© divulgação

Talvez, como sempre tenha sido, é comum hoje encontrarmos pessoas com bastante idade se iniciando no campo artístico; aprendendo pintura ou inventando com novos meios. É possível que o medo do néant da aposentaria, experiências passadas ou o eterno desejo jamais realizado os levem a se aventurarem. Sempre com muito entusiasmo, mas também muitas dúvidas em um campo, embora exigente, que permite a expressão livre, distinto assim de outros que exigem conhecimentos anteriores ou conceitos intelectuais. Chegam com muitas experiências de vida, por vezes sem condições de expressá-las devidamente, apesar de serem essas o principal ímpeto que as faz buscar cursos de arte.

Como afirma Mario Pedrosa, no texto Arte necessidade vital, a atividade artística é extensiva a todos:

Essa atividade [artística] se estende a todos os seres humanos, e não é mais a ocupação exclusiva de uma confraria especializada que exige diploma para nela se ter acesso. A vontade de arte se manifesta em qualquer homem de nossa terra, independente do seu meridiano, seja ele papua ou cafuzo, brasileiro ou russo, negro ou amarelo, letrado ou iletrado, equilibrado ou desequilibrado.

Em geral são mulheres, mesmo aquelas que tiveram profissões definidas e por vezes bem sucedidas. Grande parte são daquelas que precisam esperar os filhos crescerem para ter tempo e desejo de tentar possíveis novas experiências, demonstrando as dificuldades de a mulher ter um papel social ativo. É comum cursos particulares, cujo público é essencialmente de pessoas com mais idade, sendo, no entanto, mais raros os que procuram os cursos de pós-graduação em arte, prática comum aos artistas mais jovens. No Rio, a Escola de Artes Visuais do Parque Lage sempre foi um espaço aberto a diferentes idades, embora atualmente seu corpo discente seja, sobretudo, de jovens. Tem sido nessa escola onde grande parte dessas pessoas se forma, seguindo diferentes cursos. Lúcia Laguna, com sua pintura, é exemplar desse processo. Tomie Otahke, partindo de outra experiência, e agora em seu centenário, é outra artista que também começou tarde.

Cabe, talvez, a interrogação: se haveria diferença entre esses trabalhos e os dos jovens, cuja história remete quase sempre ao gosto pelo desenho desde criança. Creio que existe e pode sempre haver artistas excepcionais entre esse grupo de pessoas mais velhas, com o risco, contudo, de, por vezes, o trabalho artístico ser levado como hobby ou simples passatempo. Entre os jovens há sempre mais tempo para ganhar experiência, mudar, enfim, estabelecer um bom trabalho, sem, contudo, estar definido de antemão.

1 PEDROSA, Mario. Arte, necessidade vital. Conferência de encerramento da exposição organizada pelo Centro Psiquiátrico Nacional, com apoio da Associação dos Artistas Brasileiros na ABI, 31 de março, 1947. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 13 e 21 abr. 1947; Reed. In: PEDROSA, Mario. Arte, necessidade vital. Rio de Janeiro: Livraria e Editora Casa do Estudante, 1949; In: ARANTES, Otília (org.). Forma e percepção estética. Mario Pedrosa. Textos escolhidos II. São Paulo: Edusp, 1995.

Compartilhar: