Mas o artista responde com humor à querela histórica que apostava na negatividade excludente de tais associações. Neto segue a esteira de Eva Hesse e Louise Bourgeois, para quem as figuras eram resultantes de um processo aberto de associações, includente, aceitando a contaminação bem-humorada.

Afora isso, temos o corpo. O corpo, para Neto, é a possibilidade libertária dos dogmas racionalistas estéreis. Assim, o artista referenda-se na história colocando-se no time carioca ao se remeter ao polêmico Corinthians x Flamengo concretista, em que o Rio de Janeiro pedira a sensualidade do corpo para fugir das regras dogmáticas. Isto é revolucionário, diz o artista. Até hoje, os estrangeiros perguntam e, muitas vezes, justificam o fetiche sobre a arte brasileira no mundo com esta afirmação: “vocês têm o corpo”. Ernesto Neto fala disso com orgulho, mas, ainda assim, não sabe explicar o mistério. Eu argumento que esta é uma seara sedutora e perigosa, precisamos mostrar que podemos ser racionais. A isso, ele me responde com arte. Explica, por exemplo, a lógica do camelô. Montar, desmontar, criar formas, usar cores, dispor para seduzir, fazer com que o público se sinta acolhido. Neto recorda a época em que começou a expor em feiras de arte internacionais, levando os trabalhos em caixas de papelão que cabiam para despachar como malas. “Uma vez, recorda ele, fiz a escultura, coloquei numa caixa e peguei um voo Rio-Guarulhos. Encontrei Carla Camargo [antiga sócia de Marcantônio Vilaça na Galeria Carmargo Vilaça], que embarcaria para uma feira internacional, e entreguei a escultura, que não ocuparia nenhuma parede, seria colocada no meio do estande e presa pelas pontas.” Para Neto, esta lógica acompanha seus trabalhos. A lógica da expansão, da invasão, da busca pelo espaço ao lado. Percebemos, com isso, o quanto esta elasticidade, conseguida por Neto com o uso de malhas, sedas, cordas elásticas, procede de uma atitude reflexiva sobre o espaço e a ocupação de territórios. Territórios cada vez mais desbravados e conquistados pelo mundo.

É daí que surge, muitas vezes, sua monumentalidade. Ao mesmo tempo, a força da forma lânguida, derretida, tentacular, escorrendo, gera uma organicidade, uma dança, como nos derretimentos de Matisse, qual a instabilidade de Calder, assemelhando-se aos trepantes de Morris e Clark. Para a exposição Leviatã, no Panthéon de Paris, em 2006, Ernesto Neto disse ter percebido a força dos contrários, a possibilidade que um corpo tem de se opor à racionalidade estrutural, um que sustenta outro que se esvai, como na lógica da Pietá.

Malemolência. É dengo que o Ernesto tem. Para a exposição do MAM, tudo o que foi dito acima e mais um pouco. Ernesto Neto planeja Dengo, ambiente composto de variadas tramas, criando redes, sacos, tapetes multicoloridos. Por dentro, dádivas: latas de diversas bebidas consumidas em uma festa, balas, bombons, tudo para o consumo do público. Pendurados em ganchos, saquinhos de plástico, como os do camelô, que o artista pensa em fazer também em filó, “para as dondocas”, com produtos. Sim, a escultura desfaz-se em produto, consumo, encontro, acrescentando realidade à plasticidade das lojas de Claes Oldenburg. Festa. Parque de diversões. É pelos caminhos de Oiticica, Los Carpinteros, Carsten Höller que se situa o ritual de Neto. Pensando em celebração, troca, mergulho na alegria, podemos entender a que se destina o olhar deste artista na contemporaneidade. Fazer da obra a transgressão da ordem. Reinventar a ordem. Busca-se, assim, como no “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda, uma “forma viva que se converteu em fórmula”, tratando com intimidade os enunciados da cidade que prometem vantagens: cinco balas por um real.

Compartilhar:

Confira outras matérias

Destaque, materia, yves klein

Yves Klein - Cronologia

CRONOLOGIA

1928 – Nasce em Nice, filho de um casal de artistas.
1947 – Inicia seus estudos do Judô e, no Clube …

Destaque, materias

57ª Bienal de Veneza

Viva Arte Viva

A 57ª Bienal de Arte de Veneza intitulada “Viva Arte Viva” inaugurou no início do mês de maio, …

Piti Tomé

O trabalho de Piti Tomé gira em torno da fotografia e da experimentação com a imagem. Sua pesquisa tangencia questões da psicanálise e trata …

Felipe Barbosa

Em junho e julho, o Brasil respirará o maior evento mundial de futebol: a Copa. Independentemente de questões políticas ou …

Bruno Miguel

A pesquisa sobre o espaço da pintura de paisagem na arte contemporânea e a expansão do campo pictórico tem sido o …